Bendito Fruto

25/01/2006 | Categoria: Críticas

Comédia romântica original e encantadora filma classe média baixa como um documentário suave

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Você lê alguma sinopse cretina sobre “Bendito Fruto” (Brasil, 2005) e faz uma careta, pois imagina que comédia romântica fazendo crônica da vida no Rio de Janeiro é pretexto para mostrar, pela enésima vez, cartões postais devidamente maquiados da realidade carioca para gringo ver. Aí você vai ao cinema, mais por dever cívico de prestigiar o cinema nacional do que por prazer, e descobre que está diante de uma comédia romântica original e encantadora, que reúne no mesmo saco temas pesados como racismo, violência urbana, trabalho infantil e homossexualismo, mas aborda-os de forma suave, amarrados em uma trama firme e cheia de qualidades. Ou seja, artigo raro no cinema nacional. Que maravilha é poder ser surpreendido, vez ou outra, por um filme inesperado falado em português.

Na verdade, um nome vem à mente como um soco quando os primeiros minutos de projeção começam a rolar: Eduardo Coutinho. Grande mestre do documentário nacional, o estilo de Coutinho está impresso em cada fotograma de “Bendito Fruto”, um filme que narra a história de duas pessoas de classe média baixa, que poderiam fazer parte da maravilhosa galeria de personagens do primoroso “Edifício Master”. Mas quem diabos é esse tal de Sérgio Goldemberg, diretor do filme? Uma pesquisa rápida revela que é formado em cinema pela Universidade Federal Fluminense, trabalha na Rede Globo como roteirista (“Brasil Legal”) e foi assistente de direção durante cinco anos de… Eduardo Coutinho. Ah, bom! Está explicada a semelhança.

“Bendito Fruto” nasceu de um recorte de jornal. Certo dia de 2000, o diretor leu no jornal uma notinha falando sobre a explosão de um bueiro numa rua do bairro de Botafogo. A tampa do bueiro, 130 quilos de ferro, caiu em cima de um táxi. O incidente serve no filme de ponto de partida para a ficção, promovendo um inesperado encontro de dois antigos amigos de colégio, Edgar (Otávio Augusto) e Virgínia (Vera Holtz), que não se viam há anos. Edgar é cabeleireiro, tem um pequeno salão e é solteiro. Virgínia está viúva e fica interessada no ato.

O problema é que existe um empecilho, o centro emocional do filme, um vulcão de energia chamado Maria (Zezeh Barbosa). Na aparência ela é empregada de Edgar, e tem até um modesto quartinho com umas coisas no apartamento apertado do mulherengo cortador de cabelos. De fato, Maria é mulher de Edgar há muitos anos, embora ele não tenha coragem de assumir a relação. A chegada de Virgínia promete mudar tudo – para melhor ou para pior, dependendo do ponto de vista – e detona uma tremenda confusão envolvendo uma galeria impagável de personagens suburbanos, incluindo um DJ brasileiro que mora na Espanha (Evandro Machado), um ator de novelas (Eduardo Moscovis) e duas manicures, a balzaca Telma (Lúcia Alves) e a espevitada Chiquita (Camila Pitanga).

A conjunção de talentos é completa em “Bendito Fruto”. Da homogênea e fantástica atuação do elenco afinado (desde “Cidade de Deus” não se via algo parecido no cinema nacional) até a fotografia naturalista de Antônio Luiz Mendes, tudo contribui para criar um filme com cara de Brasil, desde a luz esfuziante que bate nas frutas expostas no balcão da lanchonete no Botafogo até o labirinto geográfico que faz um burguês se perder dentro de um favela. Melhor ainda: “Bendito Fruto” prova que temas socialmente fortes podem ter no cinema uma abordagem leve, cômica até, sem que se perca um milímetro sequer de de denúncia social.

De certa forma, “Bendito Fruto” faz um contraponto interessante a longas como “Amarelo Manga”, que observa a mesma realidade – e tenta fazer a crônica dos mesmos personagens – com amargor e denuncismo. Ou seja, substitua o tom negativo que domina o filme de Cláudio Assis por um astral suave e para cima, sem no entanto recorrer àquele velho clichê do carioca tranqüilão que conhecemos muito bem. “Bendito Fruto” evita muito bem esses clichês.

Além disso, aqui não existe aquele tom teatral que domina a maior parte dos diálogos de produções brasileiras, e os atores falam como se fossem personagens de carne e osso. A estética é toda muito simples, sem movimentos elaborados de câmera, tratamento de cor ou qualquer tipo de rebuscamento estético; o efeito geral é de documentário mesmo, o que reforça a cara de Eduardo Coutinho do longa-metragem.

Na sua resenha sobre “Bendito Fruto”, o crítico Kléber Mendonça Filho fez uma observação que merece comentário. Ele diz este é o tipo de longa-metragem que tem “cheiro de Brasil” e poderia servir de referência para a construção de uma indústria nacional cinermatográfica, ao invés da produção estéril e brega que vem dominando as bilheterias, de coisas como “Sexo, Amor e Traição”. Ele tem 100% de razão. “Bendito Fruto” tem potencial comercial e qualidade cinematográfica, duas coisas que não costumam andar juntas no cinema, muito menos no Brasil. E isso não é pouca coisa.

Filme pobre, DVD pobre. O disco é um lançamento da LK-Tel. Mantém o filme com enquadramento original (letterbox), tem áudio em formato Dolby Digital 2.0 e, como extra, apenas um pequeno making of.

– Bendito Fruto (Brasil, 2005)
Direção: Sérgio Goldemberg
Elenco: Otávio Augusto, Zezeh Barbosa, Vera Holtz, Lúcia Alves
Duração: 90 minutos

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