Beijo Roubado, Um

16/08/2008 | Categoria: Críticas

Wong Kar-Wai transporta suas típicas tramas de amor impossível para uma paisagem essencialmente norte-americana

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

“Um Beijo Roubado” (My Blueberry Nights, EUA/Hong Kong, 2007) é o tipo de filme perfeito para testar o conhecimento de um cinéfilo inveterado. Passe um trecho deste longa-metragem para um bom conhecedor de cinema e pergunte se ele é capaz de reconhecer o diretor apenas pela aparência das imagens. Se o cara for mesmo cinéfilo, vai perceber em poucos segundos que se trata de uma produção do chinês Wong Kar-Wai. O jogo de cores – vibrantes, cintilantes, explosivas – e os extravagantes posicionamentos de câmera funcionam como uma assinatura inconfundível. E a história podre de romântica, que focaliza dois personagens metidos em circunstâncias que os impedem de se amar livremente, também tem tudo a ver com o universo lânguido e sensual do cineasta.

Embora tenha sido recebido com certa frieza pela crítica internacional (“Um Beijo Roubado” abriu o Festival de Cannes em 2007, não ganhou prêmios e seguiu em carreira discreta pelos cinemas de todo o mundo), o longa-metragem merece ser considerado um legítimo filme de Wong Kar-Wai. Além disso, representa muito bem a primeira aventura dele dentro da indústria cinematográfica norte-americana, já que insere o tema predileto do chinês – o amor impossível, quando situações existenciais e/ou sociais que atrapalham o desenvolvimento de paixões latentes – dentro de uma paisagem e de um gênero fílmico típicos dos Estados Unidos. “Um Beijo Roubado” é um road movie, cuja ação dramática corta os EUA de leste a oeste e se desenvolve basicamente dentro de bares. Como se sabe, os bares são o ponto de encontro mais comum na cultura americana.

Os dois personagens principais são Jeremy (Jude Law) e Elizabeth (Norah Jones, cantora de jazz que estréia como atriz). Ele é um inglês de espírito aventureiro que se encontra preso, graças a uma desilusão amorosa, atrás do balcão de um bar em Nova York. Ela também sofre as dores de um abandono. Os dois se conhecem durante algumas madrugadas de coração partida na grande metrópole, em meio a tortas de mirtilo (fruta parecida com framboesa). A narrativa assume o ponto de vista de Elizabeth, quando ela decide que precisa cair no mundo para superar a dor da perda. Fazendo bicos como garçonete, a garota cruza os EUA enviando cartões postais ao barman, que se descobre apaixonado após a partida dela. Durante a viagem, Elizabeth trava contato com diversos personagens que vivem, cada um a seu modo, diferentes tipos de perda.

Wong Kar-Wai não hesitou em mergulhar fundo na cultura norte-americana, e isso produziu dois efeitos perceptíveis ao espectador atento. O primeiro é o esforço nítido para compreender símbolos culturais fundamentais dos valores daquele país – a torta de mirtilo, as noites insones no balcão do bar, os jogos de azar, a estrada como forma melancólica de superar as dores do passado. Kar-Wai parece meio desajeitado ao tentar acomodar todos esses valores dentro de um esqueleto narrativo que lhe é muito caro. Os cenários escolhidos, porém, ajudam a que essas duas camadas distintas acabem se acomodando uma à outra. O caráter boêmio e noturno das locações, por exemplo, faz a aparência do longa-metragem parecer adequada à história, e não um mero capricho estético do diretor.

Bares e cassinos, afinal, estão repletos de luzes multicoloridas e superfícies espelhadas (vitrines, janelas, copos e garrafas), e permitem a Kar-Wai filmar a maioria das cenas com o tipo de iluminação artificial e multicolorida que sempre caracterizou seu trabalho. Repare, também, como a câmera é insistentemente colocada em posições voyeur, como se filtrasse o olhar de alguém que espreita os personagens a certa distância, quase sempre os observando através de superfícies de vidro, como vitrines e janelas. Isso era algo que já existia em filmes como “Amor à Flor da Pele” (2000). É curioso perceber, aliás, que a fotografia belíssima não é assinada por Christopher Boyle, que vinha trabalhando com Kar-Wai há décadas, e sim pelo iraniano Darius Khondji (“Clube da Luta”), outro craque da luz.

A atmosfera boêmia e romântica é garantida pela trilha sonora de Ry Cooder, que substitui com o mesmo grau de sensualidade os boleros e tangos característicos da obra pregressa do diretor – grandes sucessos do jazz e do folk ganham, aqui, versões transbordando de vontade de beijar. Por outro lado, é verdade que o tamanho do romantismo seja apequenado pelo caráter excessivamente didático dos esquetes que envolvem os personagens secundários, cada um ensinando uma lição de vida importante à protagonista. Parte do êxito de filmes como “Felizes Juntos” (1997) tinha origem justamente no caráter aberto e ambíguo dos personagens, que jamais abriam a boca para tentar racionalizar o aperto no coração que sentiam. Essa atitude abria espaço para que o espectador projetasse no filme as suas próprias dores, o que gerava mais empatia entre filme e público. Mesmo assim, “Um Beijo Roubado” é uma experiência bonita, e certamente recomendável para quem ainda acredita que o amor é possível.

O DVD simples, da Europa Filmes, não tem nenhum extra, mas respeita o enquadramento original (widescreen anamórfico) e possui áudio de boa qualidade (Dolby Digital 5.1).

– Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights, EUA/Hong Kong, 2007)
Direção: Wong Kar-Wai
Elenco: Norah Jones, Jude Law, Natalie Portman, David Strathairn, Rachel Weisz
Duração: 111 minutos

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