Black Sabbath – As Três Máscaras do Terror

14/08/2005 | Categoria: Críticas

Filme reúne três contos de 30 minutos do lendário cineasta italiano Mario Bava

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Escondida sob uma capa horrível que sugere uma reunião de bruxas de olhos arregalados, a boa coletânea de contos de horror “Black Sabbath – As Três Máscaras do Terror” (Black Sabbath / I Tre Volti de La Paura, Itália/França/EUA, 1963) pode ser encontrada em lojas e locadoras brasileiras. Capas de fitas e discos, como a gente sabe, podem tanto atrair como repelir as pessoas, especialmente quando nada se sabe sobre o conteúdo. Este é um caso em que cinéfilos podem passar batidos diante de uma obra que é bem interessante, uma representante legítima do melhor horror B italiano.

“Black Sabbath” é uma reunião de três histórias dirigidas pelo competente Mario Bava, pioneiro do estilo que depois consagraria nomes como Dario Argento e Lucio Fulci. É um filme curto, com três contos narrados em aproximadamente 30 minutos cada. O título original italiano (no Brasil é o subtítulo, em tradução vulgar e nada literal) explica a intenção de Bava, que era filmar um exemplo de cada tipo de “filme de medo” que ele considerava eficiente.

O diretor adaptou contos de três grandes autores da literatura: Tolstoi, Chekhov e Guy de Maupassant. Fez isso caprichando nos elementos reconhecíveis como suas marcas registradas, como o uso de cores fortes, os movimentos de câmera originais (com abundante uso do zoom) e a iluminação quase expressionista. Um bom exemplo do estilo de Bava é a terceira história, em que uma luz azulada permanece acendendo e apagando do lado de fora da casa onde está a protagonista, mergulhando o cômodo em um clima onírico. O recurso não é muito realista, mas funciona bem no sentido de sugerir à audiência a atmosfera que o cineasta deseja.

Na montagem italiana original, “O Telefone” é a primeira história. Ela se passa em um único cenário, um apartamento, onde uma prostituta começa a receber telefonemas aterrorizantes de um homem. O agressor parece estar em algum lugar de onde consegue ver o interior do apartamento, e promete matá-la. Bava faz um ótimo trabalho, caprichando no clima tenso e nos efeitos de iluminação (repare como o quarto fica mais escuro ou mais claro, de acordo com a atmosfera que o diretor deseja reproduzir, com a personagem acendendo ou apagando um abajur). Ousado para a época, o conto faz forte sugestão de homossexualismo feminino, e tem cenas de nudez parcial, algo que seria marca registrada do horror italiano produzido na década de 1970.

A segunda história é “O Wurdulak”. Considerada pelos fãs a melhor das três histórias, é também a mais longa e de produção mais cara. Nela, uma família de camponeses russos esperam o retorno do patriarca do clã, em viagem para tentar matar um vampiro. A participação de Boris Karloff é um trunfo do conto, e a atmosfera sinistra garante bons sustos. O melhor, de novo, é o trabalho de iluminação, que sugere uma sensação de crepúsculo interminável. Os cenários externos são bem decrépitos e há um momento forte, que alguns interpretam como sugestão de pedofilia, entre o avô e um neto.

O filme termina com “A Gota d’Água”, conto sobre uma enfermeira contratada para vestir uma idosa morta. A mulher rouba o anel do cadáver e depois passa a ser infernizada pelo fantasma da mulher (ou seria pela própria consciência?). Existe uma certa semelhança deste conto com o primeiro, já que há apenas dois cenários e quase toda a história é narrada sem palavras, o que dá ao episódio um senso de irrealidade meio fantasmagórico. Depois de tudo, existe ainda um bizarro mas antológico encerramento, com uma tomada irreverente feita por Boris Karloff.

Quando lançado nos EUA, “Black Sabbath” foi dublado em inglês e inteiramente remontado. A ordem das histórias foi alterada, e o estúdio responsável pela distribuição obrigou Karloff a gravar introduções para cada um dos contos. Cenas mais fortes de nudez e sugestão de homossexualismo foram eliminadas, o que causou irritação no diretor. A cópia lançada no Brasil, contudo, foi retirada do lançamento da Image Entertainment, que restaura a montagem original como pretendida por Mario Bava e repõe as cenas cortadas.

O disco contém uma cópia em bom estado (a segunda história tem imagens meio arranhadas), com o corte original widescreen e trilha em italiano, no formato Dolby Digital 2.0. As três introduções que iniciavam os episódios no filme americano podem ser vistas entre os extras (4 minutos), que ainda incluem biografias do diretor e de alguns atores. O lançamento é da Works DVD.

– Black Sabbath – As Três Máscaras do Terror (Black Sabbath / I Tre Volti de La Paura, Itália/França/EUA, 1963)
Direção: Mario Bava
Elenco: Boris Karloff, Mark Damon, Jacqueline Pierreux, Michele Mercier
Duração: 92 minutos

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