Bonecas Russas

10/10/2006 | Categoria: Críticas

Continuação de ‘Albergue Espanhol’ resgata personagens na casa dos 30 e aposta em linguagem pop

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A comparação entre as comédias jovens “Antes do Amanhecer” (1995) e “Albergue Espanhol” (2002) é inevitável. Embora tenham sido rodados por cineastas de diferentes países – EUA e França, respectivamente –, os dois filmes têm muitos pontos em comum. Enfocam encontros inesquecíveis entre personagens de nacionalidades distintas, se passam em território europeu, flertam com uma linguagem pop inteligente e descolada, e têm um público fiel na faixa dos 25/30 anos. O lançamento de “Bonecas Russas” (Les Poupées Rousses, França/Inglaterra, 2005) agrega mais um fator que aproxima os trabalhos de Richard Linklater e Cédric Klapisch: ambos ganharam continuações que enfocam o reencontro dos personagens originais, alguns anos depois e em condições bem diferentes. Mas a comparação pára por aí.

Para começar, embora seja capaz de produzir comédias agradáveis e engraçadas, Klapisch não é um cineasta tão talentoso quanto Linklater. Os dois têm queda para a verborragia, tendendo a filmar uma quantidade anormalmente abundante de diálogos, mas o francês prefere apostam em linguagem pop e num cenário de confusão juvenil muito superficial para personagens que giram ao redor dos 30 anos. Além disso, a impressão geral deixada por “Bonecas Russas” é que essa continuação, ao contrário do que ocorreu com a série de Richard Linklater, era desnecessária. Após cinco anos passados na ficção, Xavier (Romain Duris, ótimo ator) continua a ser um sujeito indeciso e cheio de dilemas. Não evoluiu e continua preso ao passado, ao contrário de Jesse e Celine, astros dos filmes norte-americanos.

De fato, “Bonecas Russas” inicia com uma nota negativa, prometendo ao espectador algo que não vai cumprir: um encontro entre os oito estudantes de diversas nacionalidades que, cinco anos antes, dividiram um apartamento em Barcelona e encantaram a platéia. Bem, o encontro ocorre, mas apenas no final do longa-metragem, por alguns raros minutos. Quatro dos rapazes inclusive viram coadjuvantes de luxo, cada um contando com apenas uma mísera fala – um brinde de alguns segundos durante uma festa de casamento – em 125 minutos de projeção. A produção realiza, desse modo, uma trapaça na platéia. Se você acredita que a dinâmica juvenil que existia entre os personagens de “Albergue Espanhol” é reeditada aqui, pode esquecer. Desta vez, a narrativa é 100% concentrada no francês Xavier.

Depois de desistir da carreira de economista, Xavier se transformou em escritor. Trabalha escrevendo roteiros para uma série obscura de TV e fazendo free-lance como ghost writer de biografias de celebridades. Seu grande objetivo, ainda não alcançado, é virar um romancista de respeito. Ocorre que Xavier só conseguiu terminar um livro, justamente o volume que narra as aventuras de Barcelona, que ainda não foi publicado. Quando “Bonecas Russas” começa, ele está martelando furiosamente o teclado do notebook, tentando parir algumas frases elegantes para uma nova tentativa de entrar no mercado literário.

A partir daí, Cédric Klapisch recorre aos mesmos recursos de edição utilizados em “Albergue Espanhol” para tornar a narrativa veloz e carimbada com o rótulo de “jovem”: split screens (telas divididas que mostram ações simultâneas), freeze frames (imagens congeladas em uma pessoa enquanto uma narração em off mostra os pensamentos do personagem em questão), cronologia fragmentada, tudo sublinhado com muita música pop. Do primeiro filme, retornam com destaque a ex-namorada Martine (Audrey Tautou), a inglesa Wendy (Kelly Reilly) e a lésbica Isabelle (Cécile de France). William (Kevin Bishop), irmão mais novo de Wendy, também ocupa parte importante da narrativa. Os demais apenas fazem figuração de luxo.

Um detalhe interessante e bem-vindo é que Klapisch conseguiu introduzir de forma fluida o tema principal de “Albergue Espanhol” – a globalização – dentro da trama. Desta vez, ao invés de usar o recurso gasto de colocar os personagens conversando sobre o assunto, como no filme anterior, o cineasta deu um jeito de incorporá-lo ao dia-a-dia de Xavier. Uma grande sacada nesse sentido acontece quando a rede de TV inglesa BBC compra os direitos da série que o rapaz escreve. Xavier é chamado a uma reunião e comunicado que terá que passar a escrever os roteiros em inglês, e com a obrigatória ajuda de um roteirista nativo da Inglaterra, para ajudá-lo na função. Além de introduzir o assunto “globalização”, o acontecimento acaba por reunir Xavier e Wendy, já que esta também trabalha como roteirista.

O grande tema de “Bonecas Russas”, contudo, não é a globalização, mas a busca incessante por uma alma gêmea, pela mulher perfeita. Cédric Klapisch desenha Xavier como um romântico à moda antiga, um homem que não consegue manter um relacionamento estável com nenhuma garota porque está sempre procurando por alguém que não tenha defeitos. Praticamente todas as cenas que incluem narração em off – o recurso é usado à exaustão, ainda que tenha uma explicação, já que as frases vêm do novo romance que Xavier está escrevendo – abordam o assunto diretamente. É o tema, também, que fornece a explicação para o título do filme, uma engenhosa metáfora para essa eterna busca idealizada.

“Bonecas Russas”, enfim, não é um filme ruim. É leve, ágil, divertido, possui boas cenas – os momentos de devaneio romântico de Xavier são os maiores destaques, em especial a brilhante seqüência em que o rapaz, depois de passar uma noite inesquecível com uma modelo desejada por metade da Europa, deixa a casa dela de manhã cedo e imagina que sua Scooter barulhenta se transformou em um belo e romântico cavalo – e atuações corretas. O destaque vai para Kevin Bishop, que rouba a cena sempre que aparece. Só não dá para negar que “Bonecas Russas” deixa certo ranço amargo na boca por derivar de um filme melhor e mais bem-resolvido.

O DVD da Europa Filmes é simples e sem extras. O filme tem imagem boa (widescreen anamórfica) e som razoável (Dolby Digital 2.0).

– Bonecas Russas (Les Poupées Rousses, França/Inglaterra, 2005)
Direção: Cédric Klapisch
Elenco: Romain Duris, Kelly Reilly, Audrey Tautou, Cécile de France
Duração: 125 minutos

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