Barco, O – Inferno no Mar

03/07/2005 | Categoria: Críticas

Épico de guerra de Wolfgang Petersen é claustrofóbico, angustiante e tenso até o limite do suportável

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Um filme de guerra 100% feito por alemães, sobre soldados nazistas lutando na Segunda Guerra Mundial. Um projeto com uma sinopse dessas tem grande chance de permanecer no papel por toda a eternidade. Por isso, deve-se considerar quase um milagre que “O Barco – Inferno no Mar” (Das Boot, Alemanha, 1981) tenha sido produzido. Muito mais do que isso, porém, foi alcançado: “O Barco” ganhou status quase imediato de obra-prima, fez sucesso de público e crítica nos EUA, conquistou seis indicações ao Oscar em 1983 e virou referência obrigatória para qualquer diretor que desejasse, dali por diante, filmar dentro da água. Tudo merecido, uma vez que a produção de Wolfgang Petersen tem todas as qualidades de um grande filme de guerra.

Este é um daqueles projetos que tinha tudo para dar errado. Petersen assumiu a obra com o projeto em andamento; teve apenas três meses para escrever o roteiro (um tempo ridiculamente pequeno, considerando que os produtores desejavam uma versão de seis horas para exibição na TV alemã); e um orçamento curto, de apenas US$ 15 milhões, o que corresponderia mais ou menos a um filme de médio porte em Hollywood. Ainda bem que o diretor tomou a decisão, corretíssima, de priorizar a construção dos cenários, preferindo escalar um elenco desconhecido que, portanto, custasse pouco dinheiro.

Deu certo. Para começar, Petersen preocupou-se – e conseguiu – atingir um bom nível de fidelidade histórica. Se iria contar a história de uma arriscada missão de 43 marinheiros dentro de um submarino, o diretor achou que deveria ter uma embarcação verdadeira como cenário. Mais do que isso, conseguiu cinco: dois submarino 100% originais, construídos para o filme, foram usados nas filmagens, sendo um em alto mar, para cenas externas, e outro colocado dentro do estúdio e pendurado em um guindaste, para os interiores. Três miniaturas possibilitaram as filmagens das seqüências submersas.

A decisão de filmar dentro de um submarino, e não em um cenário que apenas simulasse ser um submarino, causou dor de cabeça ao diretor de fotografia, Jost Vacano. Como a embarcação é estreita (mais ou menos da largura de um homem de braços abertos), o fotógrafo teve que usar uma câmera manual adaptada especialmente para o filme. A busca pelo realismo total obrigou os cineastas a usar apenas as luzes naturais do barco. E o filme, evidentemente, foi filmado com as cenas na ordem correta, de forma a capturar as mudanças físicas e emocionais da tripulação; as barbas dos atores crescem na mesma proporção em que a auto-estima se enterra na lama. Tudo isso foi feito de maneira impecável, resultando em um filme tecnicamente perfeito.

“O Barco” é um grande filme não renega os aspectos ideológicos da II Guerra, mas também não os aprofunda. Wolfgang Petersen (que em Hollywood faria o razoável “Tróia”) tem o cuidado de construir um personagem principal complexo, cheio de nuances. O comandante do submarino (Jürgen Prochnow) é calmo, quieto e reservado. Jovem, tem apenas 30 anos, mas muita experiência em missões arriscadas. Ele nos é apresentado durante a festa de despedida, em um salão de festas da cidade de La Rochelle, na França, base naval dos nazistas em 1941. Os soldados urinam nos carros dos ofciais. Os mais graduados, por sua vez, caem de bêbados. O recado é claro, mas sutil: a guerra está perdida, e todos os alemães já sabem disso, em maior ou menor nível, embora ninguém tenha coragem de pronunciar nenhuma palavra que o indique.

Este não é um filme que denuncia ou combate ideologias, seja quais forem. “O Barco” é sobre amizade, fidelidade, compheirismo e ética pessoal. Os 43 marujos são pessoas diversas, reunidas sob circunstâncias muito especiais. Há um circunspecto alemão que vive no México e crê sinceramente no nazismo como ideologia; ele é o único marinheiro que faz a barba todas as manhãs e mantém as roupas cuidadosamente engomadas. Há um oficial cuja mulher está muito doente, e por isso ele só se permite pensar em terminar a missão vivo para cuidar dela. Há um jovem alemão que ama sua esposa francesa grávida, e teme o destino dela nas mãos do Exército francês.

Há um acerto especial aqui: todos os 43 homens, inclusive o tenente-repórter que documenta a empreitada (é sob o ponto de vista dele que a história é narrada), são pessoas de carne o osso. O filme não comete o erro de narrar cada história. O diretor perderia facilmente o foco se fizesse isso. Mas um grupo que vive trancado dentro de um espaço tão exíguo, em circunstâncias tão especiais, só sobrevive à base de amizade sincera e desinteressada; por isso, cada pequeno momento em que os soldados sentam para conversar nos revela um pouco sobre cada um deles: sonhos, esperanças, tristezas. Todos são gente, esperando que a guerra acabe. Esperando para voltar para casa. A guerra, essa máquina impessoal de morte e dor, é implacável e dura com todos os participantes do conflito, seja em que lado estejam.

Petersen narra a missão militar de forma episódica. A missão inteira, do embarque ao retorno, é narrada em todas as minúcias. Há momentos de tédio, de angústia, de esperança, de euforia, de desespero, de melancolia, de tristeza. O diretor faz um trabalho maravilhoso em conduzir a platéia por essa viagem junto a jovens que perdem um pouco do idealismo pessoal a cada hora que passam trancados no fundo do mar. “O Barco” é claustrofóbico, agoniante, profundamente grave e muitas vezes tenso até o limite do suportável. Funciona no nível da aventura pura e simples – toda a longa seqüência do estreito de Gibraltar é inesquecível – e também em um nível mais denso, na medida em que nos coloca em contato com esses seres desprezíveis ou adoráveis, mas sobretudo humanos.

Existem três versões de “O Barco”. O filme foi lançado nos cinemas em uma versão de 149 minutos. Em 1985, foi exibido na TV alemã sob forma de minissérie em seis partes, com um total de 300 minutos. Em 1996, o diretor remontou o material no que chamou de “Versão do Diretor”, em 209 minutos. As duas últimas versões podem ser encontradas no formato DVD nos EUA e na Europa. No Brasil, apenas a versão de 209 minutos está disponível.

A boa notícia é que a “Versão do Diretor” está em um disco impecável. Impresso em dois lados de um único CD, o filme tem o enquadramento original de vídeo (widescreen 1.85:1), uma trilha remasterizada de áudio em formato Dolby Digital 5.1 (o som dos canais traseiros e os graves são explorados magnificamente nas cenas de batalha e nas tomadas submarinas) e vem acompanhado de comentário em áudio (reunindo Peterson, o ator Jürgen Prochnow e um produtor) e até de um pequeno documentário de bastidores não legendado. Se você gosta de épicos de guerra, vai querer ter “O Barco” na sua coleção.

– O Barco – Inferno no Mar (Das Boot, Alemanha, 1981)
Direção: Wolfgang Petersen
Elenco: Jürgen Prochnow, Herbert Grönemeyer, Klaus Wennemann, Hubertus Bengsch
Duração: 209 minutos

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