Batman – O Cavaleiro das Trevas

08/12/2008 | Categoria: Críticas

Personagens consistentes, realismo e atuações ganham destaque no filme de Christopher Nolan, que não é perfeito

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A morte de Heath Ledger, em janeiro de 2008, caiu como uma bomba na indústria cinematográfica. Aos 28 anos, o ator australiano era dono de talento inegável e estava destinado ao megaestrelato após o lançamento de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight, EUA, 2008), em que tinha acabado de finalizar o papel de Coringa, arquiinimigo do herói. A principal conseqüência do acontecimento trágico, porém, foi o surgimento instantâneo de um interesse mórbido pela performance de Ledger no filme, vitaminado por uma não muito discreta estratégia de marketing da Warner. Resultado: a quase totalidade de críticas escritas sobre o longa de Christopher Nolan foi tomada por uma espécie de nostalgia que invariavelmente usava o desempenho do ator como termômetro para julgar o filme, inflando-o com uma espécie de aura cult um tanto exagerada.

Não há dúvida de que Heath Ledger era um ator talentoso. Qualquer espectador atento pode perceber isso, mesmo assistindo às comédias românticas e aventuras juvenis que ele estrelou no começo da carreira (coisas como “Coração de Cavaleiro” e “Dez Coisas que Odeio em Você”). Graças à morte por overdose acidental, a performance como Coringa gerou mais do que uma onda de elogios – deu partida a uma campanha avassaladora para que Ledger seja agraciado com um Oscar póstumo. De quebra, a campanha colocou o longa-metragem como uma espécie de “O Poderoso Chefão” dos filmes de gibis. Deixando de lado o ímpeto politicamente correto e filtrando o marketing esperto, porém, o que sobra não merece o rótulo de obra-prima. “O Cavaleiro das Trevas” é um ótimo filme, mas não excepcional. Conta com roteiro interessante, bons personagens e ótimas atuações, mas se excede na intensidade e na auto-seriedade, além de ter uma trilha sonora broxante.

Uma observação atenta do filme mostra que Christopher Nolan merece parte do crédito pelo desempenho do ator. Porque a maior das qualidades de “O Cavaleiro das Trevas” reside no cuidado com desenvolvimento e composição de personagens, bem tratados pelo roteiro co-escrito por Nolan (com o irmão Jonathan). Aliás, um dos pontos fortes exibidos pelo cineasta está justamente na direção de atores – há nada menos do que 13 personagens importantes na trama, e todo o elenco exibe desempenhos adequados, algo que precisa ser debitado na conta do diretor. Um dos elementos que favorecem a boa performance do elenco é a construção de personagens consistentes, ponto forte do trabalho de Christopher Nolan e deste projeto em particular. Apesar disso, até mesmo no roteiro existem problemas, como o número excessivo de subtramas e personagens desimportantes. Eles são usados como cortina de fumaça para pregar peças no espectador, mas prejudicam a clareza da narrativa. Ver o longa duas vezes, para clarear as coisas, não é má idéia, embora isto seja cinematograficamente incoerente.

A trama do longa-metragem encontra Bruce Wayne (Christian Bale) enfrentando uma crise pessoal, após algum tempo – o filme não especifica quanto – combatendo bandidos em Gotham. Se os índices de criminalidade caíram vertiginosamente, as aparições violentas do Homem-Morcego também geraram uma onda de imitadores pela cidade, algo que preocupa o herói, pois põe inocentes em perigo. É neste cenário que surgem as duas figuras centrais da trama de “O Cavaleiro das Trevas”: o misterioso Coringa, terrorista anárquico que esconde as cicatrizes sob uma sinistra maquiagem de palhaço, e o promotor boa pinta Harvey Dent (Aaron Eckhart), sujeito incorruptível que aumenta cada vez mais a pressão sobre a máfia da cidade. O primeiro, enlouquecido gênio do crime com identidade e motivos obscuros, passa a ser visto pelos chefões do crime como única chance de atormentar Batman e afrouxar a pressão do promotor. O segundo segue uma jornada trágica particular, com direito a triângulo amoroso com o herói e a promotora Rachel Dowes (Maggie Gyllenhaal, tomando o lugar de Katie Holmes).

Sem a necessidade de contar a origem do herói, já elaborada em “Batman Begins” (2005), Nolan ganha tempo para se concentrar nesses dois personagens. O bom roteiro segue a mesma linha do trabalho anterior, usando a abordagem mais realista possível para transformar em pessoas de carne e osso, com motivações plausíveis, personagens que eram caricaturais e rasos nos quadrinhos. É verdade que a longa duração, aliada à ausência quase absoluta de humor, dá a impressão de ambição desmedida, se auto-importância exagerada, mas o fato é que o objetivo central dos roteiristas acaba atingido: “O Cavaleiro das Trevas” mantém a impressão, já existente no longa de 2005, de que Gotham City (ambientada na cinzenta e industrial Chicago, um grande acerto da direção de arte) poderia existir de verdade, e que um criminoso vestido de palhaço talvez não seja um troço tão cartunesco e irreal quanto pode parecer. Influências de filmes noir e pitadas de drama shakespeareano são palpáveis e aumentam ainda mais a sensação de ambição dramatúrgica.

O roteiro é tão meticuloso que passa do ponto, contendo grande número de cenas dialogadas em excesso. Há enorme quantidade de exposição, especialmente no primeiro ato, dramatizada de forma burocrática, em diálogos e monólogos revestidos de pompa e circunstância e enfatizadas ainda mais por uma trilha sonora chata, enfadonha, que faz muito barulho sem evocar qualquer emoção. Os excessos continuam também na enorme quantidade de personagens (são pelos menos sete com grande importância, e outros seis com papéis menores mas cruciais) e subtramas. Há até mesmo uma 100% dispensável, em que um contador da empresa de Bruce Wayne tenta chantagear Lucius Fox (Morgan Freeman) após descobrir, fuçando nos arquivos da companhia, a identidade de herói. Ela tem desdobramentos e se choca com a linha narrativa principal, mas este objetivo poderia ter sido atingido de forma mais simples e direta, sem prejuízos para a compreensão do quadro geral.

Por outro lado, os irmãos Nolan mostram que sabem desenvolver personagens densos, carnudos, vívidos. Olhe com atenção, por exemplo, o excelente desenvolvimento de Harvey Dent, mostrado como um homem sincero e ambicioso, mas também inseguro e apaixonado, uma mistura potencialmente explosiva de sentimentos que o leva a experimentar uma tragédia shakespeareana, numa jornada que soa absolutamente crível. Em diapasão bem diferente, o Coringa é mostrado como uma incontrolável força da natureza – e é por isso que o Batman tem tanta dificuldade para descobrir algo sobre o passado dele, mesmo empregando as tecnologias mais avançadas. A história em si também é bem bolada, com protagonistas e antagonistas travando um intenso jogo de gato e rato em que nada é o que parece ser, algo que lembra bastante os jogos de fumaça vistos no filme anterior de Nolan, o ótimo “O Grande Truque” (2006). Semelhanças com “Seven” (as técnicas investigativas) e “Clube da Luta” (o Coringa não parece Tyler Durden com pancake?) também não são meras coincidências.

Com um roteiro desta qualidade nas mãos, os atores se esbaldam. Mesmo mais apagado do que de costume, Christian Bale agrega dúvida a um Batman mais sombrio e menos tenaz, inclusive utilizando um tom de voz mais grave quando está vestido com o uniforme negro (os efeitos digitais inseridos na pós-produção eliminam a sutileza da técnica, mas ela está lá). Aaron Eckhart comando o personagem cuja jornada é mais ampla e dramática, e mostra química com Maggie Gyllenhaal, aquele tipo de atriz que não é bonita e sabe disso, mas compensa com uma dose cavalar de charme e sensualidade. Quanto a Heath Ledger, não há dúvida de que é um ótimo desempenho: a voz esganiçada cujo tom sobe e desce loucamente, o andar encurvado, os gestos bruscos, o tique com a língua, tudo nele recende a loucura. Para um bom ator, personagens insanos oferecem sempre ótimas possibilidades, porque a preocupação com sutileza desaparece e se ganha a oportunidade de tentar coisas extremas, o que Ledger faz com competência.

De resto, “O Cavaleiro das Trevas” é um bom filme de super-heróis. Só está longe de virar o clássico criminal que parte da crítica tenta vender. Christopher Nolan monta intencionalmente as cenas de ação física de forma apressada e confusa, às vezes impedindo o espectador de entender exatamente o que está ocorrendo. O momento em que entram em cena os imitadores do Batman, por exemplo, é montado com constantes quebras do eixo (a linha dos 180 graus). Este detalhe, aliado à escuridão e à velocidade da edição, complica a vida da platéia. Claro que este era o objetivo do filme: o diretor faz com o público exatamente o que o Coringa realiza para o Batman. De qualquer modo, isto sacrifica a clareza da narrativa.

A mania de filmar diálogos em tomadas longas, com a câmera rodopiando ao redor dos personagens, é uma estilização irritante que funciona contra o filme, mais uma vez impedindo a platéia de mergulhar na trama e participar dela. A música pouco inspirada, que acompanha praticamente todos os 152 minutos de projeção, do maneira pomposa e auto-importante, usa clichês em abundância (percussão pesada e harmonias dissonantes na hora da pancadaria, metais nos momentos mais tensos). Nolan caiu até mesmo na tentação de inserir momentos histéricos típicos de quadrinhos, como a super-moto que sobe uma parede ou a capa que funciona como asa delta, e agora o Batman consegue saltar de prédios enormes e cair no chão sem se ferir. Tudo isso quebra um pouco a sensação de realismo absoluto tão desejada.

No mercado nacional, o filme é vendido em duas versões diferentes de DVD. A primeira, simples, tem o filme, com qualidade impecável de imagem (widescreen 2.40:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). O segundo disco, que está na versão dupla, traz featurettes sobre a música (6 minutos) e as novas bugigangas do Homem-Morcego (17 minutos). Há ainda seis seqüências completas mostradas da forma como foram planejadas para exibição no formato IMAX, uma série de reportagens fictícias sobre Gotham City (47 minutos) e galeria de trailers. Boa parte do material presente na edição dupla em Blu-Ray, lançada nos EUA, ficou de fora. Uma pena.

– Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, EUA, 2008)
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Maggie Gyllenhaal
Duração: 152 minutos

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