Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge

07/08/2012 | Categoria: Críticas

Excesso de personagens, subtramas paralelas, doze frases por minuto: exposição verbal incessante e ritmo irregular fazem do filme de Christopher Nolan o mais fraco da trilogia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Mostre, não diga. Vale a pena repetir a frase em inglês: “Show, don’t tell”. Essa expressão, conhecida no mundo todo, é seguida há mais de um século por escritores, publicitários, roteiristas e profissionais que lidam com narrativa. Todo esse pessoal sabe que um enredo, pessoa ou objeto fica mais interessante e sedutor e irresistível quando a imaginação do público que consome essa informação é envolvida no processo cognitivo de processá-la e interpretá-la. De alguma maneira, alguém precisa urgentemente lembrar Christopher Nolan disso. É por causa do bombardeio incessante de exposição verbal promovido pelo diretor e roteirista que “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (The Dark Knight Rises, EUA, 2012) se mostra tão irregular.

De modo geral, os melhores diretores de cinema são adeptos incondicionais desse mantra. Contar uma história com economia de exposição significa usar mais a criatividade para manter o espectador conectado à progressão dramática da história, como bem sabiam craques como John Ford e Alfred Hitchcock. Nos filmes deles, os personagens pouco falavam. A ação era expressa através de olhares, movimentos, ações físicas rotineiras. Esses dois gênios filmavam roteiros com média de seis a sete frases por minuto. Os filmes de Sergio Leone, outro gigante, tinham três ou quatro frases por minuto (não estou chutando; contei pessoalmente as frases de vários longas-metragens desses diretores, na pesquisa de doutorado que desenvolvi).

Os personagens de “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” pronunciam nada menos do que doze frases por minutos, o dobro da média dos filmes de Ford e mais do que o triplo de Leone. São quase duas mil linhas de diálogo para 164 minutos de filme (estou me baseando aqui em legendas do filme encontradas na Internet). Boa parte desses diálogos consiste de bobagens que beiram o ridículo. Em pleno terceiro ato, quando o filme se aproxima do clímax supostamente épico, Batman (Christian Bale) e o terrorista Bane (Tom Hardy), antagonista que sitiou Gotham City e promoveu a destruição em massa na cidade, se encontram em meio a uma enorme batalha. “Você voltou a Gotham para morrer?”, pergunta o vilão. “Não. Voltei para detê-lo!”, responde o Homem-Morcego, partindo para o pau. É difícil aceitar um diálogo de quinta categoria como esse num filme que alguns consideram legítimo sucessor de “O Poderoso Chefão”! Santa breguice, Robin!

O pior de tudo é que este não é, nem de longe, o primeiro filme em que Nolan se vê acometido do dom da verborragia. O mesmo problema aparece nos dois primeiros filmes do Batman que ele dirigiu (em menor intensidade), no bom “O Grande Truque” (2006) e no paparicadíssimo “A Origem” (2010) – e é preciso lembrar que nesse último, quando o problema começou a ficar particularmente sério, o diretor/roteirista já gastara quase uma hora para explicar ao espectador como funcionava o conceito da invasão de sonhos que dominava a realidade do filme. Aqui, já que não existe diferença entre o mundo da ficção e o da platéia, Nolan é obrigado a criar dezenas de cenas com diálogos para desenvolver as quase duas dúzias de personagens e subtramas que povoam a história. Essa superpopulação tem um efeito direto no ritmo do filme, que via de regra intercala uma longa seqüência de ação/batalha (em média, uma a cada 20 ou 30 minutos) com meia dúzia de cenas fartamente dialogadas, que explicam as motivações dos personagens tintim por tintim.

Outra conseqüência do excesso de personagens e subtramas é a necessidade de eliminar cenas de transição que enfatizem a passagem do tempo, para evitar que a duração final não ultrapasse três horas de projeção. Um filme tão longo reduziria o número diário de exibições, reduzindo a margem de lucro. Nenhum grande estúdio permitiria algo assim em uma produção de US$ 250 milhões. Por isso, quando o milionário Bruce Wayne (Bale) sai de um continente sem um tostão no bolso e reaparece em outro na cena seguinte, alguns segundos depois, resta a Nolan acrescentar um diálogo entre dois personagens secundários, no qual um deles explica ao outro (na verdade, explica ao público) que Wayne levou 23 dias para fazer a viagem. Através desse personagem, Nolan fala, não mostra. É por isso que o filme é fraco. Filme não é remédio, não deveria precisar de bula para ser compreendido.

Aliás, vale a pena reforçar que tramas com grande quantidade de personagens não precisam recorrer a essa estratégia narrativa por falta de opção do diretor. Apenas para dar um exemplo, em “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” (2004), o diretor Alfonso Cuaron ilustra o tempo transcorrido através de planos curtos que mostram uma árvore sofrendo os efeitos de cada um das estações do ano – folhas caem no outono, neve aparece nos galhos no inverno, derrete no verão, e por aí adiante. Mesmo sem ser genial, trata-se de uma solução simples, elegante, 100% visual e sem palavras. Cuaron mostra, não fala. Pede que o espectador interprete as imagens e deduza a passagem do tempo pelas mudanças de estação. Nada complicado, mas ainda assim uma demanda que exige algum esforço interpretativo e mantém o papel ativo da platéia, na experiência de decodificar a trama. E estou falando de um filme feito para crianças e adolescentes!

Na parte técnica, não há de que reclamar. Nolan mantém as figuras-chave da equipe criativa (fotografia de Wally Pfister, música de Hans Zimmer, desenho de produção de Nathan Crawley e Kevin Kavanaugh), o que sinaliza a manutenção do clima soturno e da paleta de cores dessaturadas dos dois filmes anteriores. Há que se destacar o bom trabalho do elenco em geral (há muitos nomes oriundos de “A Origem”, incluindo aí o excelente Tom Hardy, intérprete do vilão Bane que tem apenas uma rápida tomada sem máscara) e o trabalho interessante com as vozes dos atores – Christian Bale repete a estratégia de tornar a voz do Batman mais gutural e selvagem do que o tom pacífico de Wayne, e Bane ganha uma voz com realce hiper-real nas baixas freqüências, talvez exagerada em excesso, mas ainda assim interessante.

Nem todos os elogios ao excelente trabalho visual, porém, seriam capazes de obscurecer os problemas de roteiro. Após 2h45 de ritmo irregular e poucas cenas realmente intensas (a seqüência de abertura, um seqüestro ousado dentro de um avião, se destaca), “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” encerra a trilogia de modo ambíguo, mais ou menos como Nolan já ensaiara em “A Origem”. Não é apenas o capítulo mais tagarela da trilogia, mas também o mais fraco.

– Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, EUA, 2012)
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Michael Caine, Tom Hardy, Marion Cottilard
Duração: 164 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


37 comentários
Comente! »