Bastidores da Comédia

23/11/2006 | Categoria: Críticas

Documentário que enfoca a volta de Jerry Seinfeld é estudo brilhante dos comediantes enquanto categoria profissional

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Quando assiste a um bom comediante em ação, provocando gargalhadas no cinema, na televisão ou no teatro, a maioria das pessoas os inveja. Nessas horas, é natural pensar que a carreira de cômico oferece uma das melhores relações custo/benefício entre todos os mercados de trabalho. A gente pensa: o cara bola algumas piadas legais, usa um pouco do seu talento natural para contá-las, e embolsa uma bolada sem fazer esforço. O interessante documentário “Bastidores da Comédia” (Comedian, EUA, 2002) dá duro para provar que esta imagem glamourosa sobre o profissional do riso não poderia estar mais longe da verdade.

A produção marca o retorno aos holofotes de Jerry Seinfeld, autor e protagonista da telessérie norte-americana eleita por muita gente como a melhor já criada em todos os tempos. Após nove temporadas de sucesso, Seinfeld tomou a incomum atitude de cancelar o programa, alegando esgotamento criativo. Ele se afastou da vida em frente às câmeras e, após um belo descanso de alguns anos, decidiu retomar aquela que é a sua maior paixão profissional: a chamada “stand up comedy”, modalidade de comédia muito popular nos EUA, em que o sujeito sobe ao palco, munido apenas de um microfone, e passa duas longas horas contando piadas.

Ao contrário do que muitos podem pensar, o longa-metragem não é uma comédia, mas um ótimo documentário. Seinfeld é claramente apaixonado pelo tema, e com o filme (que assinou como produtor) decidiu mergulhar nos bastidores desse tipo de espetáculo. O objetivo é mostrar que a vida dos bons comediantes não tem moleza, com os piadistas sofrendo horrores ao perseguir obsessivamente as nuances que transformam uma brincadeira numa gargalhada ensurdecedora. A equipe de Seinfeld, capitaneada pelo diretor Christian Charles, entrevista dezenas de cômicos, alguns famosos (Chris Rock, Jay Leno) e outros anônimos. Também acompanha mais de perto dois deles, o próprio Seinfeld – que inicia então o difícil retorno aos bares esfumaçados pela noite das grandes metrópoles dos EUA – e o iniciante nova-iorquino Orny Adams.

É um excelente filme, mas que pode decepcionar quem estiver a fim de dar risada. Embora haja eventuais momentos engraçados dos shows ao vivo, na maior parte do tempo os entrevistados discorrem sobre as dificuldades de montar o show cômico perfeito. Em uma das vertentes principais do documentário, Jerry Seinfeld percorre pequenos bares, refinando o show de retorno, durante meses a fio, até ter segurança de novo. A cada apresentação, pequenos ajustes. Ele troca a ordem das piadas, inclui uma pausa aqui ou ali, acelera o andamento de uma piada acolá, muda uma palavra, usa um sotaque diferente, sempre observando a reação do público. E o resultado é impressionante: de repente, uma piada ruim em Nova York se transforma num momento impagável em Montreal.

O foco do filme, claro, é o processo árduo com que os comediantes refinam as piadas, em busca do timing perfeito. Na outra vertente mais longa do documentário, a câmera acompanha o jovem e talentoso Orny Adams em seus primeiros passos rumo ao estrelato (ou pelo menos à tentativa dele). Adams é um excelente personagem, e as cenas com ele são as melhores da produção, porque desnudam a alma torturada de um sujeito obsessivo ao extremo, corroído pela inveja e por um esmagador sentimento de injustiça (ele se acha um gênio incompreendido, apesar de ser tremendamente inseguro fora do palco).

Há pelo menos uma seqüência que captura de modo genial toda a vulnerabilidade do rapaz: a cena em que ele, deitado numa calçada durante uma espécie de crise de transtorno bipolar em que vai da euforia à tristeza em questão de minutos, gargalha tristemente ao pensar que um dia pretende se casar (“a esta hora alguma mulher está por aí, andando alegremente, sem imaginar que um dia vai ter que me aturar como marido”). O resultado cumpre perfeitamente a função dos bons documentário, que é revelar os cantos escuros de seus personagens.

O disco lançado no Brasil pela Europa Filmes é simples e sem extras. O filme tem proporção correta de imagem (fullscreen 4:3) e som razoável (Dolby Digital 2.0). O original norte-americano tem um monte de extras, todos ausentes na edição nacional: dois comentários em áudio, cenas cortadas, um curta sobre o comediante Orny Adams na atualidade, as apresentações completas de Adams e Seinfeld no David Letterman Show, e outras coisinhas, além de áudio DD 5.1. Para fãs, o importado pode valer a pena.

– Bastidores da Comédia (Comedian, EUA, 2002)
Direção: Christian Charles
Documentário
Duração: 82 minutos

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