Boa Noite e Boa Sorte

15/05/2006 | Categoria: Críticas

George Clooney usa episódio verídico do passado para falar da ‘caça às bruxas’ no presente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O ator George Clooney, presença freqüente nas listas de homens mais bonitos do mundo, vem demonstrando ser bem mais do que isso. O mais engajado dos astros do primeiro time de Hollywood mantém uma produtora com o amigo e cineasta Steven Soderbergh, e a empresa tem financiado projetos de pequeno porte que espetam fundo na consciência moral do norte-americano médio. O segundo longa-metragem de Clooney como diretor, “Boa Noite e Boa Sorte” (Good Night, and Good Luck, EUA, 2005), é um ótimo exemplo disso.

O filme utiliza um clássico episódio de censura interna vivida pelos EUA – a “caça às bruxas” promovida pelo senador republicano Joseph McCarthy, na década de 1950 – para fazer uma afirmação contundente sobre a dualidade entre direitos individuais X segurança nacional. Concebido e filmado em uma época dominada por seguidos exemplos de invasão de privacidade patrocinados pelo governo (republicano) de George W. Bush, o filme defende claramente um ponto de vista liberal: a justificativa da segurança nacional não deve, jamais, servir de pretexto para a limitação dos direitos civis dos indivíduos.

O tema tem sido objeto de insistente polêmica nos jornais e no meio universitário dos EUA – e, por conseqüência, do mundo – depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Após a ação terrorista em Nova York, o Governo Bush passou a defender limitações aos direitos individuais, nos casos em que visse ameaçada a segurança nacional. Muita gente comprou a idéia sem questionamentos. “Boa Noite e Boa Sorte” é a contribuição velada – pois não menciona, em nenhum momento, Bush ou o atentado às Torres Gêmeas – de Clooney ao debate. Ou seja, é o típico caso em que um cineasta utiliza um episódio verídico do passado para falar do presente.

Nesse sentido, “Boa Noite e Boa Sorte” é menos uma obra cinematográfica e mais uma peça político-ideológica. O filma trata de lembrar os norte-americanos de como o senador Joseph McCarthy, utilizando os mesmíssimos argumentos da Era Bush, perseguiu, prejudicou e destruiu a vida de muita gente honesta. Por ser um tema muito norte-americano, “Boa Noite e Boa Sorte” provoca uma curiosidade limitada no resto do mundo, Brasil incluído. É um filme que trata de um assunto relevante, sem dúvida, mas que tende a provocar menos atenção por evocar um universo muito diferente do cotidiano brasileiro.

Produzido a partir de um elegante visual preto-e-branco e utilizando uma narrativa direta e sem enfeites, “Boa Noite e Boa Sorte” conta como o âncora Edward Murrow (David Strathairn) e sua equipe jornalística utilizaram o programa “See It Now”, na prestigiosa rede de televisão CBS, para questionar e combater o senador McCarthy. O longa ilustra também como o contra-ataque do político foi traiçoeiro, atingindo as vidas pessoais de integrantes do time jornalístico e pressionando os patrocinadores do programa.

Clooney filma tudo acentuando a atmosfera de tensão e paranóia, tanto no preto-e-branco sombrio da parte visual quanto nas atuações nervosas do elenco. “Boa Noite e Boa Sorte” é repleto de cigarros, suor, dentes trincados e olhares oblíquos, ambientes esfumaçados e a pressão constante do relógio. Um dos maiores méritos está na fotografia de Robert Elswit. As imagens esfumaçadas contribuem para reforçar o clima de tensão, e as abundantes tomadas fechadas nos rostos dos atores alimentam ainda mais a sensação de que a qualquer momento aqueles homens podem ser atingidos por um contragolpe certeiro.

Além disso, o enfoque do filme é muito objetivo, evitando mostrar a vida pessoal dos personagens e focando 100% do tempo no trabalho deles. O protagonista Ed Murrow, por exemplo, jamais é mostrado fora do ambiente do trabalho; isso acontece apenas com um dos repórteres da equipe (Robert Downey Jr), e apenas porque a vida privada do rapaz invade a esfera do trabalho, já que ele é casado com uma colega de redação, algo que é proibido na televisão.

Muito elogiado pela crítica norte-americana, “Boa Noite e Boa Sorte” conta ainda com uma belíssima trilha sonora, composta quase exclusivamente por clássicos do jazz norte-americano, além de um trabalho uniformemente eficiente do elenco. O semblante fechado de David Strathairn combina perfeitamente com a taciturna personalidade de Murrow, e o próprio Clooney se esconde atrás de um par de óculos para compor o braço direito do jornalista, o produtor Fred Friendly. Se não é uma obra-prima, “Boa Noite e Boa Sorte” é drama político dos bons.

O DVD para locação é um lançamento da Paris Filmes. O disco é simples, não tem material extra (nada de documentários) e, heresia, mutila na lateral o enquadramento original (4:3, ou tela cheia). O som é Dolby Digital 5.1

– Boa Noite e Boa Sorte (Good Night and Good Luck, EUA, 2005)
Direção: George Clooney
Elenco: David Strathairn, George Clooney, Robert Downey Jr, Jeff Daniels
Duração: 93 minutos

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