Bebê de Rosemary, O

14/02/2004 | Categoria: Críticas

Filme reafirma Polanski como gênio capaz de criar terror a partir de suposições e dúvidas de uma mulher grávida

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Roman Polanski era considerado apenas um promissor cineasta polonês quando foi convidado para dirigir “O Bebê de Rosemary” (Rosemary’s Baby, EUA, 1968), nos Estados Unidos. Seria a primeira produção norte-americana de um diretor jovem, mas já muito respeitado na Europa. Polanski já havia mostrado que podia circular com desenvoltura por diversos gêneros, e todo mundo percebia que ele manipulava a linguagem cinematográfica muito bem.

No leme de “O Bebê de Rosemary”, Polanski gerou um dos mais assustadores filmes já produzidos, sem jamais assumir que estava dirigindo um longa-metragem de terror. Aliás, “O Bebê de Rosemary” funciona muito melhor sem que se espere dele uma trama de horror clássica, no estilo de “O Exorcista”, ou um suspense sobrenatural B tipo “A Profecia”. Quando o projeto foi gerado, através da mente do lendário diretor e produtor William Castle, esse era o objetivo principal do filme: matar as pessoas de medo.

Foi o produtor Robert Evans o responsável pela mudança de rumo de projeto. Ele colocou Polanski no filme e lhe deu liberdade total para fazer alterações no roteiro. O cineasta polonês tratou, então, de retirar os traços sobrenaturais da obviedade, envolvendo em dúvidas a história da mulher grávida que imagina estar sendo vítima de uma conspiração para dar à luz um filho do demônio. Para Polanski, o elemento sobrenatural não deveria ser explicitado, mas mergulhado em ambigüidade. Desse modo, a trama pareceria muito mais realista – e o medo gerado na platéia seria conseqüência natural.

Na verdade, Polanski estava fazendo um retorno a um tema que ele havia abordado anteriormente em “Repulsa ao Sexo” (1967): a confusão entre imaginação e realidade. Em “O Bebê de Rosemary”, o diretor jamais deixa claro se a desconfiança da protagonista quanto à conspiração satânica tem fundamento ou se tudo não passa de delírio causado pela ansiedade natural de uma mulher que vive uma gravidez extremamente complicada. O antológico final do longa-metragem, inclusive, permite ao espectador tirar suas próprias conclusões antes de responder a essa pergunta.

Para conseguir manter todo o clima de tensão, Polanski conta com uma ajuda valiosa: Mia Farrow, a atriz que interpreta Rosemary Woodhouse com absoluta perfeição. Frágil, delicada e à beira de um colapso nervoso, Farrow fornece o estofo necessário para mergulhar o filme na dúvida exigida por Polanski. Ou melhor, em várias dúvidas: o simpático casal de velhinhos seria, na verdade, uma dupla de bruxos? O marido da mulher, Guy (o renomado diretor John Cassavettes), teria feito um pacto com o diabo?

Perguntas como essas aparecem durante todo o filme e nunca são respondidas, permitindo ao diretor construir um crescente estado de tensão sem jamais trair a premissa de não revelar ao público a verdadeira natureza do mistério. Tudo isso conta ainda com o apoio de uma direção de arte excepcional, que explora o arquitetura gótica do velho edifício Dakota, em Nova Iorque, e de uma fotografia envolvente, cheia de sombras e tons pastéis. “O Bebê de Rosemary” é uma verdadeira aula de cinema, um daqueles filmes que encantam, ficam na cabeça durante anos e não envelhecem.

Em DVD nacional, o filme possui ainda um bom documentário de bastidores, que disseca os bastidores da produção e narra várias histórias saborosas. Robert Evans relembra como conseguiu impedir o estúdio (a Fox) de demitir Roman Polanski, por causa dos atrasos na produção, enquanto o diretor explica como conseguiu convencer Mia Farrow a continuar no filme mesmo depois que Frank Sinatra, então marido da atriz, exigiu que ela saísse do projeto – o que lhe custou, de fato, o divórcio.

– O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby, EUA, 1968)
Direção: Roman Polanksi
Elenco: Mia Farrow, John Cassavettes, Ruth Gordon, Sidney Blackmer
Duração: 142 minutos

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