Blade Runner – O Caçador de Andróides

04/12/2007 | Categoria: Críticas

Polêmica e cultuada, ficção científica pós-moderna e existencial de Ridley Scott é referência de grande cinema contemporâneo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Não foram muitas as vezes em que o grau de interferência de um grande estúdio em filmes atingiu a intensidade das alterações feitas em “Blade Runner – O Caçador de Andróides” (EUA, 1982). Os executivos da Warner que assistiram ao primeiro corte, montado pelo diretor Ridley Scott, entraram em pânico. A obra não parecia apenas escura e exótica demais para os padrões da época, mas também confusa e incompreensível. Contra a vontade, o diretor foi obrigado a voltar à sala de montagem e cortar vários trechos, eliminando toda a ambigüidade sobre a natureza de determinados personagens, além de efetuar duas alterações extremamente radicais: inserir uma narração em off, explicando tudo o que os executivos achavam que não havia ficado claro, e mudar completamente o final.

Sem controle criativo sobre a produção, Scott ficou furioso, mas teve que cumprir as ordens recebidas. Foi uma humilhação. Para eliminar o melancólico final original, que plantava interrogações na cabeça dos fãs, ele precisou até mesmo incluir sobras de cenas de “O Iluminado”, que Stanley Kubrick havia dirigido em 1980. O resultado? A curto prazo, um fracasso retumbante. Os críticos desceram a lenha, e o público não lotou os cinemas. Tudo indicava que “Blade Runner” seria esquecido em pouco tempo, mas não foi o que ocorreu. O resgate posterior do longa-metragem rendeu uma história quase tão extraordinária quanto o enredo do filme em si. Com o passar dos anos, “Blade Runner” acabaria por se tornar um clássico sci-fi de primeira grandeza, estudado em universidades e cultuado por cinéfilos nos quatro cantos do globo.

Mas voltemos ao princípio. Ao aparecer nos cinemas, em meados de 1982, “Blade Runner” foi recebido de forma fria. A obra teve o azar de estrear no mesmo final de semana em que duas outras boas produções com elementos de ficção científica (“O Enigma do Outro Mundo” e “E.T.”), e acabou ignorado pela platéia, em detrimento de ambas. A pequena parcela de admiradores que transformou a película em objeto de culto estava nas universidades de filosofia. Foi lá que “Blade Runner” ganhou o status de ícone da pós-modernidade, com o panorama social rico e detalhado construído pelo cineasta.

Sua metrópole é suja, barulhenta, ultracolorida e multicultural. A Los Angeles do filme é uma torre de Babel cibernética. Seus habitantes falam um idioma que mistura inglês, japonês, húngaro e alemão. Uma chuva ácida cai sobre a cidade sem parar. Ricos moram em arranha-céus gigantescos e andam de aeronaves, sem jamais pisar no chão. O nível das ruas é sujo, violento, e lá só circulam imigrantes e policiais truculentos. “Blade Runner” é uma perfeita emulação do gênero noir no século XXI. A concepção visual ao mesmo tempo sofisticada e decadente, aliada a uma trilha sonora eletrônica (ousadia rara para a época), conquistou uma turma jovem que se diferenciava da geração anterior por encarar o futuro de forma diferente, não mais idílica e otimista, mas com medo e pessimismo.

Ademais, o roteiro é engenhoso e inteligente. Scott transporta uma narrativa mítica, repleta de referências filosóficas, para um futuro distópico, violento e apocalíptico. O filme segue o detetive particular Rick Deckard (Harrison Ford) na missão de caçar e exterminar cinco replicantes (andróides de aparência humana que fugiram de uma colônia espacial e vieram para a Terra). Ele precisa se aventuras pelos mercados negros e bares do submundo, no nível do chão, onde a polícia não consegue entrar. No mais puro noir cibernético, “Blade Runner” não dispensava nem mesmo a clássica femme fatale que seduz o herói: a misteriosa Rachael (Sean Young), que desconfia ser, ela mesma, uma replicante.

Curiosamente, da mesma forma que havia ocorrido no espiritualista “2001”, de Kubrick, o personagem mais complexo do filme não é humano. Roy (Rutger Hauer), o impiedoso líder dos replicantes rebeldes, tem uma personalidade fascinante. Violento e determinado, Roy lidera o grupo em busca de um prolongamento para sua existência, fixada em quatro anos pelos construtores. Ele mantém um confronto com Tyrell (Joe Turkel), o magnata responsável pela construção dos replicantes, que remete diretamente ao mito de Cronos, o deus grego morto pelos próprios filhos sedentos de poder. “Vi coisas que vocês nunca acreditariam. Todos estes momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva”, diz. O tema do filme está implícito nessas palavras: o mistério da existência, a inquietude com a escuridão que nos aguarda após a morte. Um tema universal, arquetípico.

De qualquer forma, o burburinho em torno do filme estava fadado a desaparecer se não fosse um incidente bobo, ocorrido em 1990. Na ocasião, os organizadores de um festival que ocorria em Los Angeles e San Francisco solicitaram à Warner uma cópia em 70mm para realizar exibições especiais. Por engano, o estúdio enviou rolos que continham uma cópia de trabalho, com uma montagem radicalmente diferente daquela exibida nos cinemas em 1982. Críticas extremamente positivas foram escritas. Foi o suficiente para aumentar exponencialmente o culto em torno da obra, a ponto de a empresa chamar Ridley Scott de volta para a sala de edição, liberando dinheiro para que o diretor montasse entregasse uma versão mais próxima à original de 1982 (que permanecia ainda inédita).

Scott fez isso em 1992, mas por causa de limitações no orçamento, não realizou algumas alterações visuais que desejava. As duas versões passaram a circular, em VHS e DVD, consolidando o status de cult do filme. Enquanto isso, a curiosidade em torno das outras versões diferentes que existiam nos arquivos da Warner alimentava infindáveis discussões em torno do filme. Tanta badalação acabou por gerar uma iniciativa inédita no mercado de home video. Para comemorar o aniversário de 25 anos do lançamento original, em 2007, o estúdio decidiu dar aos fãs aquilo que eles queriam. Desta forma, “Blade Runner” ganhou um lançamento especial, em sete diferentes configurações e três tipos de mídia (DVD, Blu-Ray e HD-DVD).

O mais recheado dos pacotes, não disponível no Brasil, contém nada menos do que cinco diferentes versões da película: a original de 1982 (com e sem cenas censuradas, chamadas respectivamente de US Theatrical Cut e International Cut), a versão de 1992 (Director’s Cut), um novo corte feito em 2007 por Ridley Scott (The Final Cut, com novos efeitos visuais) e ainda a famosa cópia de trabalho que assustou os executivos da Warner (denominada The Workprint Cut). Por decisão da Warner, o Brasil perdeu esta última versão do filme, bem como um segundo disco bônus que oferecia oito featurettes sobre aspectos dos bastidores, galerias de fotos e desenhos de produção, e uma entrevista em áudio com o escritor Philip K. Dick, autor do conto que deu origem à obra.

Mesmo assim, a caixinha tripla que saiu no Brasil é muito boa. Ela oferece quatro diferentes montagens do clássico sci-fi, todas com qualidade impecável de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1, em inglês e português). Cada uma vez precedida por uma curta introdução de Ridley Scott, em que o diretor explica as diferenças entre elas. No terceiro disco está o megadocumentário intitulado “Dias Perigosos”, que refaz toda a trajetória do filme, relembra os detalhes das filmagens e o analisa exaustivamente, a partir de 80 entrevistas feitas com atores, técnicos, críticos e filósofos (até mesmo o astro Harrison Ford, que assume não gostar do longa-metragem, aparece). O especial, legendado em português, tem mais de três horas e meia (exatos 214 minutos).

Trata-se de um lançamento raro na indústria do cinema, e não apenas pela qualidade do material bônus. O fato é que a iniciativa de disponibilizar o filme em cinco cortes diferentes representa uma oportunidade única para cinéfilos e estudiosos de cinema: a chance de estudar minuciosamente a maneira como pequenas (reduções de pausas nos diálogos, frases e planos eliminados) grandes (narração em off, final diferente) podem interferir não na atmosfera e na qualidade narrativa de um filme. Sim, porque as diferenças entre as diversas versões de “Blade Runner” são consideráveis. Os cortes de 1982, por exemplo, rendem um bom thriller sci-fi, que chama mais a atenção pelo retrato distópico que faz do futuro do que pela trama em si. Já as montagens mais recentes (as de 1992 e 2007, cujas diferenças são pequenas) mostram um trabalho muito mais ambíguo, amargo e inteligente, sublinhando melhor as implicações filosóficas.

– Blade Runner – O Caçador de Andróides (EUA, 1982)
Direção: Ridley Scott
Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah
Duração: 112 minutos

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