Barry Lyndon

07/04/2006 | Categoria: Críticas

Retrato do século XVIII pintado por Stanley Kubrick é um inesquecível estudo de personagem

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Uma curiosidade cinéfila: o que deve se passar pela cabeça de um cineasta depois que ele assina, em seqüência, quatro obras-primas do naipe de “Lolita” (1962), “Dr. Fantástico” (1964), “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (1968) e “Laranja Mecânica” (1971)? Para um homem comum, é impossível responder a uma indagação desse nível, já que homens comuns não são capazes de dirigir quatro filmes maravilhosos como os títulos citados. Stanley Kubrick podia ser chato, recluso e irascível, mas não tinha muito de comum. O projeto seguinte dele, “Barry Lyndon” (Grã-Bretanha, 1975), seguiu a lógica excêntrica do mestre, com o firme propósito de retratar o passado da mesma maneira singular que havia feito com o futuro, especialmente em “2001” e “Laranja Mecânica”.

Kubrick é um raríssimo caso de artista que nunca escondeu uma ambição gigantesca. Seu projeto de cinema sempre foi tão idiossincrático quanto impossível: dirigir apenas filmes definitivos, obras-primas inquestionáveis. Por quatro vezes seguidas, havia conseguido. Muitas acreditavam que ele não mais o faria, mesmo se esforçando muito. Aí veio “Barry Lyndon”, a biografia de um personagem fictício do século XVIII. E logo ficou claro para todos que Kubrick não mudara um milímetro. A polêmica que envolveu o filme foi parecida com o que ocorrera com “Laranja Mecânica” e “2001”: muitos odiaram, tachando o filme de longo e lento. Cinéfilos de verdade o adoraram. Trata-se de um longo, complexo e inesquecível estudo de personagem, enfocando a figura muito humana de um alpinista social.

Como ponto de partida, Kubrick se impôs a hercúlea tarefa de capturar, o mais fielmente possível, o feeling do século XVIII, a atmosfera daquela época. Por isso, transformou o que seria uma pequena produção de US$ 3 milhões em um caro projeto de US$ 11 milhões. Decidiu filmar apenas em locações, em opulentos palácios renascentistas da França, da Inglaterra e da Alemanha. Mandou comprar caríssimos trajes costurados 200 anos antes para que os principais atores os vestissem. E, excentricidade máxima, conseguiu uma lente especial feita para a Nasa que lhe permitiu filmar cenas noturnas apenas com a luz de velas. O resultado? Faltam palavras para descrever. É de tirar o fôlego.

Na verdade, Kubrick se esmerou tão obsessivamente em recriar o período que recorreu a pinturas clássicas do século XVIII para bolar o visual. Essa busca pela perfeição guiou a oscarizada fotografia de John Alcott: pouquíssimos movimentos de câmera (há apenas três cenas em que ela se move, nos 185 minutos do filme) e uso abundante do efeito de zoom lento. Em geral, todas as grandes seqüências do longa-metragem copmeçam com uma tomada estática que usa o zoom – uma paisagem que fecha lentamente em um detalhe ou o contrário. A técnica possibilitou a obtenção de imagens inesquecíveis, verdadeiras pinturas barrocas que começam estáticas, como grandes quadros impressionistas, e ganham movimento e fluidez crescentes.

Martin Scorsese diz que a técnica surpreendeu todos os cineastas, já que ninguém usava zoom em filmes de época. “Kubrick foi o primeiro a perceber que o zoom retirava a profundidade de campo das imagens, deixando-as mais rasas, mais achatadas, com uma perspectiva parecida com a utilizada pelos grandes pintores do século XVIII”. Visionário, como sempre, Kubrick novamente se superava. O resultado é uma espécie de ópera visual. Magnífico.

Do ponto de vista narrativo, o grande truque de Kubrick foi dotar seu protagonista de um qualidade muito humana. O filme se recusa a enquadrar Redmond Barry (Ryan O’Neal), um humilde camponês da Irlanda obrigado a colocar o pé na estrada para sobreviver, como pessoa boa ou má. Melhor ainda: Barry não possui o mesmo padrão moral do começo ao fim da história, como em quase todos os filmes de estúdio. Ele muda. Lentamente. O rapaz altivo e de opiniões firmes, obrigado a fugir da vila de origem após um duelo mortal, vira um crápula. Mas esse movimento é tão lento que ele nem mesmo percebe isso. A forma deliberadamente lenta como o filme é narrado faz com que a platéia também não perceba claramente a mudança. De repente, sabemos que Barry virou um canalha. Mesmo assim, ele jamais é retratado como um monstro, possuindo sempre um lado bom – é, por exemplo, excelente pai, apesar de péssimo marido.

Kubrick nega firmemente o melodrama. Na episódica narrativa das façanhas de Barry, há um monte de ganchos para cenas melodramáticas e exageradas, mas o diretor sempre dá um jeito de evitá-los. Consegue isso, em parte, com a ajuda da figura onipresente do narrador, um homem desconhecido cuja voz irônica antecipa, ainda que ligeiramente, o que o filme mostrará alguns minutos adiante. É a narração afiada, mas sutil, munida de um senso de humor tão mordaz quanto fino, que rejeita o melodrama e prepara o espectador para aquilo que será visto. O toque de mestre de Kubrick foi perceber que não poderia narrar o filme em primeira pessoa, como ocorria no romance de William Makepeace Thackeray. O narrador teria que ser alguém que comentava sutilmente as ações de Lyndon, com arguto senso de observação. O resultado é perfeito.

Para completar, o elenco do filme está excepcional. O’Neal, que na época era um dos maiores e mais famosos galãs de Hollywood, dá show no papel principal, com a postura altiva e o rosto sempre enigmático. Outro destaque é a excelente atriz Marisa Berenson, que interpreta a esposa de Barry, Lady Lyndon. É uma mulher linda, dona de uma pele branca como leite, que Kubrick aproveita para iluminar algumas das “pinturas barrocas” que os enquadramentos precisos de John Alcott capturam. Ela protagoniza, por exemplo, uma cena de banho que é certamente uma das mais sensuais que Kubrick filmou em toda a carreira. Em resumo, “Barry Lyndon” é uma aula de cinema e um espetáculo de encher os olhos.

O DVD da Warner é ótimo, mas não tem extras. Traz apenas o filme, restaurado e com excelente definição de cores, o que valoriza a beleza extraordinária das imagens. O enquadramento original (1.66:1) está preservado, e o som (Dolby Digital 5.1) é claro e cristalino.

– Barry Lyndon (Grã-Bretanha, 1975)
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Ryan O’Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee, Hardy Krüger
Duração: 185 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


2 comentários
Comente! »