Aventuras de Tintim, As

18/01/2012 | Categoria: Críticas

Apesar dos planos-seqüência incríveis e das proezas técnicas, o esforço de acompanhar tanta correria na tela faz até a platéia perder um pouco o fôlego

Por: Rodrigo Carreiro

 NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Muita gente que viveu a infância em algum ponto de medos do século XX acalentou o sonho de ver as aventuras do jovem repórter Tintim, sucesso europeu nos quadrinhos entre as décadas de 1930 e 1980, na tela grande. No entanto, o cartunista belga Hergé foi teimoso e, enquanto esteve vivo, impediu a venda dos direitos sobre o personagem mais famoso que criou para a indústria cinematográfica norte-americana. Depois que ele morreu, em 1983, cineastas de prestígio iniciaram uma briga surda nos bastidores para tentar adquirir esses direitos. Steven Spielberg venceu a briga, e o resultado é “As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licórnio” (The Adventures of Tintim, EUA, 2011), filme que possui seqüências tecnicamente brilhantes, mas em compensação padece de um ritmo tão frenético e incessante que deixa o espectador com a língua de fora – o esforço de acompanhar tanta correria na tela nos faz até mesmo perder um pouco o fôlego, tantas são as informações visuais, sonoras e narrativas a serem assimiladas de forma simultânea.

De fato, “As Aventuras de Tintim” possui um atrativo extra para quem acompanha cinema de perto, já que marca a primeira parceria entre Spielberg e o neozelandês Peter Jackson (“O Senhor dos Anéis”), que nesse filme assina a produção e a direção de segunda unidade. Jackson, atuando de modo mais ou menos semelhante ao que ocorreu entre Spielberg e George Lucas no seriado Indiana Jones, ajudou o amigo no desenvolvimento da tecnologia de captura de movimento, usada para registrar as ações físicas realizadas pelos atores através de sensores eletrônicos. Numa etapa posterior, esses movimentos foram “cobertos” por animação digital de ponta. Essa tecnologia permite absoluta liberdade de movimentos de câmera m(que existe apenas virtualmente, e por isso pode ser “posicionada” em qualquer lugar da cena). Isso resulta em alguns planos-seqüência deslumbrantes.

Antes de falar desse aspecto técnico, contudo, vale a pena mencionar que o roteiro, escrito por Steven Moffat e burilado num segundo momento pelos cineastas Edgar Wright (“Scott Pilgrim Contra o Mundo”) e Joe Cornish (“Ataque ao Prédio”), reserva pouco ou nenhum espaço para desenvolvimento de personagens. Os protagonistas são apenas rascunhos unidimensionais – o jovem e destemido repórter Tintim, o marinheiro bêbado bonzinho Capitão Haddock, o esperto cão Milo, o ambíguo vilão Sakharine e os detetives Dupont e Dupond – que correm freneticamente de um lado a outro, usando navios, aviões e quaisquer veículos disponíveis para desvendar o mistério do enigma encontrado dentro da miniatura de um galeão do século XVI. Nada de errado com isso, é preciso que se diga. Nos seriados de aventura dos anos 1930, que inspiraram tanto Spielberg quanto Hergé, caracterização era a menor das preocupações dos roteiristas e diretores.

Ocorre que Spielberg, fascinado com a nova tecnologia que seu dinheiro e prestígio permitiram comprar, parece mais interessado na técnica do que no enredo. Além de conceber incríveis planos sem cortes – os dois mais impressionantes envolvem, respectivamente, (1) um cão perseguindo um malfeitor entre escadas, paredes, portas e janelas, e (2) um grupo de vários homens e animais lutando pela posse de três pedaços de papel pelas ruas de uma cidade africana -, Spielberg realiza longas seqüências de perseguição frenéticas (o vôo de avião de Tintim e Haddock, intercalado com uma série de lembranças do passado, ganha o destaque). Além disso, toda a parte técnica do filme é impecável, incluindo a animação, as atuações, a iluminação e o desenho de produção. Tudo é bastante realista e hiper-detalhado, e nesse sentido o longa-metragem se afasta bastante do espírito original do cartum, mais bem-humorado e com um estilo de direção de arte muito mais simples.

Se a realização de “As Aventuras de Tintim” impressiona, o roteiro deixa a desejar. Nem os escritores e nem o diretor foram capazes de contornar uma situação narrativa simples, que consiste na grande quantidade de monólogos expositivos, ditos em voz alta pelo personagem principal. Tintim não para de falar; aliás, exibe os mesmos cacoetes da câmera de Spielberg, que está sempre em movimento e buscando constantemente um ângulo impossível (algo simples de realizar, aqui, por causa da tecnologia de captura de movimentos). A tagarelice de Tintim se une, assim, ao movimentar incessante da câmera e da ação narrativa, que se desloca o tempo inteiro e dá pouco tempo para que a platéia possa assimilar o grande número de acontecimentos e reviravoltas narrativas presentes na trama. Para resumir em uma frase, “As Aventuras de Tintim” é um espetáculo de tecnologia e recursos cênicos, mas contém um excesso de informações visuais e narrativas com o qual parte da platéia pode ter dificuldade de lidar.

– As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne (The Adventures of Tintim, EUA, 2011)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig, Simon Pegg
Duração: 109 minutos

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