Bem-vindo à Casa de Bonecas

16/06/2010 | Categoria: Críticas

Todd Solondz grita contra o isolamento social e descortina hipocrisia da família norte-americana

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Depois de assistir a “Bem-vindo à Casa de Bonecas” (Welcome to the Dollhouse, EUA, 1995) e dar uma boa olhada numa foto do seu diretor, Todd Solondz, é inevitável pensar no quanto o filme contém de autobiográfico. Trata-se, afinal, de um retrato demolidor da família típica norte-americana, centrada no figura de uma pré-adolescente estilo “patinho feio”, que é uma descrição muito apropriada para a figura mirrada de óculos fundo-de-garrafa que é o diretor. Impressiona, sobretudo, a enorme crueldade com que Solondz trata sua personagem principal, expondo sem piedade sua agonia desesperada para ser ouvida por alguém, qualquer pessoa, ainda que para isso precise passar por situações constrangedoras e/ou humilhantes.

Nesse sentido, o relacionamento mais esclarecedor do filme é aquele que une a protagonista Dawn (Heather Matarazzo) e o colega de classe Brandon (Brendan Sexton III). Ambos têm na faixa dos 13 anos e são solenemente desprezados pelos amigos. Brandon, menino cheio de hormônios, decide que a melhor maneira de romper a casca que o separa do resto do mundo é humilhando com violência a única pessoa que conhece a estar situada abaixo dele na escala de desprezo do colégio – e esta pessoa é Dawn. Então, como se despreza alguém aos 13 anos? Com ameaças de surras e estupros.

Ocorre que Dawn, agônica e irascível, está a aponto de explodir de tanta frustração solitária. Ninguém lhe entende, ninguém lhe dá atenção. Dentro da própria família, ela é um zero à esquerda. A irmã mais nova (Daria Kalinina) é a bonita e o irmão mais velho (Matthew Faber), o inteligente; o que lhe resta é o rótulo invisível de “burra e feia”. Os pais lhe ignoram. Ela é uma das piores alunas da turma, se veste mal, tem o rosto cheio de espinhas e está acima do peso, o que significa virar alvo de chacota e piadas constantes dos colegas de colégio e até dos familiares. Dawn está disposta a tudo para arrumar companhia. Talvez até mesmo se deixar ser estuprada. A amizade que surge entre ela e Brandon é tortuosa, mas sincera. É a amizade de duas almas incompreendidas.

“Bem-vindo à Casa de Bonecas” é um retrato cáustico e cruel do isolamento social a que os indivíduos que não se encaixam nos padrões ditos “normais” são submetidos. A partir da virada entre os anos 1980 e 1990, talvez a partir da pequena pérola “Sexo, Mentiras e Videotape” (1998, de Steven Soderbergh), o cinema independente produzido nos EUA revelou uma série de bons cineastas dedicas a desmontar a hipocrisia da família norte-americana, como uma criança faria com um Lego. Terry Zwigoff (“Ghost World”) e Paul Thomas Anderson (“Magnólia”) são alguns desses nomes que filmam o que há por trás da aparência de normalidade das casa de subúrbio em que vivem os perseguidores do “sonho americano”. Solondz é o mais radical deles.

A habilidade deste diretor nascido e criado em Nova Jersey, nos arredores de Nova York, é inquestionável. A narrativa de “Bem-vindo à Casa de Bonecas” é limpa e sem gorduras, o texto é cru e ácido, os diálogos são inteligentes. Filmado em locações reais e com um orçamento menor do que US$ 1 milhão, o segundo longa-metragem do cineasta exala espontaneidade e crueza, transitando numa terra de ninguém entre o cômico e o trágico, de forma que o filme em geral soa melancólico e amargo, mas com um forte cheiro de comédia.

Solondz tem sido muitas vezes questionado e criticado por submeter seus personagens a situações de grande crueldade, sem deixar transparecer, como outros cineastas, nenhum afeto por eles. Gostar ou não desse tipo de abordagem é algo pessoal, mas não há como negar que a voz de Todd Solondz é uma das mais altas a gritar contra a alienação social nos EUA, o que o transforma inevitavelmente em porta-voz dos socialmente isolados. Vindo de um sujeito magrelo e feioso, não é muito difícil imaginar que o filme contém muito da experiência pessoal de Solondz, curiosamente um cineasta que não circula em Hollywood e permanece bastante isolado dos seus pares, como um Dawn do sexo masculino e na idade adulta. Isso é curioso, e certamente põe o diretor numa posição peculiar e interessante. Quem gosta de cinema transgressor deveria dar uma espiada atenta nos filmes dele.

“Bem-vindo à Casa de Bonecas” foi lançado no Brasil em DVD pela Lume Filmes. A edição existente contém apenas o filme (imagem em formato wide anamórfico 16:9 e som em Dolby Digital 2.0).

– Bem-vindo à Casa de Bonecas (Welcome to the Dollhouse, EUA, 1995)
Direção: Todd Solondz
Elenco: Heather Matarazzo, Matthew Faber, Daria Kalinina, Brendan Sexton III
Duração: 89 minutos

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