Aventuras do Barão Munchausen, As

07/05/2008 | Categoria: Críticas

Ode à fantasia possui o humor excêntrico e o visual extravagante típicos dos filmes de Terry Gilliam

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O Barão de Munchausen existiu de verdade. O personagem, que faz parte do folclore europeu, foi um aventureiro alemão conhecido pelas mentiras que contava nas rodas das altas cortes européias do século XVI. Ele era tão mentiroso que não fez nenhuma questão de vir a público para condenar a publicação de um livro, em 1785, que exagerava ainda mais seus feitos, incluindo até mesmo uma viagem à Lua. Um personagem assim, claro, parece ter sido feito sob medida para uma cinebiografia dirigida por Terry Gilliam, o diretor amalucado que cuidava das extravagâncias visuais do lendário sexteto cômico Monty Python. “As Aventuras do Barão Munchausen” (The Adventures of Baron Munchausen, EUA/Inglaterra, 1988) foi a terceira produção assinada por ele, e uma das mais interessantes.

Trata-se, afinal de contas, de um legítimo filme de Terry Gilliam, com todas as virtudes e defeitos que isso representa. A aventura cômica de US$ 46 milhões possui a extravagância visual e o senso de humor excêntrico que caracterizam toda a obra solo do cineasta, mais ambiciosa e menos engraçado do que a do Monty Python. Tem, também o tema central que percorre toda a obra de Gilliam – a dualidade razão x fantasia, com ênfase na importância desta última para a sobrevivência sadia em um mundo decadente – e um protagonista com a personalidade do próprio diretor. É possível, inclusive, traçar um curioso paralelo entre a jornada quixotesca do personagem e a abordagem maníaca de Terry Gilliam ao filme. Nos dois casos, temos um sujeito aparentemente louco, que enfrenta a tudo e a todos por um objetivo que parece racionalmente impossível, mas cuja fé na fantasia termina por superar as barreiras e vencer no final.

Esta jornada aconteceu na tela e também por trás dela. A produção de “As Aventuras do Barão Munchausen” está recheada de brigas espetaculares, demissões, interrupções, atrasos e estouros de orçamento. Em 1988, o filme ficou pronto por US$ 46 milhões, quantia que o colocava como a terceira produção mais cara de todo o cinema, naquele tempo. Ainda assim, graças às brigas internas entre os membros da equipe criativa e destes com a Columbia (estúdio que bancava a brincadeira), o lançamento nos cinemas foi feito sem um esquema eficiente de marketing, e com quantidade ridícula de cópias em circulação (apenas 117, número pequeno até para um filme brasileiro de médio porte). A curto prazo, o descaso produziu um fracasso. A longo prazo, acabou germinando um clássico cult.

Não se trata de um filme perfeito, mas é uma das narrativas mais coerentes e mais bem amarradas da carreira de Gilliam. O diretor teve o cuidado de evitar que a história se tornasse uma mera compilação de casos engraçados. Criou uma personagem que funciona como centro emocional do enredo – uma menina (Sarah Polley) com espírito aventureiro e senso aguçado de fantasia – e um objetivo dramático que funciona como fio condutor para uma série de aventuras do barão de Munchausen (John Neville). Já velho, o aristocrata precisa encontrar e reunir os antigos companheiros de aventuras, espalhados pelo mundo, para liderar a resistência aos moradores cidade onde mora a criança, cercada e bombardeada pelos turcos. As aventuras incluem um passeio com um balão feito de calcinhas femininas, uma viagem à Lua, encontros com o deus Vulcano, um flerte romântico com Vênus e até uma passagem pelo ventre de um monstro marinho.

Os efeitos especiais, produzidos à moda antiga, parecem ultrapassados para o século XXI, mas de certa forma isso acaba funcionando a favor do filme, já que sublinha de modo lúdico e divertido o tema principal do filme (“num mundo sem fantasia não há lugar para o Barão de Munchausen”, diz o próprio, em certo momento, resumindo a filosofia do diretor). O elenco inteiro parece se divertir à beça, e a fotografia do italiano Giuseppe Rotunno é nunca menos do que espetacular, valorizando cada centímetro dos figurinos hiperbólicos e iluminando de forma soberba os sets mais difíceis, como o interior do vulcão onde o deus do fogo enfrenta uma greve de operários. Não se trata, como um filme do Monty Python, de uma comédia rasgada onde se gargalha a cada segundo, mas o humor charmoso é encantador e contagiante.

O DVD lançado no Brasil pela Sony é duplo, e contém um disco só de extras. No primeiro CD do pacote está o filme, com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Ele vem acompanhado de comentário em áudio com Gilliam e o roteirista Charles McKeown (legendado em português). O disco 2 traz um ótimo documentário cobrindo os complicados bastidores da produção (72 minutos), em que todos os principais envolvidos falam com franqueza, sem poupar críticas entre si, mais uma galeria de cenas cortadas e storyboards animados com comentários de Gilliam.

– As Aventuras do Barão Munchausen (The Adventures of Baron Munchausen, EUA/Inglaterra, 1988)
Direção: Terry Gilliam
Elenco: John Neville, Eric Idle, Sarah Polley, Robin Williams
Duração: 126 minutos

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