Rebobine, Por Favor

17/03/2009 | Categoria: Críticas

Roteiro mais convencional transforma paixão analógica de Michel Gondry em comédia carinhosa e criativa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Celebradíssimo diretor de videoclipes, o francês Michel Gondry ainda não conseguiu alcançar a mesma fama como cineasta. Alcançou, porém, algo bem mais difícil: o status de autor respeitado dentro da indústria cinematográfica. Diz-se que Gondry é um sujeito hiperativo, que transborda criatividade e é muito receptivo a improvisos de toda espécie. Talvez seja por essas características que atores celebrados disputam a tapa um lugar nos filmes dele, às vezes trabalhando sem salários, apenas pelo prazer da criação febril. Em “Rebobine, Por Favor” (Be Kind Rewind, EUA/França, 2008), o talentoso francês transforma em imagens o mais convencional dos roteiros que já escreveu, em uma história que celebra a nostalgia por um passado analógico.

Um dos aspectos mais curiosos do trabalho de Michel Gondry é a mania do diretor por truques “on câmera”. O cara é um amante ardoroso de efeitos especiais à moda antiga, inventados com poucos recursos e muita criatividade (veja o documentário presente no DVD de “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, mais famoso longa-metragem assinado por ele, para conferir alguns exemplos). Em “Rebobine, Por Favor”, esta faceta de cineasta amante dos improvisos meio toscos passou da realidade à ficção, migrando dos bastidores para a frente das câmeras e tornando-se a peça central do enredo, que traz os comediantes Jack Black e Mos Def como alter-egos do próprio Gondry.

No filme, o ingênuo Mike (Def) trabalha como atendente de uma velha locadora de vídeos, de propriedade do veterano comerciante Fletcher (Danny Glover). O estabelecimento, que tem o mesmo nome do filme, está caindo aos pedaços e perdendo fregueses a cada dia. Tecnologia não é o forte do lugar, que tem no acervo apenas velhas fitas VHS. Para piorar, fica numa região que a Prefeitura deseja revitalizar, demolindo a velha loja e criando um centro comercial no lugar. Durante uma viagem do dono, o melhor amigo de Mike (Jerry, interpretado por Jack Black) sofre um acidente com eletricidade e acaba apagando todas as fitas do acerto. Sem dinheiro para repor o estoque, a dupla tem uma idéia mirabolante: munidos de uma velha câmera de vídeo, eles decidem filmar versões caseiras de cada película que os raros fregueses aparecem para alugar.

Obviamente, não se trata de um roteiro que prima pelo realismo. “Rebobine, Por Favor” tem a cara lúdica, ingênua, quase infantil do trabalho de Michel Gondry. Como todo bom “feel good movie”, contudo, o longa-metragem provoca empatia imediata nos sonhadores que o assistem, e o cuidadoso e engraçado primeiro ato acaba conduzindo a um recheio delicioso, em que a dupla de malucos, reforçada por uma presença feminina (Melonie Diaz), recria de maneira tosca e impagável produções como “Os Caça-Fantasmas”, “A Hora do Rush 2” e “Conduzindo Miss Daisy”. Inspirado, Gondry vai incluindo idéia e mais idéias delirantes na trama, que culmina com um daqueles finais impossíveis, mas 100% alto astrais, que a platéia, devidamente conquistada pela simpatia humilde dos personagens, acaba aceitando com um sorriso no rosto.

O destaque no elenco fica justamente para a dupla de protagonistas. O filme se beneficia bastante do estilo diametralmente oposto dos atores – o jeito energético e extravagante de Jack Black complementa o estilo minimalista cool de Mos Def, e a química entre eles é muito boa. As pequenas participações de Danny Glover e Mia Farrow (desfigurada de tanto Botox) rendem pelo menos uma seqüência hilariante, e Sigourney Weaver aparece numa cena meio insossa. Sem nenhuma vergonha, “Rebobine, Por Favor” rema contra a maré e assume a nostalgia de um mundo analógico, criando uma variação contemporânea da parábola de Davi e Golias, em que o vilão, como de hábito, são as grandes corporações. É bobo e pueril, mas funciona. E as encenações toscas de filmes famosos provocam gargalhadas genuínas. Só por elas, “Rebobine, Por Favor” já vale a pena.

O DVD lançado nos Estados Unidos é simples e contém, como extra, apenas um pequeno documentário de bastidores. A qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfico e também fullscreen) e áudio (Dolby Digital 5.1) é OK. Infelizmente, os produtores não incluíram os trailers criativos (num deles, o próprio diretor aparece reencenando de modo tosco os eventos do filme) e nem os trechos completos dos filmes amadores refeitos pelos personagens no decorrer do enredo, que poderiam render um extra original e curioso.

Um filme assim, obviamente, não foi feito para grandes platéias. Gondry estreou a produção no Festival de Sundance, levou-a à Berlinale e lançou-a nos EUA e na Europa no mês de fevereiro, que tradicionalmente atrai pouco gente aos cinemas, devido à ressaca do Oscar. O faturamento internacional chegou a US$ 28 milhões, o suficiente para cobrir com alguma folga o orçamento modesto, e a recepção da crítica foi apenas morna, com elogios e críticas em igual proporção. Talvez seja o tipo de obra que as pessoas vão esquecer com rapidez, mas a turma interessada em metalinguagem será brindada com técnicas impagáveis de como filmar efeitos sem gastar nada. Você sabia que para reproduzir o efeito de projeção arranhada e levemente acelerada de um filme mudo basta colocar a câmera atrás de um ventilador, com alguns fios de arame amarrados de cima a baixo?

O DVD nacional, da Europa Filmes, traz o enquadramnto original preservado (widescreen letterboxed) e áudio em dois canais (Dolby Digital 2.0).

– Rebobine, Por Favor (Be Kind Rewind, EUA/França, 2008)
Direção: Michel Gondry
Elenco: Jack Black, Mos Def, Danny Glover, Melonie Diaz
Duração: 102 minutos

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