Batman Begins

03/10/2005 | Categoria: Críticas

Christopher Nolan narra origem do homem-morcego em filme realista que dá extrema atenção aos detalhes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Mais desenvolvimento de personagens, menos ação frenética, realismo ao máximo. Este é “Batman Begins” (EUA, 2005), o quinto longa-metragem a levar um dos mais queridos e amargurados super-heróis de histórias em quadrinhos para as telas de cinema. Puristas e fanáticos por HQs podem até encontrar motivo para reclamar, já que Nolan altera bastante as origens do herói, mas as platéias terão motivos de sobra para aplaudir. O filme é sólido, consistente, conta uma história de forma cuidadosa e detalhista, e aposta em um tom mais realista, e consideravelmente mais adulto, do que as festejadas produções pinçadas no universo dos quadrinhos que levam a Marvel a liderar o setor (as franquias “Homem-Aranha” e “X-Men”).

Ao trilhar um caminho diferente, o diretor Christopher Nolan comete uma ousadia bem-vinda. Seria mais fácil mirar o público adolescente, acostumado à fórmula humor + cenas de ação frenéticas. Afinal, é esta a fórmula que deu certo para série “Homem-Aranha”, que passou a ser referência em adaptações de quadrinhos para a telona. Nolan, no entanto, encarou de frente uma verdade fundamental: Batman não é o Homem-Aranha. O aracnídeo é um rapazola, um tanto inconseqüente, às voltas com problemas amorosos; já o homem-morcego é um homem solitário e amargo, na casa dos 30 anos, traumatizado pela morte dos pais. Heróis diferentes exigem filmes diferentes. É por isso que “Batman Begins” merece lugar de destaque na recente safra de filmes adaptados de universos cartunescos.

Acertar o tom do filme era mais importante ainda porque, como se sabe, os fãs jamais ficaram inteiramente satisfeitos com as quatro incursões anteriores do personagem no cinema. Os dois exemplares de Tim Burton, embora elogiados, são obras estilizadas, como fantasias autorais de luxo. Já as duas obras de Joel Schumacher investem em um humor histérico e hipercolorido que enterraram a franquia durante oito anos. Para recuperá-la, Chris Nolan jogou fora o passado do Batman. Decidiu recomeçar do zero, narrando em minúcias toda a origem do herói e desprezando a versão de Tim Burton (do primeiro “Batman”) para o nascimento do homem-morcego. Aproveitou e eliminou o humor. “Batman Begins” é amargo como o protagonista, que até arrisca uma piada aqui, um comentário engraçado ali, mas não consegue fazer ninguém rir. E isso é ótimo, pois bate perfeitamente com sua personalidade angustiada.
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Bruce Wayne (Christian Bale) é visto pela primeira vez, em “Batman Begins”, dentro da prisão de um país asiático. Em flashbacks e sonhos recorrentes do personagem, ficamos sabendo toda a trajetória dele desde criança, quando viu o pai e a mãe serem mortos por um marginal durante um assalto na saída de uma ópera. O acontecimento lhe deixou tão traumatizado que, anos depois, Wayne fugiu de Gotham sem um tostão sequer, iniciando uma espécie de jornada de auto-conhecimento pelo submundo asiático. Passou fome e teve que roubar para comer, tudo isso na tentativa de compreender o que leva pessoas comuns a matar, espancar, assaltar semelhantes.

Sua força física e inteligência não passaram despercebidos para o misterioso Ra’s Al Ghul (Ken Watanabe). Ele envia um emissário, Henri Ducard (Liam Neeson), para resgatá-lo da prisão. Treina-o em artes marciais e disciplina-o para controlar a mente. Ensina-o que precisa controlar o medo – o dele próprio e o dos oponentes – para virar um mestre em combate. Bruce Wayne passa sete anos longe de Gotham, mas volta decidido a livrar a cidade de malfeitores como o mafioso Carmine Falcone (Tom Wilkinson). Na missão que se impõe, vai acabar se envolvendo em um plano bem mais ambicioso e explosivo, conduzido pelo Espantalho, identidade secreta do diretor do manicômio local, Dr. Jonathan Crane (Cillian Murphy).

Há uma galeria de personagens coadjuvantes importantes, como a promotora Rachel Dawes (Katie Holmes), o mordomo Alfred (Michael Caine), o gênio inventor Lucius Fox (Morgan Freeman), o executivo mala Richard Earle (Rutger Hauer) e o tenente Jim Gordon (Gary Oldman). Nos 140 minutos do filme, Chris Nolan arranja espaço para desenvolver todos esses personagens, o que deixa muito pouco espaço para as peripécias do Batman propriamente dito. Com a fantasia, o homem-morcego só aparece na tela após 60 minutos, o que pode deixar alguns decepcionados. Ocorre que a preparação do terreno para a primeira aparição do herói – em uma seqüência de tirar o fôlego, no porto da cidade – é fascinante e repleta de detalhes significativos.

O filme se preocupa bastante em construir uma história sólida, realista. Por isso, apresenta explicações racionais para cada detalhe que cerca que envolve o personagem. A caverna que lhe serve de esconderijo, o uniforme indestrutível, o automóvel especial (com design espetacular que lembra um mini-tanque de guerra), a máscara de morcego, a capa que lhe permite “voar”, o cinto de utilidades, tudo isso tem uma explicação. Além disso, quando acorda cheio de manchas azuladas e arranhões, Bruce Wayne mostra que é um herói de carne e osso, alguém que poderia existir de verdade, e não apenas um amalucado ricaço que só poderia ser possível na ficção. “Batman Begins” é realista, e isso conta muitos pontos a favor do filme.

A opção de Christopher Nolan pelos diálogos e pela construção meticulosa da personalidade do protagonista tem um efeito curioso: as poucas aparições do Batman em ação fazem com que esses momentos sejam valorizados ao máximo. E eles também são realistas: o Batman sente dor quando leva um murro, sangra e, em determinada cena, quase vira churrasco de morcego. As seqüências de ação acontecem sempre à noite, em meio a chuva, fumaça e iluminação fraca. Isso favorece o estilo naturalista de Chris Nolan, já que a ação pode ser filmada sem o uso de muitos efeitos digitais, baseando-se quase inteiramente nos closes (tomadas gravas bem perto dos personagens, muito vezes mostrando apenas o rosto e os braços) e em cortes rápidos. A técnica cai muito bem em um filme como “Batman Begins”.

Também o design de Gotham, descrita no roteiro como a maior e mais populosa cidade do planeta, é inteiramente diferente da cidade gótica imaginada por Tim Burton, ou da metrópole cheia de luzes coloridas de Joel Schumacher. Gotham é uma cidade poluída, com áreas decrépitas que lembram uma favela cercada por mar e arranha-céus de concreto. As duas áreas são ligadas por uma intrigante rede ferroviária suspensa, que se transforma no cenário do clímax do filme. O design não é particularmente impactante mas, novamente, isso funciona a favor do filme, porque percebemos que essa cidade poderia existir de verdade, e não apenas na mente de algum gênio do cinema.

Por fim, o elenco repleto de feras funciona às maravilhas. Christian Bale põe o sorriso charmoso e a garra de sempre a serviço do personagem, mostrando a amargura do homem-morcego com um olhar cheio de dor. Os veteranos Michael Caine, Gary Oldman e Morgan Freeman têm pouco tempo em cena, mas estão todos bem. O maior destaque do elenco talvez seja Liam Neeson, outra vez no papel do mentor do herói (como em “Star Wars – A Ameaça Fantasma” e “Cruzada”). Ele o interpreta com a postura orgulhosa e altiva de um lorde inglês. Katie Holmes e Cillian Murphy não comprometem. Com um elenco desses e um roteiro perfeito, Chris Nolan fez um filme de super-herói invejável: adulto e melancólico como “Hulk”, mas intenso como “Homem-Aranha 2”. Uma maravilha.

O DVD da Warner é duplo e recheado de extras. O disco 1 tem apenas um trailer (nos EUA, também uma paródia da MTV). O disco 2 contém um documentário em oito partes, com 104 minutos de duração, enfocando detalhadamente os cenários, os figurinos, os efeitos especiais e os bastidores como um todo, além do passado do personagem nos quadrinhos. A parte ruim é que a navegação nos menus é bem complicada, pois não existe um menu principal e o espectador tem que navegar página por página para chegar até onde deseja. Também não é possível ver todos os featurettes de uma só vez. O filme tem enquadramento original preservado (wide 2.35:1), áudio em inglês (Dolby Digital 5.1) e dublagem em português no mesmo formato. Tudo está legendado em português.

– Batman Begins (EUA, 2005)
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Liam Neeson, Michael Caine, Katie Holmes, Cillian Murphy
Duração: 140 minutos

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