Balconista 2, O

13/07/2008 | Categoria: Críticas

Longa-metragem confirma que Kevin Smith é um romântico antiquado e um diretor preguiçoso, por trás do verniz pop

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Doze anos se passaram, mas o personagem-ícone da obra do diretor Kevin Smith, Silent Bob (interpretado pelo próprio diretor), continua escutando música no mesmo aparelho, um enorme som portátil que toca fitas cassete. Em tempos de iPods Nano e poderosos mp3 Players do tamanho de uma unha, a imagem funciona como uma metáfora perfeita para a visão de mundo de Smith e, em particular, para “O Balconista 2” (Clerks 2, EUA, 2006): o cara parece moderno, mas por baixo do visual nerd existe um romântico antiquado de coração mole. Da mesma forma, sob o verniz cômico que inclui uma infinidade de citações à cultura pop e palavrões aos borbotões, a continuação do sucesso cult de 1994 é uma comédia romântica tradicionalíssima e previsível.

A intenção de Kevin Smith, ao revisitar os dois protagonistas do seu longa-metragem de estréia, era mostrar o que teria acontecido com aqueles dois jovens preguiçosos e sem perspectiva que, em 1994, trabalhavam tediosamente como balconistas. Era até óbvio: Dante (Brian O’Halloran) e Randall (Jeff Anderson) continuam balconistas, embora o primeiro, que sempre foi mais sério, tenha aspirações mais ambiciosas e esteja prestes a casar com uma garota rica (Jennifer Schwalbach) e se mudar para a Flórida.

O cenário não é mais a lojinha Quick Stop, que pegou fogo (acontecimento visto na cena de abertura, a única filmada com o visual em preto-e-branco chapado do primeiro filme). Agora os dois amigos trabalham em uma lanchonete, sob as ordens de Becky (Rosario Dawson), amiga íntima de Dante que parece ter uma quedinha romântica por ele. A produção se passa inteira em um dia, o último do rapaz em Nova Jersey, já que no dia seguinte ele e a noiva pegam a estrada de vez para Miami, onde vão abrir um negócio próprio.

A rigor, o filme é um romance adolescente que a certo momento fica tremendamente previsível – mais ou menos na metade a gente já pode adivinhar como vai acabar. Mas isso não chega a ser um grande problema; ruim mesmo é que Kevin Smith, também autor do roteiro, decidiu abrir mão quase por completo das observações argutas sobre a falta de perspectiva de sua geração. Ao invés disso, o que temos é um filme preguiçoso e indolente, verdadeira coleção de piadas grosseiras sobre sexo e cultura pop que, na maior parte do tempo, só vão agradar a quem tem menos de 25 anos.

Todas as marcas registradas de Smith estão aqui: a obsessão por sexo (inclusive bestialidade envolvendo animais) associada a um sentimento palpável de culpa por gostar dessas coisas, e elipses que mostram grandes passagens de tempo ao som de canções pop ligeirinhas. E se as virtudes do diretor – o ouvido certeiro para captar a sintonia da chamada geração X – parecem amortecidas, os defeitos continuam aparecendo de maneira gritante, como é o caso da péssima direção de atores.

Não entenda mal: há boas cenas e risadas, como a longa discussão que traça um paralelo curioso entre as trilogias “Guerra nas Estrelas”, eterna obsessão de Smith, e “O Senhor dos Anéis” (“o único Retorno que existe é o de Jedi”). Mas para cada risada há pelo menos um momento constrangedor, como a piada infantil e terrivelmente sem graça sobre os trolls que “vivem” nas partes íntimas da namorada de Elias (Trevor Fehrman), o novato balconista fã de Randall. É preciso ser adolescente para rir de piadas como esta, ou mesmo da citação sem pé nem cabeça a “O Silêncio dos Inocentes” (1991). Esta última nem encaixa na trama e foi arremessada na história de qualquer jeito.

De qualquer forma, para os fãs de Kevin Smith, sobra a certeza de que ele está se repetindo a cada trabalho e, pior ainda, parece ter parado no tempo – e, portanto, tudo o que ele tinha a dizer de interessante já foi dito, principalmente em “Procura-se Amy” (1997) e no primeiro “O Balconista”. Veja bem: se porventura Kevin Smith resolver ressuscitar Dante e Randall mais uma vez, daqui a alguns anos, não é necessário que os dois tenham crescido para que o filme seja legal. Tem um monte de gente da idade deles que não cresce nunca, e protagonizam obras bacanas como “Alta Fidelidade” (2000). Mas para retratar esse fenômeno de comportamento para uma platéia que está envelhecendo é preciso que o diretor esteja amadurecendo, o que não parece estar ocorrendo com Smith.

O DVD da Europa Filmes para locação vem pelado, contendo apenas o filme, com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Já a versão para venda direta é dupla, com o segundo disco trazendo o Eletronic Press Kit completo (entrevistas e cenas de bastidores sem edição), mais featurettes enfocando o trabalho da equipe e um arquivo em mp4 contendo o filme completo, para tocar em players portáteis. Enquanto isso, o primeiro (e muito melhor) longa permanece inédito no Brasil em DVD.

– O Balconista 2 (Clerks 2, EUA, 2006)
Direção: Kevin Smith
Elenco: Brian O’Halloran, Jeff Anderson, Rosario Dawson, Jason Mewes
Duração: 97 minutos

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