Banheiro do Papa, O

28/10/2009 | Categoria: Críticas

Longa uruguaio focaliza curioso episódio real e cria boa dinâmica entre personagens, mas falha no terceiro ato

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Viajar até o Paraguai para comprar produtos importados (às vezes, de procedência duvidosa) a preços baixos é prática muito conhecida no Brasil. Apesar disso, não se conhece quase nada sobre a vida naquela região de fronteira. “O Banheiro do Papa” (El Baño del Papa, Uruguai/Brasil/França, 2007) tenta suprir essa lacuna lançando um olhar atento ao cotidiano dos habitantes de uma pequena cidade uruguaia vizinha do Brasil. Um lugar onde quase toda a atividade econômica gira em torno dos muambeiros locais, que cruzam a fronteira em bicicletas caindo aos pedaços para buscar artigos de consumo inexistentes no Uruguai.

O longa-metragem marca a estréia na direção de Enrique Fernández e César Charlone. Este último é um fotógrafo de mão cheia, indicado ao Oscar por “Cidade de Deus”, mas que nunca havia se aventurado em outras searas cinematográficas. Os dois escreveram o roteiro juntos, baseando-se nas memórias de Fernández a respeito de um episódio tragicômico ocorrido em 1988, por ocasião da passagem do papa João Paulo II pela cidade de Melo. Prevendo uma invasão de brasileiros no lugar, os moradores decidiram montar barracas de comida para alimentar a multidão de romeiros, e se lançaram a uma corrida incessante para organizar uma infra-estrutura compatível com o tamanho do acontecimento.

“O Banheiro do Papa” (belo título!) se concentra na trajetória de Beto (César Trancoso), um contrabandista que pedala 60 km por dia, fazendo duas viagens ao Brasil para comprar mantimentos capazes de abastecer os armazéns locais. Beto é casado com uma mulher batalhadora (Virginia Mendez), tem uma filha adolescente (Virginia Ruiz) que sonha em virar jornalista e vê na chegada do papa uma oportunidade para faturar uma grana preta, pagar as dívidas e, quem sabe, comprar uma moto, o que lhe permitiria fazer mais viagens ao Brasil e, por conseqüência, aumentar o faturamento. A idéia de Beto é mais original do que a dos outros muambeiros. Ao invés de vender salsichas ou pastéis, ele decide construir um pequeno banheiro. Afinal, os turistas que comerem toda aquela porcaria vão ter que se aliviar em algum lugar, certo?

O filme de Fernández e Charlone tem cunho social evidente, mas busca uma abordagem mais centrada nos personagens, sem tentar abraçar de forma explícita este viés antropológico. Os cineastas demonstram interesse em registrar como vivem as pessoas comuns, anônimas, que vivem dos excrementos da globalização. Por isso, é possível notar alguma semelhança com o cinema romeno contemporâneo (“Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias”), embora o registro seja muito mais rebuscado, menos duro e despojado, talvez devido ao envolvimento do próprio Charlone, tão acostumado a grandes produções. A fotografia, de cores dessaturadas e interiores repletos de sombras, busca um tom naturalista, mas os ângulos de câmera sofisticados acabam reforçando o excesso de sofisticação quando se associam a uma montagem ágil demais para o tom pungente e cortante que a história pede.

De qualquer forma, os dois primeiros atos da história são plenamente satisfatórios. Os dois diretores desenvolvem bem os personagens principais, criando uma dinâmica calorosa e interessante entre eles. Aproveitam, para isso, as excelentes atuações de um elenco uniforme, formado por atores profissionais e amadores – a atuação do casal de protagonistas, em particular, é digna de um par de Oscar. Infelizmente, Fernández e Charlone também passam um pouquinho do ponto no roteiro. Eles criam uma subtrama que envolve os sonhos profissionais da filha do casal, e acabam perdendo o controle sobre ela no equivocado terceiro ato, quando o filme abandona a proposta realista para abraçar o melodrama.

Sob certo aspecto, principalmente na narrativa, pode-se criar um paralelo interessante entre “O Banheiro do Papa” e o clássico cult “O Mercador das Quatro Estações” (1972), de Fassbinder, cujo protagonista enfrenta uma jornada semelhante. O problema é que Fernández e Charlone não souberam resistir à tentação de criar um desfecho didático para a história, enfiando nela um personagem unidimensional que é puro estereótipo de pior melodrama (um policial escroque e corrupto), e amarrando-a com uma pavorosa montagem de tomadas estáticas, no estilo de Sebastião Salgado, justapostas como num videoclipe estilizado filmado numa favela qualquer. Convém lembrar que a decepção criada pelo clímax não chega a prejudicar os muitos acertos dos dois primeiros atos. Sem ser obra-prima, “O Banheiro do Papa” firma-se como representante legítimo de uma cinematografia – a uruguaia – quase esquecida pelo mundo.

O longa saiu no Brasil em DVD pela Imovision, em disco correto, com enquadramento original preservado (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem um making of, entrevista com a equipe de produção e um curta-metragem sobre a passagem do papa por aqui.

– O Banheiro do Papa (El Baño del Papa, Uruguai/Brasil/França, 2007)
Direção: Enrique Fernández e César Charlone
Elenco: César Trancoso, Virginia Mendez, Virginia Ruiz, Mario Silva
Duração: 97 minutos

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