Beijos Proibidos

29/08/2007 | Categoria: Críticas

Com delicadeza e humor, Truffaut retoma o personagem Antoine Doinel e filma a beleza do cotidiano

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A última cena de “Os Incompreendidos” (1959), estréia em longa-metragem de François Truffaut, é considerada um dos finais mais memoráveis do cinema. A imagem congelada de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) de frente para o mar congela no espectador uma pergunta rara e crucial: qual será o futuro daquele adolescente inteligente e carismático? O que andará fazendo quando chegar à idade adulta? A resposta a essa questão, ainda bem, não ficou restrita à cabeça do criador de Doinel. Por diversas razões – artísticas, comerciais e afetivas – o diretor francês decidiu acompanhar a trajetória do personagem, em diversas fases da vida, e dedicou a ele outros quatro filmes, mostrando diversas passagens de sua vida adulta.

“Beijos Proibidos” (Baisers Volés, França, 1968) é o terceiro título a trazer Doinel como protagonista. Alguns anos antes, em 1962, Truffaut já havia ressuscitado o órfão em um curta-metragem, “Antoine e Colette”. A história integrava um projeto coletivo que o francês levara a cabo, com mais quatro diretores, e narrava a primeira paixão não-correspondida de Doinel, ainda um adolescente, durante 30 deliciosos minutos. Utilizando a mesma atmosfera doce, leve, um bocadinho melancólica, “Beijos Proibidos” dá um passo adiante e mostra o personagem já adulto. Agora, os problemas que ele enfrenta são outros: indefinição profissional, envolvimentos afetivos e sexuais.

É um filme bem diferente, em tom, de “Os Incompreendidos”, mesmo considerado a tendência natural de Truffaut para narrativas que valorizem a poesia do cotidiano, cheias de frescor, sem qualquer tipo de rancor, raiva ou amargura. Todo mundo sabe que Antoine Doinel era o alter-ego do cineasta, pois fora inspirado na própria infância dele, repleta de detenções e falta de amor paterno. As dificuldades da infância, porém, não fizeram de Truffaut uma pessoa ressentida ou rancorosa. Pelo contrário. Ele era um homem carinhoso, alto astral, 100% positivo. Uma pessoa apaixonada pela vida, pelas mulheres, pela poesia, pela boa comida. Os filmes que fez refletem exatamente o tipo de pessoa que ele foi. É por isso que “Beijos Proibidos” é tão bom: porque emana o tipo de carinho e amor pelos personagens que somente os grandes criadores têm.

“Beijos Proibidos” não tem uma história propriamente dita. Não tenta psicologizar o personagem, não extrai lições de moral das ações dele, não o usa para debater questões sociais. Truffaut simplesmente dirige à câmera para Doinel e acompanha sua vida, com humor e delicadeza. Amante de literatura, o rapaz é libertário e descontraído como o filme – um horror para gente pragmática. Doinel não pensa no dia do amanhã e desfruta cada instante. Viver, para ele, é estar perto de belas mulheres e poder ter um cantinho onde possa ler e escrever sossegado. O filme o acompanha em uma desastrada série de empregos (soldado, porteiro de hotel, detetive particular) e o mostra construindo os primeiros relacionamentos afetivos, com uma namorada adolescente (Claude Jade, linda) e com a mulher do chefe (Delphine Seyrig).

A narrativa flui com simplicidade e frescor, características que podem dar a um espectador menos atento a falsa impressão de superficialidade ou banalidade. Nada mais falso. O que realmente importa, aqui, é a entrega de Truffaut para com os personagens, a poesia do cotidiano, a beleza do estar vivo, a narrativa solta que entrecruza várias histórias triviais. Há belas cenas, como aquela que mostra uma carta percorrendo o exótico sistema de correio expresso de Paris (o sistema, já extinto, permitia que uma carta fosse entregue em qualquer lugar da cidade no mesmo dia), e pelo menos uma história brilhante, a que focaliza o romance de Doinel com a esposa do chefe. Este conto, em particular, capturar maravilhosamente o tema do filme: a beleza do transitório, a necessidade de viver cada momento. Doinel é assim. O filme também.

O DVD da Versátil possui qualidade de imagem (widescreen 1.78:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0) muito boa, já que o filme passou por um processo de restauração efetivado pela firma francesa MK2. Os extras é que são poucos – apenas os um trailer de cada longa-metragem com o personagem Antoine Doinel.

– Beijos Proibidos (Baisers Volés, França, 1968)
Direção: François Truffaut
Elenco: Jean-Pierre Léaud, Claude Jade, Delphine Seyrig, Michael Lonsdale
Duração: 90 minutos

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