Be Cool – O Outro Nome do Jogo

02/08/2005 | Categoria: Críticas

Seqüência de sucesso de 1995 tenta fazer auto-paródia, mas não tem ritmo nem energia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

O primeiro filme de John Travolta após o esmagador sucesso de “Pulp Fiction” foi uma mistura interessante de policial e comédia, chamada “O Nome do Jogo”. Reza a lenda que o astro, temeroso de afundar no semi-anonimato pela segunda vez na carreira, chegou a consultar Quentin Tarantino sobre o projeto. Recebeu sinalização positiva, pois havia um nome por trás do projeto que seria garantia de qualidade, o escritor Elmore Leonard. Eis que, dez anos depois, Travolta organiza a continuação do longa-metragem, com base em outro livro de Leonard, de quem Tarantino adaptou o excelente “Jackie Brown”. A surpresa: “Be Cool – O Outro Nome do Jogo” (EUA, 2005) é burocrático, repetitivo e pouco inspirado.

O personagem principal da película de 1995 é Chili Palmer, um agiota enfadado com a profissão. Ele conhece os bastidores de Hollywood e decide virar produtor, aproveitando a lábia, as amizades escusas e o jeito cool para achacar outros produtores. Dez anos depois, Palmer anda entediado novamente. Um amigo, Tommy Athens (James Woods), decide lhe propor uma biografia de si, mas é assassinado por um mafioso russo durante o encontro dos dois, em um café de Los Angeles. O encontro tem o efeito contrário. Antes de morrer, Athens dá a Palmer a dica sobre uma cantora nova, Linda Moon (Christina Milian). Ao ver a garota cantar, Palmer tem um estalo: e se ele largasse o cinema para virar produtor musical? É este o mote de “Be Cool”.

O segundo filme, portanto, gira em torno da mesma idéia do primeiro, enfocando uma mudança de profissão que, na verdade, não é mais do que uma forma de passar a freqüentar um novo círculo social. O meio da música é diferente do cinema. Nas palavras de Nick (Harvey Keitel), o empresário picareta da menina talentosa, “na música todo mundo é mafioso”. Para alguém como Chili Palmer, é uma ótima chance profissional. Só que, na tarefa de mudar de ramo, ele desperta a fúria de muita gente: de outro empresário, de chefes de gravadoras e até mesmo da máfia russa. Sua porta de entrada no meio musical é Edie (Uma Thurman), viúva de Tommy que herda uma pequena gravadora endividada.

O elenco de “Be Cool” é uma verdadeira constelação de estrelas, quase todas talentosas. Além dos astros Travolta e Thurman, há coadjuvantes de prestígio (Keitel e Danny DeVito), bons atores (Vince Vaugh e James Woods), candidatos a galã (The Rock, aqui travestido de cantor negro e gay que faz bico como segurança) e gente boa que anda sumida (Hank Azaria, no papel de um assassino de aluguel que vive comendo). São personagens que poderiam ser interessantes, mas não têm vida própria. A maioria dos atores parece sem energia, como se preocupados apenas em cumprir o contrato, embolsar uma bolada e sumir do mapa. Daí, fica ao par principal a tarefa de seduzir o leitor.

O diretor F. Gary Gray tem muita dificuldade em conferir energia e dinâmica ao filme. Ele não possui timing cômico, o que prejudica bastante o longa. Além disso, o texto do roteirista Peter Steinfeld é pouco sutil. Logo na primeira cena, Chili Palmer faz uma observação irônica a respeito de seqüências cinematográficas, o que deixa evidente qual é o tipo de humor que a produção vai perseguir: um humor autodepreciativo, de auto-paródia, repleto de referências. Ocorre que há uma superabundância desse tipo de piada, o que acaba gerando o efeito contrário ao pretendido, ou seja, uma banalização da crítica, que se torna em si mesmo um clichê – e dos grandes. O crítico Roger Ebert fez uma metáfora perfeita para a situação, comparando o filme a um burocrata que apenas indica outros filmes, sem bastar-se. Observação perfeita.

Assim, chega a ser constrangedor ver Harvey Keitel conversando no telefone com um certo Marty (uma óbvia referência a Martin Scorsese, autor com quem ele trabalhou em diversos filmes) e coisas similares, até chegarmos na seqüência que é o resumo de “Be Cool”: a comentada – e exaustivamente mostrada em trailers e pôsteres da produção – cena em que Travolta e Uma Thurman dançam de rosto colado, em uma pista de dança, ao som de Black Eyed Peas com Sérgio Mendes (caramba, os norte-americanos levam mesmo esse picareta a sério!).

Na verdade, a cena é uma referência ao antológico encontro dos dois atores em “Pulp Fiction”. Mas não funciona, nem por um segundo. Não há química entre o casal, a música é pobre, a coreografia idem. Da mesma maneira, a participação de Steven Tyler, cantor do Aerosmith, beira o patético. Péssimo ator, ele arrisca uma piada sem graça (“já passei do estágio de ter que aparecer em filme para vender discos”, frase bem na linha do humor pretendido pela película) e compromete seriamente a credibilidade já combalida do Aerosmith, fingindo estar apaixonado pela música açucarada da mais nova candidata a Mariah Carey do pedaço.

Para não dizer que “Be Cool” não tem nada bacana, dá para citar como destaque o ator Vince Vaugh, à vontade no papel de um empresário branco que age e fala como um negro. As cenas dele são as mais engraçadas, talvez com uma única exceção: a seqüência do ataque do assassino russo ao amigo empresário de Chili Palmer, logo na abertura, quando a peruca do sujeito insiste em ficar torta, a cada coice do revólver Magnum 44 que ele empunha. Hilariante. Pena que a cena só dura dois minutos, e a participação de Vaugh seja bem pequena. Afinal de contas, parece que o texto de Elmore Leonard não é garantia de qualidade coisíssima nenhuma.

O DVD nacional, lançado pela Fox, contém um documentário de bastidores (21 minutos), erros de gravação (7 minutos), quatorze cenas excluídas, seis featurettes enfocando os atores (cada um tem de 3 a 6 minutos) e um clip musical com The Rock. A imagem tem o corte original (widescreen anamórfico) e som Dolby Digital 5.1.

– Be Cool – O Outro Nome do Jogo (EUA, 2005)
Direção: F. Gary Gray
Elenco: John Travolta, Uma Thurman, Vince Vaugh, Harvey Keitel
Duração: 118 minutos

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