Bandido da Luz Vermelha, O

27/11/2007 | Categoria: Críticas

Filme de estréia de Rogério Sganzerla, iconoclasta ao extremo, é uma rachadura no cinema brasileiro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Há um certo tipo de filme, raríssimo, com tanto potencial para a polêmica que merecem uma denominação inexistente: o filme-rachadura. Estou falando de obras iconoclastas ao extremo, que não têm vinculação com nenhuma corrente narrativa, e rompem com todo e qualquer tipo de padrão existente antes delas. Tais obras funcionam como marcos divisórios do cinema, como Jesus Cristo o foi para a religião ocidental. No cinema brasileiro, quase não há filmes com cacife para receber tal rótulo. Na verdade, provavelmente existe apenas um. Ele se chama “O Bandido da Luz Vermelha” (Brasil, 1968), e desfruta de prestígios distintos em faixas diferentes de público – é idolatrado pela maior parte da crítica nacional, e ignorado pela esmagadora maioria dos cinéfilos jovens.

Seja qual for a sua opinião sobre este longa-metragem único, diferente de tudo o que já foi concebido em termos de cinema no Brasil (e, porque não, no mundo), é preciso admitir que ele é um filme solitário. Não pertence a movimentos cinematográficos, nem mesmo a um gênero específico. Aos 22 anos, o diretor estreante Rogério Sganzerla logrou reunir indistintamente fragmentos culturais de origens díspares, organizando a partir desta colagem furiosamente pós-moderna uma narrativa sem paralelo com o que estava sendo produzido no cinema de então, seja no Brasil ou fora dele.

A grosso modo, “O Bandido da Luz Vermelha” poderia ser descrito como uma mistura debochada de ingredientes cinematograficamente exóticos, um liquidificador cinematográfico que mistura alta e baixa cultura, povão e elite, sem distinção. Há influência nítida no longa-metragem das chanchadas marginais e baratas da Boca do Lixo paulista, mas também existem traços visíveis das narrativas alegóricas e politicamente engajadas do Cinema Novo. Telenovelas, tablóides sensacionalistas e programas policiais de rádio também entram na mistura. Sganzerla também estava antenado com o que se fazia fora do Brasil – é evidente o paralelo com longas como “Acossado” (1959). Sganzerla tem a verve transgressora e o desejo ardente de transgredir dos franceses da nouvelle vague. É o Jean-Luc Godard dos pobres.

O resultado é uma fusão nuclear poderosa de estilhaços oriundos da cultura pop dos anos 1960. É provável que “O Bandido da Luz Vermelha” seja o retrato mais perfeito do Brasil do período, em todos os níveis: cultural (as relações entre os personagens), social (o caos nas ruas), econômico (condições vagabundas de produção), até mesmo comportamental (o protagonista, tão iconoclasta como o diretor). Além disso, o saudável desprezo às regras narrativas tradicionais dá ao filme um ritmo completamente original e inusitado. “O Bandido da Luz Vermelha” é provavelmente o único exemplar do cinema nacional que uniu, com bons resultados, o cinema-cabeça da turma de Glauber Rocha com os filmes populares de qualidade discutível que eram produzidos na Boca do Lixo. O resultado é arrasador.

A trama foi inspirada em um caso real, e narra a trajetória de um charmoso bandido paulistano semi-analfabeto (Paulo Vilaça), que invade mansões nos bairros nobres da cidade para roubar, estuprar e matar sem piedade. Sganzerla, no entanto, não conta uma história com começo, meio e fim, mas une livremente seqüências isoladas, sem se preocupar com a unidade narrativa. O fio condutor dessa bagunça criativa é a narração em off, inspirada nos locutores de rádios sensacionalistas: um homem e uma mulher se alternam lendo frases bombásticas daquele jeito histérico que os apresentadores de programas policiais de baixo escalão, tipo Gino César ou Gil Gomes, gostam de fazer.

Há bons personagens. Além do bandido boa pinta, o delegado encarregado de prendê-lo, chamado de Cabeção pelos noticiários, é um sujeito emburrado que esbraveja diatribes conservadoras (“arte moderna é só depravação: quanto mais feio, mais caro”), frases típicas do regime militar. Como se todas essas inovações não bastassem, Sganzerla vai além, pinçando trechos de trilhas sonoras de melodramas clássicos de Hollywood e misturando com Beethoven e Pixinguinha. Seus personagens também falam para a câmera, diretamente ao espectador – é um dos primeiros filmes a usar a metalinguagem no Brasil. No todo, uma linguagem narrativa muito à frente de seu tempo, coisa de fazer inveja a Spike Jonze ou Michel Gondry.

E o que significa tanto radicalismo? Vontade gratuita de ousar e romper convenções? Posicionamento político e/ou social? O crítico Carim Azedinne, na revista Contracampo, matou a charada, ao relacionar o filme com a crise – econômica, social e cultural – que o país vivia na época do lançamento original. “Um país em crise pede um filme em crise. Crise da representação. A impossibilidade de, sendo periferia, fazer cinema de primeiro mundo”, diz o crítico. No entanto, a melhor definição do longa-metragem vem da boca do próprio bandido: “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba”. É isso.

Depois de anos sem estar disponível em qualquer formato, a Versátil lançou o filme em DVD em novembro de 2007. O disco é bacana: imagem restaurada (tela cheia, 1.33:1, formato original) e áudio OK (Dolby Digital 2.0). Dois curtas da fase inicial da obra de Sganzerla e várias entrevistas com atores, membros da equipe técnica e com o próprio diretor, falecido em 2004, completam o disco.

- O Bandido da Luz Vermelha (Brasil, 1968)
Direção: Rogério Sganzerla
Elenco: Paulo Vilaça, Helena Ignez, Sérgio Hingst, Luiz Linhares
Duração: 92 minutos

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2 comentários
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  1. Olá Rodrigo,

    Você não acha que Deus e o Diabo na Terra do Sol entra na classificação de filme-rachadura? A experiência brechtiana de Glauber Rocha não tem precedente algum que eu conheça. O filme causou comoção internacional imediatamente após o seu lançamento (dentro dos restritos círculos em que foi assistido, evidentemente). Não acho que o neorrealismo italiano, a despeito de sua propalada influência sobre nosso cinema novo, antecipe qualquer característica do que Glauber realizou no seu Deus e o Diabo.

    Ah, só mais uma coisa. Eu sei que esse negócio de dar estrelinhas nos filmes é um pouco bobagem, mas meu pitaco sobre O bandido da Luz Vermelha seria mais generoso que o seu. Obra-prima merece cinco estrelas.

    Abraço, e parabéns pelo site.

  2. Concordo contigo, Palomino. Muitos filmes do Cinema Novo (“Vidas Secas”, “Os Fuzis”) entrariam nessa definição, sem dúvida, assim como do Cinema Marginal (“Matou a Família e Foi ao Cinema”).

    Quanto às estrelinhas… talvez. Eu sempre tento incluir na “avaliação”, um pouco de subjetividade, e acontece que o filme do Sganzerla me agrada muito mais no plano intelectual do que no sensorial.

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