Beijo Amargo, O

01/01/2006 | Categoria: Críticas

Samuel Fuller aborda temas proibidos em filme polêmico e muito à frente do seu tempo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

É interessante que, com o tempo, “O Beijo Amargo” (The Naked Kiss, EUA, 1964) tenha adquirido o rótulo de filme noir. Ele foi feito muitos anos depois da época de ouro do estilo (anos 1930/40). A rigor, pouco há no longa-metragem de Samuel Fuller que evoque o gênero. Não há detetives, loiras fatais de caráter ambíguo e nem bares esfumaçados em grandes metrópoles. Apenas a fotografia preto-e-branca, cheia de contrastes radicais, de Stanley Cortez, parece ter ido beber na fonte noir. E, claro, convém não esquecer que o diretor assinou muitas obras do estilo, tendo ficado conhecido como um dos mestres do cinema policial B. Mas é só.

“O Beijo Amargo” é um filme singular. Trata-se de um depoimento corajoso sobre uma sociedade doente, que vive de aparências e prefere varrer a sujeira para debaixo do tapete do que encará-la. A pequena cidade-modelo de Grantville pode ser vista como um microcosmo dos Estados Unidos. Tudo bem, o tema até que, de forma oblíqua, remete ao filme noir. As diferenças da trama para as convenções estabelecidas pelo filme policial B, no entanto, são gritantes.

A protagonista é uma mulher, algo raríssimo na história de noir. E a cena que a apresenta, logo na abertura, talvez seja a chave para compreender a relação do filme com o noir. A moça não é apenas uma loira fatal; essa é, na verdade, a profissão dela. Sim, uma prostituta. Que protagonista inusitada, não? E olha que esse é apenas o primeiro de muitos choques que Fuller aplica no espectador. A seqüência completa a mostra dando uma surra incrivelmente realista num cafetão bêbado. Ato realizado, a mulher vai ao espelho e retira a peruca. Pois é: ela apenas parece uma loira fatal, mas não é loira. E o filme vai se encarregar de mostrar que tampouco é fatal. Como o filme: parece noir, mas não é.

Fuller deve ter chocado muita gente ao exibir uma abertura tão ousada, tão anti-establishment, em 1964. Tecnicamente a seqüência é um prodígio, pondo a câmera subjetiva no lugar do homem espancado. E funciona às mil maravilhas: é impossível não fica hipnotizado diante de uma cena tão crua, violenta, excitante quanto aquela mostrada nas primeiras imagens do filme. Quem é essa mulher? Por que ela bate num homem com tanta raiva? Essas perguntas serão respondidas aos poucos, e o filme logo entra num ritmo mais tranqüilo, mas a platéia já está fisgada. Sabe que, no mínimo, verá um espetáculo diferente.

Kelly (Constance Towers) foge da cidade grande e da perseguição do cafetão espancado. Dois anos depois, pousa na pequena Grantville. É então abordada por Griff (Anthony Eisley), comissário encarregado da cidade. O policial manda que ela se afaste da cidade, lugar conservador e pacífico, que não admite aquele tipo de comportamento. Kelly faz diferente. Muito diferente. Abandona a prostituição e vai trabalhar como enfermeira em um hospital de crianças deficientes. Também aluga um quarto na casa de uma respeitável senhora da comunidade. Se entrosa no lugar.

Passa-se algum tempo até que Griff a reveja. Ele percebe que Kelly encanta o milionário Grant (Michael Dante), neto do fundador da cidade, dono de uma fortuna incalculável e herói de guerra. Sendo melhor amigo do sujeito, um modelo de retidão e caráter no qual toda a cidade se espelha, Griff sente que não pode deixá-lo namorar uma ex-prostituta. Por isso, redobra as pressões para que Kelly deixe a cidade. O que se segue, no entanto, não é uma previsível trama de chantagem, mas uma perturbadora reviravolta que inclui perversão e assassinato.

Os três personagens principais são extraordinários. Kelly, por exemplo, é uma mulher misteriosamente fascinante. Como dizer outra coisa de alguém que muda de profissão tão drasticamente? Fuller não cai na tentação de explicá-la, muito menos de transformá-la em uma feminista que queima sutiãs. Ela é corajosa, mas também frágil; ama, e quer ser amada. Além disso, estabelece com Griff uma estranha relação de amor e ódio. É óbvio que ela mexe com o policial; quando ele a manda embora da cidade, não o faz com prazer e nem com indiferença, mas com pesar. Talvez sua consciência esteja gritando.

“O Beijo Amargo” é um filme audacioso. Revelar o quanto Samuel Fuller foi ousado, tanto na escolha do seu tema oculto como na abordagem que faz dele, seria atrapalhar as surpresas que o longa-metragem reserva ao espectador. Basta dizer, no entanto, que 40 anos depois os grandes estúdios continuam sem muita coragem para abordar novamente um tema tabu, como é o caso aqui, da forma crua e visceral que o veterano diretor fez.

Fuller, como se sabe, foi um diretor proscrito. Talentoso, cineasta completo (ele também assina o roteiro e a produção de “O Beijo Amargo”, algo não muito comum nos anos 1960) e de forte estilo autoral, encontrou dificuldades para produzir uma obra diferente, sempre ousada e polêmica, à frente do seu tempo. Por isso, jamais conseguiu espaço para dirigir produções classe A. Essa predileção pelo escândalo o transformou num dos mais desconhecidos grandes diretores dos Estados Unidos. Seus filmes, como “O Beijo Amargo”, continuam à espera de uma redescoberta mais ampla.

A Aurora DVD lançou o filme no Brasil em uma edição baseada no disco que a Criterion colocou no mercado dos EUA. O filme tem o corte original de imagem, na proporção 1.66:1, em formato widescreen pouco convencional. O som, restaurado, é Dolby Digital 1.0 (mono). Sinopse, trechos de críticas e biografias em texto do elenco são os únicos extras, assim como aconteceu na edição da Criterion.

– O Beijo Amargo (The Naked Kiss, EUA, 1964)
Direção: Samuel Fuller
Elenco: Constance Towers, Anthony Eisley, Michael Dante, Virginia Grey
Duração: 91 minutos

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