Bom Pastor, O

28/06/2007 | Categoria: Críticas

Elegante, com ótimo elenco e direção invisível, filme de Robert De Niro só derrapa no excesso de ambição

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A segunda incursão de um dos maiores atores do século XX na cadeira de diretor é um filme tão ambicioso, e tão diferente do primeiro trabalho que assinou atrás das câmeras, que precisa ser avaliada com calma. Em 1993, Robert De Niro estreou como diretor em “Desafio ao Bronx”, um pequeno e despojado estudo de personagem sobre um garoto cooptado pela Máfia. Parecia um subproduto da mente de Martin Scorsese, o diretor ítalo-americano com quem De Niro mais filmou. Treze anos depois, “O Bom Pastor” (The Good Shepherd, EUA, 2006) confirma a influência de Scorsese na direção de De Niro, mas com upgrade em escala e ambição. O filme é um bom melodrama épico, de proporções suntuosas, e só derrapa um pouco em função disso.

“O Bom Pastor” observa o nascimento da CIA, a maior agência de espionagem do planeta, através dos olhos de um personagem de médio escalão. Edward Wilson (Matt Damon) não é um personagem fictício, tendo sido baseado no homem que criou o esquema de contra-operações secretas da instituição, um camarada chamado James Angelton, desconhecido fora dos círculos de espiões. A jornada deste homem é uma variação do mito de Fausto: alguém que abriu mão da vida pessoal (amor, casamento) em prol de um objetivo maior e mais abstrato (a segurança dos Estados Unidos). É o embate entre o homem e a instituição. Transformando-se paulatinamente em algo que não deseja ser, Wilson acaba se tornando uma espécie de Michael Corleone da CIA.

A influência da trilogia “O Poderoso Chefão” é evidente, na construção da jornada do personagem, mas a atmosfera vem do cinema de Scorsese. A cadência firme, que alterna longas seqüências de escala íntima e cortes abruptos que impulsionam a ação para outro momento cronológico (ao futuro ou ao passado), assim como as explosões pontuais de violência crua, remetem aos longas-metragens de Scorsese. Em certo momento, alguns espiões da CIA se reúnem à noite numa rua deserta de Londres para eliminar um alvo que se tornou indesejável, em uma cena que poderia tranqüilamente ser incluída em “Os Bons Companheiros” (1990). A despeito disso, De Niro dirige de modo clássico, invisível, trabalhando nas transições das cenas de modo suave, de forma que a platéia não perceba a mão do diretor.

A fotografia elegante de Robert Richardson fornece a atmosfera de conspiração e paranóia. Há grande quantidade de cenas noturnas, boa parte delas em ambientes interiores, e Richardson – um craque da luz, que fez “Kill Bill” e ganhou Oscar por “O Aviador” – sempre ilumina os ambientes de forma a deixar os cantos escuros, perigosos. Nos momentos mais tensos, os personagens têm os rostos cobertos pelas sombras. O fotógrafo tem o trabalho valorizado pela direção de arte correta, que abusa de elementos típicos dos filmes de espionagem (sobretudos, óculos escuros e chapéus que escondem as identidades das pessoas) para enfatizar o clima sombrio, de paranóia e perseguição constante.

Se a parte técnica é impecável, o que acaba pesando um pouco contra o filme é o excesso de ambição. Projeto acalentado por Robert De Niro durante longos dez anos, “O Bom Pastor” procura dar conta de uma escala íntima (a jornada faustiana do protagonista) enquanto, ao mesmo tempo, observa o soerguimento da CIA, realizando comentários mordazes sobre a política externa do país e sugerindo que a União Soviética nunca foi uma ameaça real aos EUA, e que a Guerra Fria não passou de criação de marketing para permitir o aumento do orçamento militar no país. A visão é ousada e politicamente forte.

O resultado da mistura entre política internacional e drama pessoal, porém, não fica bem dosada, e resulta em um filme excessivamente longo, com quase três horas de duração, que sabemos bem como vai acabar. Além disso, o roteiro de Eric Roth finca raiz no mesmo tema de “Munique” (2005), que ele também escreveu para Spielberg: a trajetória de um homem que abre mão da própria vida para doá-la, em uma espécie de ato perene de auto-imolação, ao país que ama. É melodramático demais, apesar do interessante mapa da geopolítica de espionagem montado pela trama intrincada.

Um bom dado sobre o filme é o cuidado com que o personagem principal é construído, já que Edward Wilson se transforma de CDF entediante em figura humana atormentada, embora externamente pareça sempre o mesmo. Ele é o “bom pastor” do título: inteligente, bom rapaz, extremamente meticuloso e paciente (seu hobby é colocar barcos dentro de garrafas), usa óculos, tem sempre o cabelo impecavelmente penteado e gosta de tomar chá. É o cara com quem toda mãe quer casar as filhas. Wilson acaba na CIA pela ação de uma sociedade secreta no estilo da Maçonaria (curioso como os norte-americanos adoram esse tipo de coisa), e aos poucos perde o controle da própria vida. Matt Damon, um ator jovem que vem se notabilizando pela escolha arrojada dos projetos em que embarca, tem o ar exato de CDF amargurado que dá vida e vitalidade ao personagem.

Um elenco formidável acompanha o ator na empreitada, com direito a atuações excelentes de Michael Gambon (como o professor gay dos tempos de faculdade), William Hurt (o chefe de Edward na CIA) e Billy Crudup (um espião como Wilson, só que um tanto mais amoral). O próprio De Niro, muitos quilos mais gordo, atua num papel pequeno mas crucial, e o velho chapa Joe Pesci aparece em uma pequena cena. Outros nomes no elenco incluem Angelina Jolie, Alec Baldwin, Timothy Hutton, John Turturro, Keir Dullea (um dos astronautas atacados por HAL no segmento mais famoso de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”) e a alemã Martina Gedeck.

O DVD da Sony contém apenas o filme, com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– O Bom Pastor (The Good Shepherd, EUA, 2006)
Direção: Robert De Niro
Elenco: Matt Damon, Angelina Jolie, Michael Gambon, William Hurt
Duração: 167 minutos

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