Bee Movie

01/04/2008 | Categoria: Críticas

Retorno de Jerry Seinfeld ao show business soa como uma colcha de retalhos de animações anteriores

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Foram nove temporadas à frente da série de TV considerada, por muita gente, como a mais interessante já exibida nos Estados Unidos. Em 1998, o comediante Jerry Seinfeld cansou e encerrou o programa, que levava seu nome, no auge do sucesso. De lá para cá, turnês de “stand up comedy” (shows cômicos solitários em bares e teatros) e aparições em programas de televisão, numa rotina documentada pelo bom filme “Bastidores da Comédia” (2002). Mas a volta de Seinfeld à indústria do entretenimento acontece, na verdade, com a animação “Bee Movie – A História de uma Abelha” (EUA, 2007). O filme ensaiou um retorno triunfal que, na prática, se revelou não tanto triunfal assim.

Não há dúvida de que Jerry Seinfeld se esforçou para fazer um grande trabalho. Como principal agente criativo na execução do longa-metragem, ele o produziu e co-roteirizou, junto com três parceiros do seriado de TV. Participou da seleção do ótimo elenco de apoio (vozes de Renée Zellwegger, Matthew Broderick, Chris Rock, John Goodman e participações especiais de Ray Liotta e Sting, como eles mesmos) e escolheu os diretores. Ainda assim, e embora pessoalmente exiba o ótimo timing cômico que sempre demonstrou, Seinfeld não conseguiu emprestar ao filme a mesma força criativa e a originalidade da série televisiva. “A História de uma Abelha” soa como uma colcha de retalhos de animações anteriores, sofrendo ainda com um enredo irregular e hesitante, e com problemas de lógica narrativa.

Um ótimo exemplo da falta de criatividade que assolou os roteiristas está no primeiro ato, quando o personagem principal e seu problema são apresentados. O protagonista é uma jovem abelha prestes a efetuar a escolha mais importante de sua vida: decidir qual será o futuro emprego, onde deverá passar o resto de sua existência. Só que Barry é um rebelde. Ele não está interessado em repetir mecanicamente as mesmas ações todos os dias. Assim, decide conhecer o mundo antes de tomar a grande decisão, e faz isso voando para fora da colméia com um grupo de abelhas coletoras de pólen. Barry passeia pelo Central Park (Nova York), vive aventuras envolvendo humanos e eventualmente conhece Vanessa, bela e simpática humana dona de uma floricultura, por quem se apaixona (!).

Através dela, Barry acaba descobrindo que os seres humanos se alimentam a partir do mel produzido por abelhas como ele. O choque com a descoberta não o impede de estudar as leis e abrir um processo contra a raça humana, exigindo legalmente que o consumo de mel seja proibido em todo o planeta. Embora possa parecer uma idéia original, apesar de disparatada (vamos falar sério: uma abelha processando seres humanos em um tribunal?), esse cenário rouba elemento de duas animações recentes e superiores. O personagem jovem, rebelde e idealista é muito similar ao protagonista de “Formiguinhaz” (1998), uma semelhança explicitada mais ainda porque, como Woody Allen naquele filme, Seinfeld é essencialmente um contador de piadas. Já a interação entre animais e humanos segue os mesmos moldes de “Ratatouille” (2007), a vitoriosa produção da Pixar, só que sem a sutileza desta.

Embora ganhe pontos por ter ritmo acelerado e freqüentemente criar desdobramentos imprevisíveis para a trama acelerada, “Bee Movie” parece hesitar e, por fim, não conseguir decidir que rumo narrativo tomar. Começa como uma história de rebeldia juvenil, vira comédia romântica e pula para drama de tribunal – e, embora reconheça e brinque com os clichês de cada gênero, o que é algo positivo, o excesso de desvios radicais de rumo acaba desorientando o espectador, que a certa altura não sabe mais o que esperar da trama. Para piorar, no terceiro e último ato, o filme toma um rumo completamente lugar-comum, buscando ensinar uma lição de moral ao protagonista (e ao público) de maneira panfletária e excessivamente expositiva.

A qualidade da animação, se não chega a atingir o nível de excelência da Pixar, líder no setor, não faz feio, como demonstram as ótimas seqüências em que os coletores de pólen se aventuram por campos floridos em busca de matéria-prima. Outro ponto positivo está na participação de personalidades reais, que interpretam a si mesmas na história – a piada com o cantor Sting é um dos melhores momentos da produção, e a cena com o ator Ray Liotta faz uma brincadeira impagável com o filme “Os Bons Companheiros” (1990), que ele estrelou. Aliás, as tradicionais referências a filmes clássicos são ainda melhores do que o habitual do gênero, como prova a sensacional seqüência de sonho enquanto Barry toma banho na piscina, numa esperta alusão a “A Primeira Noite de um Homem” (1968), filme cujo protagonista enfrenta exatamente o mesmo dilema da jovem abelha. Se o enredo fosse tão consistente quanto essas citações, Jerry Seinfeld teria conseguido uma pequena obra-prima.

O DVD da Paramount traz alguns jogos para crianças como extras. O filme aparece com qualidade boa de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Bee Movie – A História de uma Abelha (EUA, 2007)
Direção: Steve Hickner e Simon J. Smith
Animação (vozes de Jerry Seinfeld, Renée Zellwegger, Matthew Broderick, Chris Rock)
Duração: 90 minutos

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