Barco e Nove Destinos, Um

07/05/2008 | Categoria: Críticas

Hitchcock encara desafio técnico de fazer um filme inteiro numa só locação, e ainda cria uma alegoria política

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Único filme de Alfred Hitchcock feito para os estúdios Fox, “Um Barco e Nove Destinos” (Lifeboat, EUA, 1944) se enquadra na categoria de histórias que atraíram o mestre do suspense não pela qualidade da história em si, mas pelo desafio técnico de realizá-la com perfeição. Antecipando a experiência radical que faria quatro anos mais tarde, em “Festim Diabólico”, o diretor inglês cria aqui um drama claustrofóbico – e também uma elaborada alegoria política, algo absolutamente inusitado na carreira de seu artífice – que se desenrola inteiramente num ambiente único: um pequeno bote salva-vidas, onde estão nove (na verdade oito, já que o nono é um bebê que morre logo após ser resgatado) sobreviventes de um naufrágio.

O longa-metragem foi objetivo de reações bem díspares, por ocasião do lançamento original. Engajada na luta pela II Guerra Mundial, a maior parte da crítica norte-americana espinafrou o filme, sem qualquer razão cinematográfica para isto. O motivo do desprezo era o único personagem alemão presente ao barco – um militar nazista muito mais decidido e inteligente do que todos os aliados que compartilhavam o ambiente com ele. Os mais exaltados chegaram a chamar Hitchcock de nazista, enquanto outros pediram explicitamente ao estúdio que retirasse “Um Barco e Nova Destinos” dos cinemas. Com o mercado para espectadores europeus completamente devastado pela guerra, a película acabou mesmo dando prejuízo.

Por outro lado, quando do lançamento na França, em 1948, as paixões ideológicas já haviam arrefecido, com o final da guerra, e os críticos finalmente puderam apreciar o filme pelo que ele realmente era, e pelas qualidades cinematográficas que, como de hábito em Hitchcock, são impecáveis. Os críticos franceses acabaram por eleger o filme uma das mais eficazes e inteligentes obras do diretor até então – até mesmo André Bazin, o maior deles, cuja simpatia pela obra do cineasta nunca foi muito grande, escreveu um artigo repleto de elogios à capacidade ilimitada do inglês para dramatizar, de forma extremamente visual e cinematográfica, uma história repleta de limitações causadas pela impossibilidade de mudar o cenário.

Como de hábito, Hitchcock destila toda a habilidade em algumas seqüências antológicas. A abertura é uma delas. Numa longa tomada sem cortes, Hitchcock sugere o naufrágio, mostrando apenas uma caldeira afundando na água, e “navega” entre os destroços até parar no bote, onde a ambiciosa jornalista Connie (Tallulah Bankhead) já se prepara para escrever um relato da tragédia. Além de driblar os problemas logísticos de uma filmagem em mar aberto, a cena proporciona economia considerável de recursos em prol da criatividade visual – o espectador adivinha o tamanho do desastre simplesmente observando o tipo e a quantidade de destroços boiando sobre o oceano. Um diretor menos inteligente filmaria o plano geral de um naufrágio ou usaria uma miniatura, gastando muito mais dinheiro e entregando uma cena bem mais banal.

Aos poucos, os sobreviventes vão se reunindo no bote, elaborado como um microcosmo da sociedade ocidental: há desde rico industrial até uma assustada donzela. O último náufrago a se juntar ao bando é também o mais polêmico de todos – o capitão do submarino alemão responsável pelo naufrágio. Impassível, ele assiste às discussões sem fim travadas pelos companheiros de infortúnio, enquanto manobra com perspicácia e firmeza para levar o barco até um destino que lhe seja amistoso. Hitchcock filmou num tanque, dentro dos estúdios da Fox, e isso lhe permitiu captar toda a ação com enquadramentos sofisticados e movimentos inusitados de câmera. A demonstração de técnica, porém, acaba funcionando contra o filme, já que retira bastante do caráter claustrofóbico da situação. Alguns planos são bonitos e certinhos demais, o que elimina a sensação de angústia e incerteza que deveria dominar o filme.

Por outro lado, o mestre do suspense demonstra muita habilidade para ilustrar, através do visual, o nível de tensão que se estabelece dentro do bote a cada nova cena. Nos momentos mais tensos, o mar está agitado, e as ondas explodem furiosamente contra a proa, jogando pingos e jatos sobre os náufragos. Quando as coisas acalmam, o mar fica mais límpido e tranqüilo. Se as soluções visuais do filme são de primeira grandeza, porém, as atuações não correspondem de todo. Com exceção do excelente Walter Slezak, que interpreta o alemão, os demais parecem afetados e desconfortáveis nos respectivos papéis. Hitchcock também errou na composição da personagem principal, que é chata, irritante e pernóstica, não despertando qualquer empatia junto à platéia.

Boa parte das reclamações originais ao filme são tremendamente injustas, apesar dos problemas. Duas décadas depois do lançamento, na famosa entrevista que concedeu a François Truffaut, Hitchcock explicou o verdadeiro motivo de ter feito “Um Barco e Nove Destinos”: ele concebera o filme como uma alegoria política à situação entre os Aliados (EUA, Inglaterra e França, sobretudo), que divergiam de quase tudo relacionado à guerra mundial, enquanto os alemães permaneciam unidos, mantendo as divergências em segundo plano – era essa, pelo menos, a visão que Hitchcock tinha do conflito. Uma visão um tanto ingênua, certamente, mas que ele consegue expressar dramaticamente com bastante propriedade.

O DVD duplo da Fox, que carrega o selo Cinema Reserve, tem embalagem de luxo e ótima qualidade de som (Dolby Digital 2.0) e vídeo (fullscreen 1.37:1). O segundo disco traz um documentário retrospectivo (24 minutos), uma longa e divertida entrevista com o mestre do suspense (55 minutos) e uma galeria de fotos. Há legendas em português nos principais extras, e comentário em áudio com um professor universitário especialista na obra de Hitchcock.

– Um Barco e Nove Destinos (Lifeboat, EUA, 1944)
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Tallulah Bankhead, William Bendix, Walter Slezak, Mary Anderson
Duração: 96 minutos

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