Babel

30/05/2007 | Categoria: Críticas

Admirável do ponto de vista técnico, filme de Alejandro Iñárritu persegue com afinco uma catarse emocional

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Provocar uma catarse em cada membro da platéia. Este é o objetivo primário dos filmes dirigidos pelo mexicano Alejandro Gonzáles Iñárritu. É simples: tudo o que ele filma tem que dar vontade de chorar. Cada composição visual é meticulosamente criada com esta intenção. Goste-se ou não do cinema intensamente estilizado que Iñárritu pratica, a catarse emocional é inevitável para qualquer pessoa que se aventure na platéia de uma produção com a assinatura dele. “Babel” (EUA/México, 2006), terceiro e mais ambicioso título da lavra do mexicano, cumpre perfeitamente esta intenção. Pessoas sensíveis devem assistir ao filme munidas de lenços, pois as lágrimas são inevitáveis.

Quando colocado ao lado dos anteriores “Amores Brutos” (2000) e “21 Gramas” (2003), “Babel” compõe uma espécie de trilogia informal de clara unidade temática e estética. Todos os filmes funcionam como compêndios de desgraças pessoais ligadas ao acaso, e todos são narrados de maneira cronologicamente fragmentada. Iñárritu é um raro diretor que utiliza, de forma criativa e original, os conceitos expressos pela teoria do caos – a crença de que um acontecimento, por mais prosaico e banal que pareça, sempre integra uma cadeia de causas e conseqüências que se desdobra de maneiras imprevisíveis – em dramas de natureza trágica. De certa forma, é curioso ver um cineasta perseguir a idéia do caos sem filmar nada que pareça minimamente uma comédia ou aventura, gêneros que o cinema costuma eleger para explorar a teoria do caos.

Como já foi dito, “Babel” é um melodrama pesado e agridoce, em que a maioria dos personagens é obrigada a lidar com tragédias pessoais inesperadas. Como filme, trata-se do tipo de material que não leva multidões aos cinemas, mas agrada bastante à elite intelectual dos EUA, e costuma fazer bonito nas premiações anuais. Olhando por este ângulo, fica fácil compreender como um filme de porte médio, feito ao custo de US$ 25 milhões, conseguiu atrair astros do porte de Brad Pitt, cujo salário habitual sozinho já consumiria todo o orçamento. Para um nome deste porte, um filme como “Babel” significa trabalhar pouco, apenas durante alguns dias, e garantir presença maciça no noticiário, além de colher elogios da crítica e alguns prêmios importantes. Ou seja, trata-se de um investimento de marketing.

“Babel” parece fugir das fórmulas pré-concebidas, mas na verdade investe em um outro tipo de esqueleto narrativo. Embora seja mais inteligente, humano e profundo do que 95% da produção dos grandes estúdios de Hollywood, o filme de Iñárritu também segue uma fórmula. O mexicano não inventou a narrativa fragmentada em tempo e espaço – basta lembrar de “Crash” e “Magnólia”, para citar apenas dois – mas abraçou esta técnica com força, refinando-a e adotando-a como marca registrada. O resultado é admirável do ponto de vista técnico (fotografia, montagem, roteiro), mas carece da delicadeza, da espontaneidade e do senso de humanidade que diretores como Robert Altman, o grande mestre dos painéis coletivos cinematográficos, sabem tecer com precisão.

Em “Babel”, tudo é melodramático e triste. As pessoas vivem em ambientes de atmosfera tensa e carregada, estando no Marrocos ou no Japão, no México ou nos Estados Unidos. Tudo é emocionalmente cinzento. O senso de banalidade cotidiana que dava cor e variedade em Altman não existe em “Babel”, um filme de semblante carrancudo, sem o menor traço de senso de humor. Em linhas gerais, a narrativa se divide em quatro núcleos, sendo dois deles no Marrocos, outro na fronteira México/EUA e o último no Japão. A ação cobre um período de cinco dias, mas a história não é contada de forma linear, cabendo ao espectador a tarefa de montar mentalmente a ordem correta das cenas.

No país africano, acompanhamos dois garotos pastores de cabras e um casal de turistas americanos. Os meninos, brincando com o rifle que usam para afastar os chacais dos caprinos, atingem sem querer o ônibus onde viajam Richard (Pitt) e Susan (Cate Blanchett). Enquanto isso, nos Estados Unidos, os filhos do casal estão sob os cuidados de Amelia (Adriana Barraza), a babá chicana que precisa dar um jeito de ir ao casamento do filho, do outro lado da fronteira. Em paralelo, “Babel” também enfoca a vida, no Japão, de uma garota surda-muda (Rinko Kikuchi), sofrendo com a solidão a que a adolescência condena as pessoas, algo agravado pela condição médica e por uma tragédia do passado.

Num primeiro momento, o filme não esclarece qual a ligação entre a história japonesa e os dramas que se desenrolam em dois desertos, o marroquino e o californiano, mas obviamente existe uma conexão, revelada na segunda metade da trama. Numa comparação rápida, “Babel” é realmente mais acessível do que os dois filmes anteriores de Iñárritu. As relações entre os personagens, seus passados e motivações ficam claros sem que seja preciso fazer qualquer esforço para reconhecê-los. Mérito do roteirista Guillermo Arriaga, um craque neste tipo de quebra-cabeças cinematográfico (além de escrever “Amores Brutos” e “21 Gramas”, ele foi o responsável pelo texto sensível de “Três Enterros”, dirigido por Tommy Lee Jones).

Tudo é muito bem filmado no aspecto técnico. A fotografia de Rodrigo Prieto (“Brokeback Mountain”) captura com propriedade as nuances de cor e clima de cada território. No Marrocos, por exemplo, são privilegiadas as tomadas panorâmicas, que não apenas valorizam o ambiente natural do lugar, mas também acentuam o isolamento emocional dos dois turistas norte-americanos, que lá estão para tentar superar um trauma do passado (aliás, perceba como o passado traz recordações desagradáveis para quase todos os personagens importantes). Já a parte japonesa da história tem uma edição mais veloz, enfatizando as tomadas em ambientes internos, as luzes artificiais e os enquadramentos fechados que ilustram a angústia crescente de Chieko, a menina solitária.

Por outro lado, a trilha sonora de Gustavo Santaolalla (novamente “Brokeback Mountain”) não é bem utilizada pelo diretor. Freqüentemente intrusivas e tocadas em volume ensurdecedor, as belas melodias acústicas vão muito além de sublinhar as emoções dos personagens, praticamente martelando-as na platéia de forma incessante, como se o cineasta estivesse inseguro sobre a eficiência da mensagem que está querendo passar. A tomar por este aspecto, parece muito apropriado o rótulo de artista pós-moderno que vem sendo colado ao trabalho de Iñárritu. “Babel” lembra bastante a teoria de esmaecimento do afeto cunhada por Fredric Jameson, um dos teóricos mais importantes do pós-modernismo. Em linhas gerais, esta teoria diz que a abundância de informações e a velocidade dos fatos são tão grandes, no mundo pós-moderno, que causam um entorpecimento na capacidade de sentir das pessoas. Assim, para emocionar uma platéia, não bastaria mais a um cineasta contar uma história. O modo de fazê-lo tem que ser o mais bombástico possível.

Entre os muitos acertos de “Babel”, está a capacidade de fazer comentários significativos sobre muitos temas relevantes, como o choque de culturas (há uma seqüência muito boa, em que uma galinha é decapitada na frente de um grupo de crianças de várias nacionalidades, e somente as norte-americanas ficam impressionadas), a política que burocratiza e amplifica uma tragédia banal, as dificuldades de comunicação entre as pessoas (isto explica o título, referência óbvia à história bíblica) e, acima de tudo, a idéia de que todos nós estamos conectados de alguma forma, em uma teia de causas e conseqüências. A opção por usar apenas quatro núcleos narrativos é correta, pois ajuda a dar mais foco e dimensão aos personagens – ficamos sabendo apenas uma ou duas coisas a respeito de cada um, e é suficiente, pois o que importa aqui é a teia de eventos, e não os dramas pessoais.

Apesar disso, “Babel” não é um grande filme, e tem muitos problemas. Para começar, é longo demais – há seqüências, como o casamento no México e a ida da adolescente japonesa a uma boate, que parecem nunca terminar. Além disso, a manipulação cronológica das quatro histórias é nitidamente realizada para fazer com que todas elas atinjam o pico dramático exatamente no mesmo momento de projeção, o que dissipa bastante o caráter realista das imagens como um todo. A rigor, os problemas não estão no material bruto (o roteiro de Arriaga lembra bastante o excelente “Três Enterros”, de 2005, que ele também escreveu e foi transformado em filme de maneira bem mais delicada e intimista), mas na sensibilidade estridente do diretor. De todo modo, “Babel” é um filme com a cara de Alejandro Iñárritu. Se você conhece o cineasta e gosta dele, tem aqui um prato cheio.

O DVD é um lançamento Paramount. O filme tem boa qualidade de imagem (widescreen 1.78:1 anamórfico) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Babel (EUA/México, 2006)
Direção: Alejandro González Iñárritu
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Adriana Barraza, Gael Garcia Bernal
Duração: 142 minutos

| Mais


Deixar comentário