Bolt

19/05/2009 | Categoria: Críticas

Após alguns anos de fracassos, eis um filme com o selo genuinamente Disney proporciona diversão à altura da tradição da empresa

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Todos nós, cinéfilos de carteirinha, acompanhamos com expectativa o imbróglio Pixar-Disney. Durante um par de anos (2004-2006), a empresa de Steve Jobs e John Lasseter dizia publicamente estar descontente com o decano conglomerado de comunicação, com quem tinha um contrato de distribuição. A briga teve final feliz para todo mundo quando, em janeiro de 2006, a Disney anunciou a compra da firma menor. A transação, bastante complexa, colocou todos os executivos da Pixar nos cargos de comando mais importantes da própria Disney. “Bolt” (EUA, 2008) foi o primeiro projeto após a fusão em que Lasseter, o comandante do estúdio que nunca fez um filme ruim, pôde botar as mãos e interferir de forma decisiva no produto final.

Essa interferência criativa fica clara quando se vê “Bolt”. Pela primeira vez em muitos anos, um filme com o selo genuinamente Disney proporciona diversão à altura da tradição da empresa. Não que a saga do cão branco que empresta o nome ao filme seja uma obra-prima, porque está longe disso, mas “Bolt” possui muitos elementos que a fábrica de emoções da Disney parecia ter perdido desde o começo dos anos 2000: um roteiro decente, personagens que provocam empatia imediata com as crianças, ritmo dinâmico, senso de humor que não soa requentado e um par de seqüências de ação que não ficam nada a dever a muitas aventuras infanto-juvenis especializadas em testar os limites dos equipamentos de projeção dos cinemas mais sofisticados.

A história, que lembra um cruzamento de “O Show de Truman” (1998) com “Toy Story 2” (1999) vitaminada por pitadas de “Os Incríveis” (2004)  , usa doses generosas de metalinguagem para contar a saga do cachorro protagonista de um seriado de TV. Bolt, o cão branco com um pequeno símbolo em forma de raio impresso no pêlo, é famoso em todos os EUA. Nos episódios semanais, ele e sua dona, Penny, salvam o mundo das caprichos do Dr. Calico, um vilão com olho de gato. Bolt tem uma porção de superpoderes (latido supersônico, força muscular sobrehumana, etc.) e um grande problema: ele não sabe que o seriado é ficção. Na verdade, Bolt acha que todas as aventuras vividas no estúdio são de verdade. Ele pensa que é mesmo um super-cão. Por isso, quando foge e vai parar nas ruas de Nova York por acidente, todo mundo acha que ele está ferrado. O filme acompanha os esforços dele para retornar até Hollywood e reencontrar Penny.

Quando assumiu o cargo na Disney e assistiu aos primeiros trechos da animação, Lasseter não gostou do que viu. O novo chefe pediu ao então diretor, Chris Sanders, uma série de alterações na história, que se passava quase totalmente no deserto de Nevada, perto de Las Vegas (de fato, esse pedaço do enredo foi reduzido e movido para o início do terceiro ato). Os dois bateram de frente, e o cineasta acabou demitido. Lasseter incluiu novos personagens, como o hamster gorducho que acompanha Bolt em boa parte da odisséia (e cujo visual rechonchudo e de gestos largos e decididos faz lembrar o próprio Lasseter) , e amplificou bastante os toques de metalinguagem que fazem da primeira parte a mais divertida e alucinada do resultado final. Ao que parece, estava certo – o filme ficou redondinho, sem pontas soltas, e agradou tanto ao público (US$ 150 milhões nas bilheterias) quanto à crítica (85% de aprovações no Rotten Tomatoes).

“Bolt” diz a que veio desde a seqüência de abertura, que flagra o cão branco e Penny, de patinete, sendo perseguidos por dezenas e carros e helicópteros pelas ruas de uma grande metrópole, enfrentando destruição em larga escala, e vencendo todos os desafios com boa dose de inventividade. É uma cena impecável, que mescla ação em alto grau e humor afiado, e não faria feio na obra-prima (esse sim!) “Os Incríveis”. Os novos diretores, Chris Williams e Byron Howard, mostram habilidade ao filmar a cena seguinte – outra seqüência de ação – sob um ponto de vista bem diferente, depois que todos descobrimos (menos Bolt, o cão) que tudo não passa de encenação com efeitos especiais de ponta. A decupagem (ou seja, a escolha dos ângulos e movimentos de câmera) é perfeita.

O filme cai um pouquinho a partir do início do segundo ato, quando Bolt vai parar em Nova York e precisa descobrir o caminho de volta, pegando carona em trens (por sinal, há uma outra seqüência eletrizante em cima de um deles) e caminhões, com a companhia de uma gata preta e do já citado hamster parrudo, que rola pelas estradas dentro de uma esfera de acrílico. Mas não é nada para se preocupar. As descobertas desconcertantes que o cãozinho vai fazendo, durante o processo de reconhecimento de sua real condição, garantem muitas gargalhadas. Os dois animais coadjuvantes são simpáticos e caem facilmente no gosto da meninada. E o epílogo, apesar de meio apressado (o que inclusive prejudica o desenvolvimento dramático da cena do clímax, curta demais), retoma a veia “Os Incríveis”para realçar a eterna mensagem familiar da Disney.

O DVD da Buena Vista é simples e mantém enquadramento original (widescreen anamórfico) e som em seis canais (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem um curta-metragem inédito e pequenos featurettes animados com os personagens, além de trailers.

– Bolt (EUA, 2008)
Direção: Chris Williams e Byron Howard
Animação (vozes originais de John Travolta, Miley Cyrus, Malcolm McDowell)
Duração: 96 minutos

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