Beleza Americana

25/10/2004 | Categoria: Críticas

Pouco falado depois do Oscar, filme de Sam Mendes é obra correta sobre a vida nos EUA

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Poucos filmes passaram por um processo de amadurecimento, diante da audiência, tão rápido e radical quanto “Beleza Americana” (American Beauty, EUA, 1999). Ganhador do Oscar de 2000, elogiado de forma quase unânime durante o lançamento nos cinemas, o longa-metragem de estréia do cineasta Sam Mendes flutuou rapidamente rumo ao esquecimento, no imaginário popular. A própria crítica, que recebeu a película praticamente de joelhos, não mostrou o mesmo entusiasmo, quando o filme foi lançado em DVD. A pergunta que não quer calar, portanto, é simples: por que tal fenômeno aconteceu?

Não é fácil encontrar uma resposta para mistérios assim. Talvez o lugar de desprezo a que o filme foi relegado tenha alguma relação com a ótima safra de Hollywood em 1999 (para citar alguns, o injustiçado “O Informante”, os suspenses “O Sexto Sentido” e “A Bruxa de Blair”, além de um longa-metragem parecido com – e superior a – “Beleza Americana, o ótimo “Magnólia”, de Paulo Thomas Anderson). Talvez a reação negativa tenha algo a ver com o retrato ácido que o filme faz, explicitamente, da classe média norte-americana. É impossível saber exatamente o que ocorreu.

As coisas são assim mesmo. O tempo costuma colocar as coisas nos seus devidos lugares. Filmes considerados obras-primas são esquecidos dentro de alguns anos. Outros, recebidos com frieza, acabam adquirindo valor depois de um punhado de verões. Na maioria das vezes, esse processo é muito justo; lembre-se, para citar apenas um exemplo, do que ocorreu com “Laranja Mecânica”, a espetacular visão onírica de Stanley Kubrick que praticamente anteviu a revolução punk. “Laranja Mecânica” foi criticado e levou bomba no Oscar para um filme policial competente, mas convencional: “Operação França”. Anos depois, qual desses filmes sobreviveu à posteridade?

“Beleza Americana” é um caso pouco comum porque, afinal de contas, está muito longe de ser um filme medíocre. Sam Mendes foi feliz na estréia cinematográfica. Fez um filme cercado de cuidados, com fotografia corretíssima, bons atores (Kevin Spacey realmente faz um trabalho fantástico na pele do protagonista, Lester Burnham) e narrativa fime. A estrela de “Beleza Americana”, no entanto, é o roteiro de Alan Ball. O texto observa, de dentro e meticulosamente, uma família norte-americana padrão de classe média.

O casamento é uma pequena fraude. Lester (Spacey) é um publicitário medíocre que não consegue se comunicar com a filha. Caroline (Bening), vendedora e frígida, está à beira de um colapso nervoso. Jane (Thora Birch), a menina, esconde sua fragilidade atrás de maquiagem pesada. A aparência da família, no entanto, é de saudável jovialidade. Pura mentira, que fica mais evidente quando vemos o desarranjo ambulante que é a família ao lado: um militar durão, sua mulher apoplética e o filho voyeur. Duas famílias em simetria.

Uma adolescente loira, Angela Hayes (Mena Suvari), aparece para romper o delicado equilíbrio desse povo todo. Ela pira a cabeça de Lester e, por efeito dominó, joga a vida de todo mundo de cabeça para baixo.

Pode-se argumentar que os personagens de “Beleza Americana” são rasos. Não é verdade, embora não cheguem à complexidade dos seus pares de “Magnólia”. Também é possível dizer que o filme é pesado demais; tampouco isso é verdade, pois há muito humor no texto de Alan Ball. Mas há seqüências que se destacam demais e isso compromete o equilíbrio do filme (a dança do saco de lixo). Mesmo assim, “Beleza Americana” ainda é bom cinema.

Pessoalmente, comparo “Beleza Americana” a um bom disco do Kiss. O grupo de mascarados que fazia sucesso nos anos 1970/80 jamais foi uma banda realmente excepcional, mas sempre teve uma virtude inegável: poder de sedução. O Kiss introduziu toda uma geração ao rock’n’roll. Gente que, depois, teve interesse de ir fundo na pesquisa para tomar contato com os biscoitos finos do estilo (Rolling Stones, AC/DC e co-irmãos).

Da mesma forma, o filme de Sam Mendes pode não ser uma obra-prima, mas atiça a vontade da platéia de conhecer bons filmes sobre a vida. Muita gente que eu conheço se interessou por cinema vendo “Beleza Americana”. Gente que acabou, depois de uma porção de filmes, virando fã de Krzysztof Kieslowski, Michelangelo Antonioni e todos esses gênios da Sétima Arte que conhecemos bem. É ou não é uma virtude?

Em DVD, “Beleza Americana” possui um documentário curto (pouco mais de 20 minutos) e eficiente sobre os bastidores. Som Dolby Digital 5.1 e corte original de imagens (widescreen) completam o pacote.

– Beleza Americana (American Beauty, EUA, 1999)
Direção: Sam Mendes
Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Chris Cooper, Thora Birch
Duração: 122 minutos

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