Bad Timing – Contratempo

04/04/2007 | Categoria: Críticas

Estudo de Nicolas Roeg sobre obsessão sexual é filme cult que passou anos proibido

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

“Um filme doente, feito por pessoas doentes, para pessoas doentes”. Com esta frase nada singela, a produtora Rank demonstrou seu descontentamento com a edição final de “Bad Timing – Contratempo” (Reino Unido, 1980), um dos mais polêmicos filmes dirigidos pelo australiano Nicolas Roeg. Tendo financiado a produção independente, a empresa não podia, por contrato, interferir no resultado final. Optou por realizar um lançamento reduzido, com apenas cinco cópias (!), eliminando o logotipo da firma de todas elas. Depois, enterrou o filme num limbo cinematográfico por mais de duas décadas, sem apresentá-lo em eventos comemorativos ou festivais, e negando-se a lançá-lo em VHS ou DVD.

A enorme polêmica criada em torno desta reação destemperada da empresa, associada à dificuldade natural do público para ter acesso a cópias piratas, emprestou a “Bad Timing” uma aura cult imbatível. Virtualmente desconhecido por grande parte da comunidade de cinéfilos, inclusive por aquela seção reduzida de aficionados do cineasta, o filme gerou todo tipo de especulação. Imaginou-se que continha cenas de sexo explícito, violência extrema, ou mesmo que seria uma sucessão de imagens desconexas sem qualquer sentido plausível. Toda esta lenda criada ao redor do longa-metragem só foi dissipada em 2005, quando a Criterion Collection conseguiu resgatar o filme da obscuridade, lançando-o em um DVD caprichado nos Estados Unidos.

Visto tardiamente, “Bad Timing” chama muito mais atenção sobre a montagem fragmentada – principal característica da série de obras visionárias que o cineasta assinou na década de 1970 – do que pelo conteúdo. Em termos de temática, se encaixa perfeitamente na galeria de filmes, muito populares na época da produção, que exploravam o tema da obsessão sexual, como “O Último Tango em Paris” (1972) ou “O Império dos Sentidos” (1976). O que temos, aqui, é a história de dois norte-americanos que se encontram em Viena, em 1979, e se apaixonam perdidamente um pelo outro. O problema está nos temperamentos agressivos, e situados em pólos opostos, de ambos.

O psicanalista Alex Linden (Art Garfunkel, surpreendentemente seguro) é um homem rígido, conservador e possessivo, de rosto sempre fechado, que gosta de ter controle absoluto sobre tudo a seu redor. Milena Flaherty (Theresa Russell, linda e talentosa), uma bela jovem de 21 anos casada por conveniência com um tcheco de meia-idade (Denholm Elliott), é o contrário dele: sexy, engraçada, impulsiva, o tipo de pessoa que gosta de viver perigosamente, flertando com desconhecidos e sugando cada momento sem pensar no seguinte. Cara e coroa, ying e yang. Como é de hábito em Roeg, contudo, a violenta tensão sexual entre os dois amantes é filmada fora da ordem cronológica, e inclui diversos exemplos da famosa técnica de montagem por associação, que Roeg criou e patenteou.

O filme é narrado do ponto de vista de Netsuil (Harvey Keitel), detetive que investiga a uma tentativa de suicídio cometida por Milena. De fato, a narração começa pelo final, quando a garota é levada ao hospital, inconsciente, pelo namorado. É lá que, desconfiado com o comportamento de Alex, o policial tenta reconstituir o que ocorreu naquela noite. Aí, usando a famosa técnica de edição não-linear, o cineasta australiano narra o caso de amor torto, recheado de sexo, cigarros e cenas de ciúmes de parte a parte. A intenção de Roeg, plenamente alcançada, era ilustrar o choque entre fascínio e repulsa que acompanha uma paixão realmente avassaladora entre amantes obsessivos.

Há duas cenas, em particular, dignas de nota. A primeira é um exemplo clássico de estilo fragmentado de montagem adotado pelo diretor – ele mistura as imagens violentas de uma traqueostomia com outras de um orgasmo feminino, criando um híbrido polêmico que pode desagradar a muita gente. A outra, talvez responsável pela repulsa da distribuidora inglesa, envolve um estupro ocorrido em condições, digamos, bastante incomuns e delicadas. Um filme brutal, dono de uma poesia cortante e mundana, que talvez não esteja entre os melhores de Roeg, mas tem qualidades.

A NBO lançou o DVD no Brasil, em edição similar à despejada nas lojas dos EUA pela Criterion. A qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0) é boa. Entrevistas retrospectivas de Roeg (30 minutos) e Russell (20 minutos) completam o pacote. Há ainda uma galeria de cenas cortadas (10 minutos), tudo com legendas em português.

– Bad Timing – Contratempo (Reino Unido, 1980)
Direção: Nicolas Roeg
Elenco: Art Garfunkel, Theresa Russell, Harvey Keitel, Denholm Elliott
Duração: 123 minutos

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