Batman

27/10/2005 | Categoria: Críticas

Primeira incursão de Tim Burton na franquia tem cenários grandiosos e cenas de ação sem sal

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O primeiro filme da franquia do homem-morcego, intitulado simplesmente “Batman” (EUA, 1989), teve para a Hollywood do final dos anos 1990 o mesmo impacto que o primeiro “X-Men”, de Bryan Singer, uma década depois. Basicamente, o filme de Tim Burton foi o longa-metragem mais aguardado daquele ano, fez um tremendo sucesso de público e crítica, e deu partida a uma avalanche de filmes – alguns bons, outros ruins – baseados em personagens de histórias em quadrinhos. Além disso, tornou o diretor um dos nomes autorais mais respeitados na indústria do cinema. Por isso, é curioso perceber, quando se olha em retrospectiva, que o filme guarda pouco das características pessoais do diretor, que certamente precisou fazer muitas concessões para poder assinar o trabalho.

Quando assinou contrato para filmar “Batman”, Burton ainda não era conhecido. Havia feito apenas duas comédias de humor negro de sucesso relativo. De todo modo, já tinha uma reconhecida predileção por filmes de visual sombrio, gótico, com um toque de elementos macabros, mas sempre com humor. “Batman” tem um pouco de tudo isso, mas não se encaixa naquilo que os fãs aprenderiam a esperar de Burton com a consolidação de seu estilo, nos anos seguintes. Há pouco de gótico, e menos ainda de macabro, no filme de 1989. O humor negro está lá, mas nesse filme esse elemento pode ser considerado mais um problema do que uma qualidade.

Uma das reclamações mais consistentes dos fãs do Cavaleiro das Trevas diz respeito ao excessivo destaque dado por Burton ao vilão. Isso é perceptível em “Batman”; o Curinga (Jack Nicholson) tem mais tempo de tela, protagoniza as melhores cenas, possui os melhores diálogos e é o verdadeiro dono do filme. O olhar que Tim Burton dirige ao personagem é claramente carinhoso (vide a memorável passagem em que o Curinga destrói obras de arte no museu de Gotham e impede um capanga de pichar um Hieronymus Bosch, afirmando que daquele quadro – algo macabro – ele gosta). O Curinga é o elemento Burton dentro do filme.

Na verdade, a produção poderia, ou mesmo deveria, se chamar “Curinga”. Tanto isso é verdade que o nome de Jack Nicholson aparece primeiro nos créditos. Nicholson, é claro, foi uma aquisição de respeito feita pela Warner, e custou caro. Ele não aceitou receber um salário, pedindo um percentual sobre todo o mershandising do filme, o que gerou perto de US$ 60 milhões de lucro e o tornou o ator mais bem pago por um único trabalho em todos os tempos. Além disso, o batman Michael Keaton, reconhecido bom profissional, não tem o físico ideal, pois é muito alto e magro, e não interpreta o milionário Bruce Wayne como o homem atormentado e traumatizado que o herói deveria parecer.

Isso posto, é importante ressaltar que “Batman” não é, de maneira alguma, um mau filme. Em termos de design, por exemplo, a produção é uma jóia. A Gotham City desenhada pelo designer de produção Anton Furst, com seu caos arquitetônico e suas ruas esfumaçadas, serviu em grande parte como modelo para a criação da cidade de “Batman Begins”, o elogiado filme de 2005. Não é, contudo, o ambiente gótico que muita gente esperaria de Tim Burton. Há apenas dois cenários que têm claramente esse toque do diretor: o museu e a catedral da cidade, claramente inspirada na Notre Dame de Paris, com suas gárgulas sinistras.

Já o enredo é simples e eficiente, chegando mesmo a ter inspirado muitos dos futuros filmes de HQs que Hollywood faria. Em termos gerais, o filme focaliza na primeira metade o nascimento do herói e do seu maior adversário, colocando-os para brigar na segunda parte. A mesma receita seria utilizada pelo diretor Sam Raimi no primeiro “Homem-Aranha”. Outros sinais do filme de Burton podem ser encontrados em “Demolidor” (o escritório do Reio do Crime é quase uma cópia do lugar onde se esconde o chefão da máfia de Gotham City).

Se em aspectos cenográficos e narrativos o filme ainda se sustenta, o grande problema mesmo está nas cenas de ação. Tim Burton jamais se notabilizou por ser um cineasta com sensibilidade para seqüências de luta e/ou confronto, e isso fica evidente em “Batman”. Vistas em pleno século XXI, as aparições do homem-morcego parecem lentas e desleixadas. A rigor, não existe coreografia de lutas; o morcegão chega, esmurra ou chuta, e pronto, o adversário está no chão. Além disso, há problemas com a verossimilhança de certas cenas (o Curinga consegue derrubar um avião com um ridículo revolver com cano de um metro!).

Outro defeito é o uniforme do herói, que dificulta enormemente os movimentos de Keaton. O ator parece ter filmado todo o longa-metragem com torcicolo, já que não consegue movimentar o pescoço, tendo que girar o torso para poder olhar em outras direções. O movimento é uma limitação imposta pela máscara, algo que o figurinista Bob Ringwood não conseguiu minimizar.

Por fim, tem a trilha sonora, feita a quatro mãos que não se coadunam. Enquanto Tim Burton trouxe o parceiro Danny Elfman, responsável pelos toques mais sombrios, a Warner forçou a inclusão de três canções de Prince, cujo balanço não combina de maneira alguma com o clima soturno do filme. Mas saiba dar um desconto a esses problemas, leitor, e você vai se divertir um bocado com um filme de super-heróis diferente.

A edição simples lançada pela Warner traz apenas o filme, com formato original (wide 1.85:1) e som potente (Dolby Digital 5.1). Bom mesmo é a edição especial dupla. Nela, o filme ressurge em nova transferência, com imagem mais límpida e som mais forte. No disco 1, há comentário em áudio de Tim Burton (sem legendas). Já o disco 2 é dedicado aos extras, incluindo trailer, três documentários e quatro featurettes. Há uma pesquisa sobre as origens do herói nos quadrinhos (40 minutos), um documentário em três partes sobre o filme (72 minutos) e outro, de seis partes (51 minutos), sobre aspectos específicos das filmagens (a construção de Gotham em estúdio e a preparação de Jack Nicholson são os mais bacanas).

Além disso, existe uma montagem animada de storyboards com uma cena que incluía o Robin e foi cortada antes das filmagens (5 minutos); uma visita de Bob Kane, o criador do Batman, aos sets (3 minutos); e dois mini-documentários sobre os personagens nos quadrinhos, um sobre os heróis (13 minutos) e outro sobre os vilões (8 minutos). Todo esse material contém legendas em português. Para completar o pacotão, três clipes de Prince. O lançamento só não é perfeito porque o Brasil teve eliminada a faixa de áudio em DTS (formato de som mais avançado tecnologicamente).

- Batman (EUA, 1989)
Direção: Tim Burton
Elenco: Michael Keaton, Jack Nicholson, Kim Basinger, Billy Dee Williams
Duração: 126 minutos

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