Balconista, O

01/04/2005 | Categoria: Críticas

Pérola cult e bem-humorado funciona como documento da falta de perspectiva de uma geração

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Existe uma personagem do filme “Closer” (de Mike Nichols) que funciona como perfeito contraponto aos protagonistas de “O Balconista” (Clerks, EUA, 1994), o filme de estréia do diretor Kevin Smith. Alice, ex-stripper, agora trabalha como garçonete. Em certo momento, outro personagem pergunta para ela, como modo cortês de iniciar uma conversa, se aquele é um trabalho temporário. “Na verdade, não”, responde secamente a garota. Alice é o personagem que Dante e Randal, protagonistas de “O Balconista”, seriam, caso fossem mais maduros. Não é o caso, e provavelmente “O Balconista” não seria tão revigorante, como uma lufada de ar fresco, se virasse um drama pesado e sério como “Closer”.

Kevin Smith estreou no cinema com este filme estranho. Jovem humilde de New Jersey, ele foi obrigado a vender uma coleção de revistas em quadrinhos raros para custear o longa-metragem. Para sorte dele, a produção fez sucesso no circuito alternativo, foi notada pelos estúdios de Hollywood e acabou resultando em um contrato. Mas a primeira coisa que Kevin Smith fez, depois de ganhar a primeira bolada de sua vida, não foi o segundo filme. Ele se dirigiu à loja que havia comprado a bendita coleção e a comprou de volta.

“O Balconista” conta um dia na vida de dois rapazes que trabalham como, humm, balconistas. Eles são Dante Hicks (Brian O’Halloran) e Randal Graves (Jeff Anderson). Dante é mais sério e responsável. É ele que recebe um telefonema logo de manhã cedo, naquele que seria seu dia de folga, e recebe a notícia de que precisa trabalhar na loja de conveniência onde passa a maior parte do seu tempo. Já Randal é o oposto: tagarela, ele trata mal os clientes da videolocadora vizinha, onde é obrigado a ficar o dia inteiro. Os dois são grandes amigos.

O filme é basicamente uma sucessão de diálogos. Dante e Randal conversam sobre empregos, amigos, mulheres, saúde e, claro, principalmente sobre sexo. Eles encontram eventualmente fregueses das duas lojas, e alguns desses encontros são bastante bizarros. O filme foi todo filmado em preto-e-branco, e a trilha sonora não passe de uma cena aqui e outra acolá com trechos de canções pouco conhecidas. Dois personagens que apareceriam em quase todos os outros filmes de Kevin Smith também aparecem: Jay (Jason Mewes) e Silent Bob (o próprio diretor). Eles ficam do lado de fora das lojas, ouvindo rádio, e eventualmente participam das conversas.

A forma rústica como o filme foi tecnicamente produzido é, paradoxalmente, o fator responsável por seu sucesso. “O Balconista” se tornou popular por ser um filme sobre a vida, um filme em que o espectador se reconhece. Não é à tôa que não ficamos surpresos ao saber que a loja de conveniência em que a maior parte do filme se passa é o lugar verdadeiro onde Kevin Smith trabalhava durante a produção do longa – ele filmava nos horários de folga.

De certa forma, a produção resume a visão de mundo de Kevin Smith e funciona como uma espécie de rascunho para trabalhos vindouros do diretor, especialmente “Procura-se Amy”. Mas tem ritmo irregular e roteiro que alterna ótimas cenas (a discussão sobre câncer causada por cigarros, a confusão envolvendo a ex-namorada de Dante) com outras não tão boas (o jogo de hóquei no telhado), que parecem longas e com um senso de humor estranho. Tudo bem, são problemas típicos de filmes dirigidos por estreantes.

De qualquer modo, o longa-metragem se tornou uma pérola cult, muito popular entre jovens apaixonados pela cultura pop que caracterizou a obra futura do diretor – aqui, as referências a “Star Wars” já batem ponto com força. Para espectadores mais maduros, funciona como um interessante documento sobre a rotina, o tédio e a falta de perspectivas de uma geração. Essa turma pode se sentir compelida a ver Dante e Randal como uma versão primitiva da Alice de Mike Nichols. Nos dois casos, “O Balconista” exala uma espontaneidade e um frescor difícil de se ver em filmes feitos nos EUA.

“O Balconista” ainda não recebeu um lançamento brasileiro em DVD, embora exista nas locadoras de VHS. Nos EUA, a história é outra. Kevin Smith, um fanático por discos repletos de extras, providenciou uma edição especial em meados da década de 1990, e em 2004 reembalou o filme em uma caixa tripla, incluindo duas versões diferentes do longa-metragem e uma restauração completa de som e imagem. Esta superedição comemora os 10 anos do lançamento original nos cinemas.

O pacote é até exagerado. O disco 1 possui o corte oficial de “O Balconista”, em formato 1.85:1, remasterizado e restaurado. O som é Dolby Digital 5.1. Há um comentário em áudio reunindo um monte de gente do elenco e da equipe técnica: Kevin Smith, Scott Mosier, Walter Flanagan, Brian O’Halloran, Jason Mewes, Vincent Pereira e Malcolm Ingram. O disco contém uma “cena perdida” – Dante e Randal participando do funeral que o filme não mostra – apresentada em animação, um trailer, um clipe da banda Soul Asylum, uma opção de legenda com curiosidades de bastidores e um curto segmento de ficção reunindo Dante e Randal novamente, filmado em 2001 e chamado “The Flying Car”.

O disco 2 contém o filme original, que possui 13 minutos a mais. Sem ter passado por restauração de áudio ou vídeo, é um ótimo exemplo do quanto a mexida pós-produção pode melhorar a qualidade de um produto. Um comentário em áudio com Kevin Smith, Scott Mosier, Brian O’Halloran e Jeff Anderson completa o disco, com uma surpresa: ele pode ser acessado também em vídeo, utilizando-se o botão “Angle” do controle remoto. Interessante.

O disco 3 é o disco de extras. O principal é um documentário de 90 minutos contando a saga da produção. O primeiro filme feito por Smith e produzido por Scott Mosier (11 minutos), um documentário, foi incluído. Uma sessão de perguntas e respostas (43 minutos) com fãs, uma galeria de fotos, páginas do diário pessoal de Kevin Smith e uma série de cenas cortadas do documentário principal também estão no disco. Em DVD-Rom, você ainda pode acessar o roteiro com as anotações de Kevin Smith. Ufa!

– O Balconista (Clerks, EUA, 1994)
Direção: Kevin Smith
Elenco: Brian O’Halloran, Jeff Anderson, Jason Mewes, Kevin Smith
Duração: 92 minutos

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