Bicicletas de Belleville, As

22/03/2005 | Categoria: Críticas

Animação francesa usa tons pastéis e belos desenhos para criar universo bizarro de toques surrealistas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Uma animação francesa sem diálogos. A descrição básica de “As Bicicletas de Belleville” (Les Triplettes de Belleville, França/Canadá/Bélgica, 2003) pode até não parecer interessante, mas não se deixe enganar por preconceitos. O filme de estréia do francês Sylvain Chomet é lúdico, belo e inteligente. É cinema de primeira qualidade, com uma animação que parece saída das mãos de algum pintor europeu do século XIX que, de quebra, bolou um roteiro carinhoso, anárquico e brilhante.

Para começar, a película passa longe do padrão de qualidade das produções norte-americanas. Ao invés do visual colorido, limpo e realista das animações que Hollywood vem produzindo ultimamente (e isso inclui desde “O Rei Leão” até “Procurando Nemo”, dois ótimos exemplos de exercício cinematográfico no campo do desenho animado), “As Bicicletas de Belleville” opta por um visual estilizado, quase surrealista. Isso resulta em seres e paisagens caricaturais, construídos em tons pastéis (de dia) e com jogo perfeito de luz e sombras (à noite). A proposta combina perfeitamente com o tom onírico da narrativa (aliás, se quiser ter uma idéia do visual do filme, visite o site oficial, muito bacana – veja o link abaixo).

O filme transporta para a tela uma perfeita faceta do imaginário francês, incluindo a visão que os habitantes do país europeu têm dos norte-americanos, vistos no filme como homens invariavelmente gordos, que vivem comendo hambúrguer e apostado em jogos de azar (preste atenção na Estátua da Liberdade!). A visão de Chomet, porém, é crítica e sem um pingo de auto-complacência; os franceses são narigudos e um tantinho pernósticos. O filme estabelece um universo carinhoso e nostálgico, inclusive na ambientação – a época não é revelada claramente, mas as próprias imagens de TV preto-e-brancas que abrem o filme, com um trio de cantoras realizando uma coreografia hilariante, situam a película nos anos 1950. Roupas, canções e automóveis apenas confirmam a impressão.

Os personagens são outro charme do filme. “As Bicicletas de Belleville” gira em torno de Madame Souza, uma baixinha gorducha e manca que cria um menino tristonho e de olhos fundos, Champion. O garoto é tão apaixonado por bicicletas que a velhota (mãe? tia? avó?) logo lhe compra uma. Alguns anos depois, vemos Champion (agora um ciclista magérrimo com panturrilhas que parecem nádegas e um nariz que emenda com a testa) treinando arduamente para participar da Volta da França, a mais famosa corrida de bicicletas. Durante a prova, ele e mais dois colegas ciclistas são raptados por misteriosos homens vestidos de preto, que o embarcam num navio e rumam para os EUA. Seguindo as pistas e com a ajuda do engraçadíssimo Bruno, um cachorro esquizofrênico de olfato apurado, Madame Souza vai atrás. De pedalinho!

Dita assim, em poucas palavras, a trama parece um tanto convencional e sem graça, mas passa longe, muito longe disso. Desde os primeiros minutos de projeção, percebe-se que a noção de comédia de Chomet é muito peculiar, chegando à beira do surreal mesmo – em alguns momentos, até lembra os esquetes saudosos do Monty Python. Em seqüências como os sonhos tresloucados do cão Bruno e, particularmente, depois que a ação principal passa a acontecer em território americano, o filme comunica uma atmosfera onírica que parece ter uma saudável influência do universo montado pelo diretor Jean-Pierre Jeunet, em filmes como “Ladrão de Sonhos”. Uma espécie de pesadelo hilariante, se é que isso é possível.

Utilizando gags que remetem ao saudoso cômico francês Jacques Tati (há uma cena em particular envolvendo uma bicicleta e uma ponte que é retirada diretamente do filme “As Férias de Monsieur Hulot”, cujo pôster inclusive aparece na parede de uma casa) e um senso de humor tão refinado quanto bizarro, “As Bicicletas de Belleville” chegou a disputar o Oscar de Melhor Animação em 2004. Não ganhou, mas mostrou ao mundo que os EUA não são mais soberanos no terrotório da animação. Aliás, a qualidade da animação em si, feita com ajuda de computadores mas criando a ilusão de desenho animado manual, é nada menos do que espetacular, como mostra a incrível seqüência da tempestade em alto mar. Um pequeno clássico desconhecido.

A desconhecida distribuidora Casablanca fez um ótimo trabalho lançando o filme em DVD no Brasil. As imagens, em ótima resolução, aparecem no formato original widescreen; o áudio está em uma trilha forte e clara em Dolby Digital 5.1. Como extras, você tem um trailer e um pequeno documentário (16 minutos), com Chomet e técnicos explicando detalhes de algumas cenas de maior destaque. Ótimo disco.

– As Bicicletas de Belleville (Les Triplettes de Belleville, França/Canadá/Bélgica, 2003)
Direção: Sylvain Chomet
Duração: 82 minutos

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