Bela Adormecida, A

29/12/2008 | Categoria: Críticas

Arrojo da animação do longa que quase afundou a Disney em 1959 recuperou-o ao longo dos anos e ainda enche os olhos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Uma das razões para a fama de pioneiro que o produtor Walt Disney sempre carregou vem do fato que ele nunca mediu esforços – nem dinheiro – para tentar elevar o nível das animações em longa-metragem para patamares cada vez mais altos. Foi assim desde o primogênito “Branca de Neve e os Sete Anões” (1937). Operando sempre com somas assustadoras para produtores de filmes, Disney vivia à beira da bancarrota. Talvez seu momento mais difícil tenha ocorrido em 1959, quando o lançamento de “A Bela Adormecida” (Sleeping Beauty, EUA, 1959) recuperou apenas metade da grana investida. Por causa do filme, Disney passou toda a década de 1960 em maus lençóis financeiros.

É importante ressaltar que “A Bela Adormecida” era uma animação extremamente ambiciosa para o estúdio. Tão ambiciosa que, somando todos os estágios da produção, a equipe criativa que fez o filme levou nada menos que oito anos (de 1951 a 1959) para concluí-lo. Apenas para se ter uma idéia, o roteiro foi finalizado e decupado (dividido em planos) detalhadamente em 1951. Cada plano foi filmado com atores de verdade, a fim de que as imagens servissem de referência visual para os animadores. As vozes originais dos atores foram gravadas em 1952. Achou pouco? Pois saiba que a equipe de desenhistas trabalhou por cinco anos sem parar (1953 a 1958), e toda a música foi gravada em 1957, dois anos antes da estréia oficial.

Toda essa extravagância custou US$ 6 milhões, uma fortuna para os padrões de Hollywood naquela época. Disney recorreu a empréstimos para poder concluir o filme. No ano do lançamento, mesmo tendo registrado a segunda maior bilheteria dentro do território norte-americano, o filme havia recuperado somente metade do dinheiro investido. Walt ficou sem ter como pagar os empréstimos. E decidiu que jamais faria uma extravagância daquele tamanho, passando a investir em parques temáticos e programas de TV. A estratégia deu grana, sem dúvida, mas a empresa levaria décadas para produzir filmes tão influentes.

Pior que o fracasso relativo de “A Bela Adormecida” não foi apenas de público. A crítica da época, que já não costumava ser muito benevolente com animações infantis, acusou a produção de ter ritmo excessivamente lento e não desenvolver os personagens com a profundidade necessária. Aliás, é irônico que justamente essas características tenham sido apontadas como negativas pelos críticos dos anos 1950. De todas as animações Disney daquele período, “A Bela Adormecida” é uma das que sobrevive melhor ao teste do tempo, por duas razões diretamente conectadas à questão da lentidão: 1) tem poucos números musicais, muito populares então; e 2) desenvolve a história sem pressa, de forma que a maldição que atinge a princesa Aurora, principal personagem do longa, só se concretiza no final do segundo ato. Além disso, não abre espaço para subtramas com personagens engraçadinhos ou animais falantes.

Ademais, é imprescindível apontar a evolução tecnológica alcançada pela equipe Disney. O filme foi lançado durante a fase em que o cinema temia a concorrência da televisão, e os estúdios tentavam a todo custo demarcar as diferenças entre as mídias. Por isso, “A Bela Adormecida” foi produzido em um aspecto de imagem extremamente horizontal (2.55:1) e ganhou uma ousada trilha sonora em seis canais, para reprodução em cinemas equipados com tecnologia especial de projeção (esses seis canais, na verdade, eram resultado de uma complexa combinação técnica dos dois canais estéreos comuns, mas davam mesmo a impressão de espacialidade tridimensional dentro das salas). Por causa da exibição em cinemas com telas gigantes, os animadores também foram autorizados a produzir cenários com nível de detalhes inédito.

As inovações deixam claro que “A Bela Adormecida” é, pelo menos no aspecto técnico, um filme muito à frente do seu tempo – e isso fica claro quando se observa o culto crescente à película a partir dos anos 1970. Desde então, o filme ganhou muitos admiradores e influenciou inúmeras animações de ponta (preste atenção e verá como o sombrio visual da bruxa, com um manto que lembra os chifres de um demônio, inspirou o Vingador, vilão do cultuado seriado “Caverna do Dragão”). Não se trata de uma obra-prima, porque de fato o roteiro se ressente de maior equilíbrio – o trecho em que a princesa vive escondida com as três fadinhas coloridas na floresta é muito longo e um tanto enfadonho, chegando mesmo a copiar deslavadamente a clássica cena do dueto com os passarinhos de “Branca de Neve” – mas está à altura dos grandes filmes produzidos pelo maior pioneiro da história da animação em Hollywood.

A melhor versão disponível em DVD é dupla e saiu no final de 2008. Trata-se da primeira versão em que o enquadramento correto (widescreen 2.55:1 anamórfico) foi respeitado integralmente. As imagens também sofreram um processo de restauração digital, assim como a trilha sonora original (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem quatro jogos interativos e três documentários, cheios de ótimos depoimentos, bem editados e com muitas imagens de arquivo (incluindo cenas raras dos atores que “interpretaram” os personagens). Há ainda três trailers e galerias gigantescas com mais de 500 desenhos de produção.

- A Bela Adormecida (Sleeping Beauty, EUA, 1959)
Direção: Clyde Geronimi, Les Clark, Eric Larson, Wolfgang Reitherman
Animação
Duração: 75 minutos

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