Beira da Loucura, À

12/04/2007 | Categoria: Críticas

Filme obscuro de John Carpenter tem várias camadas de significados e merece ser redescoberto

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Embora não costume receber muita atenção do público ou mesmo da imprensa especializada mainstream, John Carpenter tem um séqüito fiel de seguidores entre os críticos de cinema. São acadêmicos e estudiosos que procuram ver além das aparências. Neste caso, este esforço por olhar nas entrelinhas é fundamental para perceber as características mais importantes do cinema praticado pelo diretor. Afinal de contas, as tramas que ele cria têm mesmo uma aparência simplista e unidimensional. Quando se procura refletir sobre elas, porém, há sempre algo maior por trás. É assim com “À Beira da Loucura” (In the Mouth of Madness, EUA, 1995).

Talvez o longa-metragem seja responsável pelo declínio ocorrido na carreira do cineasta desde os anos 1990. Era um projeto ambicioso e, para os padrões do gênero, caro – o orçamento beirou os US$ 14 milhões, cifra razoável para a época. Foi fracasso de crítica e público, fato que determinou uma carreira internacional tímida para o filme (no Brasil, sequer foi exibido nos cinemas, sendo jogado diretamente nas locadoras). Mesmo entre os seguidores, “À Beira da Loucura” não desfruta de grande prestígio. Mas é um filme que certamente merece ser redescoberto, porque são raros os títulos de horror que possuem tantas camadas de significado, umas interferindo nas outras.

Antes de destrinchar estes significados, contudo, pode ser valioso examinar rapidamente a trama. O personagem principal é, à moda dos filmes noir, um detetive particular: John Trent (Sam Neill). Ele é contratado por uma companhia editora de livros para encontrar uma pessoa desaparecida. Não uma pessoa qualquer, mas Sutter Cane (Jürgen Prochnow), o escritor mais vendido do planeta. Pouco antes de terminar de escrever o novo e muito aguardado livro, Cane sumiu misteriosamente. E a única pessoa que poderia lhe encontrar – seu agente literário – arrumou um machado e saiu matando gente pelas ruas. A tarefa de Trent, portanto, é maior do que simplesmente achar Cane. Ele precisa recuperar os originais do livro.

Carpenter usa a investigação de Trent, um sujeito extremamente prático, para fazer uma dupla meditação. Em uma primeira camada, o filme é uma brincadeira metalingüística, sangrenta e bem-humorada, com a popularidade esmagadora de alguns autores de romances populares, em especial Stephen King (observe que a pronúncia do nome do autor fictício, em inglês, é idêntica ao nome do escritor de carne e osso). Alguns dos diálogos mais interessantes tiram sarro desta situação (“Cane é o autor mais lido do século, esqueça Stephen King!”). Nesta camada, o filme é satisfatório, embora nunca pareça realmente inovador.

“À Beira da Loucura” cresce quando refletimos sobre um segundo plano de significados, mais profundo: a crescente confusão entre realidade e ficção que John Trent testemunha, à medida que aprofunda a investigação. Aos poucos, o detetive passa a desconfiar que esteja vivendo no universo ficcional criado pelo autor, e não mais na nossa realidade de carne e osso. O tema da confusão real/imaginário é apontado por muitos teóricos pós-modernistas (Jean Baudrillard, Fredric Jameson) como uma conseqüência da era de imagens eletrônicas em que vivemos mergulhados. Não seria coincidência, portanto, que tantos filmes contemporâneos (“Matrix”, “eXistenZ”, “Preso na Escuridão”, “Vanilla Sky”) reflitam sobre este tema.

Como se sabe, os artistas – escritores, pintores, cineastas – possuem sensibilidade mais aguçada para as angústias coletivas. O fato de tantos filmes estarem abordando o mesmo tema, sempre com o mesmo sentimento ambivalente de angústia e fascínio, talvez reflita a perda do referencial de realidade de que Jameson e Baudrillard tanto nos advertem. “À Beira da Loucura” provavelmente é o menos falado de todas as peças cinematográficas que abordam o assunto, mas o faz com solidez e autoridade. Pois é: por trás do sangue falso e das faces monstruosas de John Carpenter existe conteúdo filosófico.

No Brasil, o filme saiu apenas em VHS. O DVD importante dos EUA, da New Line, é simples e conta com um comentário em áudio de John Carpenter. A qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) é boa.

– À Beira da Loucura (In the Mouth of Madness, EUA, 1995)
Direção: John Carpenter
Elenco: Sam Neill, Jürgen Prochnow, Julie Carmen, Charlton Heston
Duração: 95 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


5 comentários
Comente! »