Bala Para o General, Uma

28/09/2005 | Categoria: Críticas

Faroeste engajado de Damiano Damiani serviu de inspiração para obra menor de Sergio Leone

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A sombra do cineasta Sergio Leone é tão intensa sobre os demais diretores ligados ao faroeste italiano que a primeira impressão de quem assiste a “Uma Bala Para o General” (El Chucho, Quién Sabe?, Itália, 1967) é de que o filme tenta seguir os passos da menos conhecida obra do mestre italiano, “Quando Explode a Vingança”. Uma checagem rápida, contudo, esclarece o engano. Leone dirigiu em 1971 seu filme ambientado durante a revolução mexicana. Ou seja, quatro anos depois de Damiano Damiani ter realizado sua aventura engajada em terras chicanas. Portanto, pelo menos desta vez, foi o mestre quem seguiu o pupilo, e não o contrário.

Damiani revela-se um diretor singular dentro dos criadores dos chamados faroestes spaghetti. Não é um cineasta instintivo como Sergio Corbucci e nem um estilista como Leone, mas certamente tem um modo limpo e técnico de atuar, sem chamar muito a atenção para si. “Uma Bala Para o General” é uma obra madura, com ritmo dinâmico, personagens bem delineados e excelente fotografia das paisagens de Almeria (Espanha), o deserto onde quase todos os longas do estilo foram filmados. Dá para dizer, sem medo de errar, que o filme de 1971 de Sergio Leone deve muito, tanto no visual quanto no enredo, a esta obra de Damiani.

De certa forma, “Uma Bala Para o General” é um filme sobre a amizade masculina. O enfoque primário do diretor não é sobre um personagem, mas sobre a relação entre dois homens muito diferentes: o bandido mexicano Chucho (Gian Maria Volonté) e o almofadinha norte-americano Gringo (Lou Castel). Eles são sujeitos que vivem de maneira completamente distintas. O primeiro é alegre e falante, uma verdadeira metralhadora verbal que vive com barba por fazer e rosto suado. Já Gringo sempre se veste de modo impecável e quase não abre a boca. Seus valores, como o filme vai se encarregar de mostrar, são tão diferentes entre si quanto as aparências.

Os dois se encontram durante a primeira seqüência, em que o grupo de Chucho ataca um trem carregado de armas. Eles desejam roubar o carregamento para vendê-lo a um chefe da revolução, Elias (Jaime Fernandéz). Gringo está no trem, e interfere de modo decisivo para que o bandido mexicano consiga sucesso. O americano então se junta ao bando. Ele diz que não tem para onde ir, pois é um fugitivo da polícia mexicana. O verdadeiro motivo, porém, é um mistério que se revela a mola-mestra do longa-metragem. O público sabe que ele está mentindo, pois Damiani nos mostra que ele põe uma algema falsa, de modo a grangear a simpatia de Chucho. Mas as reais intenções do almofadinha vão permanecer sob o manto do mistério até o surpreendente final.

No curso do enredo, Damiani também aproveita para colocar uma pitada de engajamento no filme. Faz isso, no entanto, sem transformar a obra em um discurso político; a questão aparece para os personagens de modo prático, em ações de cotidiano. A certo momento, por exemplo, Chucho é obrigado a tomar uma decisão importante: abandona um vilarejo rebelde e segue viagem para entregar um lote de armas a Elias, ou permanece no lugar e defende os habitantes dos ataques do exército? É uma decisão, em última instância, ideológica, mas que é apresentada a Chucho sem ranço político. Ou seja, “Uma Bala Para o General” transpõe com perícia um discurso ideológico para o dia-a-dia dos dois amigos. É um feito e tanto.

Damiano Damiani é um diretor de destaque no ciclo de faroestes italianos porque seguiu um caminho autoral, e não simplesmente copiou o estilo personalista de Sergio Leone. Um dos dados que comprova isso é o tipo de humor que Damiani insere na narrativa. O tom é cínico, bem distante da galhofa que Leone tanto gostava. O personagem que melhor exprime isso em “Uma Bala Para o General” é o vivido por Klaus Kinski: um revolucionário religioso, espécie de Antônio Conselheiro do bando. Em uma cena impagável, Santo explode um regimento completo do exército do México, com granadas, enquanto reza uma oração. É uma piada brilhante, mas que não provoca gargalhadas.

Na parte técnica, o que se sobressai é a excelente trilha sonora de Luis Bacalov, devidamente supervisionada pelo mestre Ennio Morricone. A parte musical é quase sempre composta por canções típicas do México, sem nada dos lamentos que Morricone criava para as obras de Leone – o que também se revela um dado positivo, pois mostra a vontade do diretor em criar um estilo próprio para si. As excelentes composições e enquadramentos criados por Antonio Sacchi garantem uma fotografia eficiente, que captura o calor e a luz esfuziante das locações com propriedade.

Para completar, “Uma Bala Para o General” ainda conta com um dos mais interessantes finais de filmes de faroeste já feitos. Quem acompanha o desenvolvimento do gênero na Europa sabe que os cineastas italianos, livres das amarras de Hollywood, sempre souberam encerrar seus filmes de formas impactantes e surpreendentes, e Damiano Damiani não foge à regra. O encerramento provoca inclusive uma reflexão interessante porque espelha um embate psicológico singular, que é o contraponto entre a fidelidade aos ideais ideológicos e à amizade. Entre ambos, com qual você ficaria? Veja o filme e tire suas próprias conclusões.

O faroeste foi lançado no Brasil pelo selo Classic Line, sem extras, e com uma crucial informação incorreta na contracapa: a embalagem diz que o formato de tela é standard 4×3, mas na verdade o enquadramento original (widescreen 2.35:1) foi preservado. O áudio original não consta do pacote, e temos apenas uma trilha em inglês (Dolby Digital 2.0), de boa qualidade. O lançamento foi baseado no disco lançado na Região 1 (EUA) pela Anchor Bay.

– Uma Bala Para o General (El Chucho, Quién Sabe?, Itália, 1967)
Direção: Damiano Damiani
Elenco: Gian Maria Volonté, Lou Castel, Martine Beswick, Klaus Kinski
Duração: 118 minutos

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