Ben-Hur

04/10/2005 | Categoria: Críticas

Épico de escala monumental de William Wyler pode soar familiar para fãs de ‘Gladiador’ ou ‘Titanic’

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Cinéfilos novatos têm mesmo memória curta. Se não fosse assim, jamais teriam a pretensão de afirmar que produções de grande escala e enorme sucesso crítico e comercial, como “Gladiador”, “Titanic” ou a trilogia “O Senhor dos Anéis”, estavam inaugurando algum tipo de estilo. Essas três obras evocam, de diferentes maneiras mas de forma inequívoca, o espetáculo cinematográfico de “Ben-Hur” (Ben-Hur, EUA, 1959), a tour de force do diretor William Wyler. “Ben-Hur” talvez seja, dentre tantos longas-metragens megalômanos, aquele que melhor representa a suntuosidade que o público se acostumou a esperar de Hollywood. É uma conjunção rara de dinheiro e talento colocados a serviço de uma história popular.

Se você é o tipo de cinéfilo que ficou impressionado com os números e a escala espantosa da produção de “O Senhor dos Anéis”, precisa conhecer um pouco dos bastidores de “Ben-Hur”. Para a seqüência mais memorável do filme – e uma das mais espetaculares da história dos épicos de longa duração – um enorme set de um quilômetro quadrado foi construído na Itália. Nada menos do que 15 mil figurantes apareceram para compor a gigantesca torcida que assiste à corrida de bigas entre o judeu Judah Ben-Hur (Charlton Heston) e o romano Messala (Stephen Boyd), o clímax do filme de William Wyler.

A escala da produção era tão grande que um bom trecho do mar Mediterrâneo teve que ser pintado de azul, com a ajuda de toneladas de um pó químico especial, para dar à água a tonalidade límpida e clara exigida pelo cineasta para a outra impressionante cena do épico, a batalha naval que firma a amizade entre o protagonista e o aristocrata romano Quintus Arrius (Jack Hawkins). Aqui, “Ben-Hur” lembra “Titanic” (ou seria melhor dizer o contrário?). Entre os três filmes citados, uma marca impressionante: todos conquistaram onze Oscar, o mais número de troféus já alcançados por qualquer filme, na história do prêmio.

Na sua época, “Ben-Hur” recuperou e reafirmou um tipo de longa-metragem que platéias e críticos de todo o mundo sempre elegeram como predileto. São filmes que partem de situações e eventos históricos verdadeiros e os dramatizam, colocando-os como pano de fundo para a trajetória pessoal de personagens fictícios. “E O Vento Levou” havia feito isso antes, “Titanic” fez isso depois. “Gladiador” seguiu a mesma veia e foi mais longe, pois o enredo exibe uma semelhança até constrangedora com o épico de William Wyler.

O caso de “Ben-Hur” é mais curioso porque a história que funciona como pano de fundo é a de Jesus Cristo (a mais famosa de todos os tempos, como dizia o título de um épico anterior). O filme começa com o nascimento do Messias dos católicos, e termina no mesmo dia da crucificação. Mas o nazareno aparece apenas em meia dúzia de cenas, sempre de costas, como mero coadjuvante da história do príncipe Judah Ben-Hur, com quem cruza duas vezes (em momentos antológicos e emocionantes do filme).

Rico comerciante em Jerusalém, Ben-Hur entra em conflito com um velho amigo de infância, o oficial romano Messala, depois que este retorna à cidade após anos servindo em batalhas no estrangeiro. Messala é agora o comandante militar do vilarejo e deseja debelar, pela força, a ameaça de insurreição trazida pelos judeus do lugar. Ben-Hur não aceita trair o próprio povo e cai em desgraça ante o amigo. Preso, acaba virando escravo. Vai retornar a Jerusalém pela via mais difícil, numa trajetória que foi revista por Ridley Scott no seu épico (não seria totalmente errado dizer ‘refilmagem livre’).

O filme tem todos os ingredientes necessários para entrar em qualquer galeria dos grandes épicos do cinema. As duas já citadas seqüências de ação, feitas com o suor de dublês (e um pouco de ‘blue screen’, perceptível hoje em dia mas totalmente convincente), inspiraram muitos dos grandes diretores do cinema de ação contemporâneo. Compare, por exemplo, a corrida de dunas com a famosa cena da prova dos pods em “A Ameaça Fantasma”, e a influência fica até óbvia. Já a batalha das galés tem tudo que “Mestre dos Mares” suou sangue para conseguir em 2003, e mais um pouco.

Como curiosidade, o filme não consegue ser nada sutil ao realçar os elementos homoeróticos no relacionamento entre Ben-Hur e Messala (a cena em que os dois brindam como noivos em um casamento é quase explícita). Em certa medida, a única fragilidade do filme está justamente na hesitante relação estabelecida entre os dois, que é toscamente interrompida em certo momento do filme, quando o protagonista consegue seu inevitável (e insosso) par feminino.

Reza a lenda que Gore Vidal, o famoso escritor gay, foi um dos 40 roteiristas que se revezaram no tratamento do texto do filme. Talvez isso explique tanto o medo de desafiar a rígida moral da época – estávamos em 1959, não esqueça – quanto a pouca complexidade da construção dos demais personagens. Esse é um detalhe, contudo, que não apaga a grandiosidade de um épico fora dos padrões e que merece o respeito de qualquer um que deseje compreender porque filmes de escala monumental, como “Ben-Hur”, sobrevivem por mais tempo na memória dos cinéfilos.

O Brasil tem duas edições do filme em DVD:

1) Disco duplo, com comentário em áudio feito por Charlton Heston, um longo e interessante documentário de 57 minutos sobre a produção e até seqüências de testes (7 minutos) feitos por aspirantes aos papéis principais – preste atenção a um jovem Leslie Nielsen (o comediante grisalho de “Corra que a Polícia Vem Aí”), que quase interpretou Messala no cinema. O filme tem enquadramento widescreen 2.44:1 e som Dolby Digital 5.1 de boa qualidade.

2) A caixa com quatro discos é caprichada. Os discos 1 e 2 trazem o filme, com melhor qualidade de som e imagem (agora no formato 2.50:1, próxima do formato 2.76:1 original). Os comentários de Charlton Heston estão lá, mixados com um comentário do historiador T. Gene Hatcher. A trilha sonora pode ser ouvida isoladamente. O disco 3 traz a versão do filme produzida em 1925 em Hollywood, uma curiosidade bem bacana. E o disco 4 traz dois documentários, um deles produzido em 2005 (o outro é o mesmo que está na edição de dois discos), com 115 minutos ao todo. Há ainda testes de elenco (7 minutos) e uma galeria animada de fotos (5 minutos).

– Ben-Hur (Ben-Hur, EUA, 1959)
Elenco: Challton Heston, Jack Hawkins, Haya Harareet, Stephen Boyd, Hugh Griffith
Direção: William Wyler
Duração: 212 minutos

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