Bandidas

07/11/2006 | Categoria: Críticas

Comédia descartável imagina duas mulheres que não se bicam no lugar do Zorro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★½☆☆☆

“Bandidas” (França/México/EUA, 2006) é o exemplo perfeito para entender como a indústria cinematográfica tem se tornado mais e mais globalizada, no século XXI. Atualmente, Hollywood é apenas um nome de fantasia, pois as fronteiras geográficas não significam mais nada, na hora de fazer um filme. Embora seja uma produção distribuída por um estúdio norte-americano, “Bandidas” possui raiz essencialmente mexicana. O principal produtor é francês, e financiadores dos três países dividiram os custos de produção. Além disso, uma das atrizes principais nasceu na Espanha.

Na verdade, embora seja dirigido por um par de cineastas estreantes, o nome mais importante dos créditos é o de Luc Besson. O filme tem todas as características das produções descartáveis do francês, como as aventuras “O Beijo do Dragão”, “O Transportador” e, principalmente, “Táxi” (sim, aquele com Gisele Bündchen). Este último representa uma referência importante, porque em essência o filme conta a mesma história: mulheres bonitas roubando bancos. A diferença é que “Bandidas” se passa na virada do século XX, na fronteira entre México e Estados Unidos, e tem uma história nitidamente decalcada das aventuras do Zorro.

Aliás, a descrição “Zorro de saias” funcionaria perfeitamente para “Bandidas”, com apenas uma diferença – há dois heróis, e não apenas um. A ação é dividida entre a camponesa Maria Alvarez (Penélope Cruz) e a aristocrática Sara (Salma Hayek). Elas não se bicam, mas são obrigadas a unir forças para combater Tyler (Dwight Yoakam), um banqueiro inescrupuloso que arrasa o povoado onde as duas moram, confiscando terras e riquezas dos moradores através de contratos abusivos que eles assinaram alguns anos antes. Tanto Maria quanto Sara perderam os pais para os métodos violentos de Tyler. Por isso, decidem agir como dois Robin Hood do deserto, roubando os bancos da região e distribuindo o dinheiro com os pobres.

Em geral, os filmes de Luc Besson mimetizam o pior das grandes produções norte-americanas, contando histórias de humor bastante discutível, de forma caricata e geralmente boba. Com “Bandidas” não é diferente: os personagens são superficiais e a história, completamente previsível, até mesmo sem sentido. Como se não bastasse, é meio esquisito ver um filme protagonizado por duas atrizes famosas de origem hispânica, sem que uma única palavra em espanhol seja pronunciada por qualquer uma delas. O problema prejudica principalmente Penélope Cruz, cujo inglês ainda é muito ruim, detalhe que mais uma vez torna sua atuação caricatural ao extremo.

É evidente, também, que os diretores não tiveram preocupação em desenvolver bons personagens, já que eles são construídos de forma completamente equivocada. Sara, por exemplo, é mostrada como uma mulher rica e sofisticada, educada nas melhores escolas da Europa. Quando a situação exige, contudo, ela não apenas vive sem reclamar em condições inóspitas, mas também revela habilidades inusitadas de ginasta e atiradora de facas, algo que certamente não fazia parte de sua educação européia. Assim, vira uma mistura de Nadia Comaneci com Tarzan. O filme não se preocupa em justificar ou explicar a mudança da personagem, e sequer explora o potencial cômico dela.

Outro exemplo de equívoco é o personagem do bom comediante Steve Zahn, um perito criminal chamado Quentin Cook (obviamente inspirado no Ichabod Crane do “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça” de Tim Burton). Em uma seqüência particularmente ineficaz, o filme insinua o início de um romance entre o rapaz e Maria Alvarez, mas o affair não tem nenhuma importância para a trama principal, servindo apenas para construir uma piada naquela cena específica. Assim, os diretores não desenvolvem a situação, sendo obrigados a finalizar o envolvimento entre os dois já no final, em uma cena curta que parece um tanto abrupta e oca.

Mesmo assim, a performance de Zahn está entre os destaques do filme, junto com o humor assumidamente juvenil e descartável, as brincadeiras sobre a relação de Penélope Cruz com o cavalo (elemento também roubado de Zorro, e devidamente ampliado) e a galeria de atores coadjuvantes, que inclui o dramaturgo Sam Shepard como um ladrão de bancos veteranos. Em resumo, trata-se de um filme descartável e sem nenhum elemento original, válido apenas para quem deseja diversão descerebrada e paisagens bonitas do deserto mexicano.

O DVD da Fox tem apenas o filme, com imagem que preserva o enquadramento original (widescreen 2.35:1 anamórfico) e som OK (Dolby Digital 5.1), mas nenhum extra.

– Bandidas (França/México/EUA, 2006)
Direção: Joachim Roennig e Espen Sandberg
Elenco: Salma Hayek, Penélope Cruz, Steve Zahn, Sam Shepard
Duração: 93 minutos

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