Bonnie e Clyde

08/09/2005 | Categoria: Críticas

Filme de Arthur Penn mudou a forma como Hollywood mostrava sexo e violência nos filmes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Você já deve ter ouvido falar sobre algum filme que esteve à frente de seu tempo. As pessoas falam isso sobre “Metropolis”, de Fritz Lang, e mais um punhado de outros lançamentos. Bem mais raro é alguém dizer que um longa-metragem estava no lugar certo, na hora certa, e que se houvesse chegado aos cinemas antes ou depois teria redundado em fracasso. Pois bem, aqui está um caso típico de filme de timing impecável com sua época: “Bonnie e Clyde – Uma rajada de Balas” (Bonnie and Clyde, EUA, 1967), de Arthur Penn.

Embora a ação se passe durante a época da Grande Depressão (ou seja, em algum lugar entre meados dos anos 1920 e a metade dos anos 1930), “Bonnie e Clyde” é claramente um filhote do clima libertário dos anos 1960. O movimento flower power, de liberdade sexual, estava expresso nas ondas hippie e feminista que varriam os EUA na época do lançamento do filme. E tudo, do charmoso boné preto de Faye Dunaway (que virou símbolo feminista no mundo todo) até as insinuações sexuais evidentes quando Warren Beatty maneja um revólver, explodiu em sucesso quando o filme chegou aos cinemas. Um caso raro de sintonia entre produtores e platéias.

“Bonnie e Clyde” é um filme para platéias jovens, baseado em pessoas reais, um casal de assaltantes de bancos que se tornou celebridade durante a Grande Depressão. A rigor, não se trata de um filme sobre gângsteres, sobre roubos espetaculares e fugas audaciosas, e sobre violência, embora contenha tudo isso em doses generosas. Este é um filme de amor. Aliás, um bizarro, anti-convencional e estranho filme que celebra o amor. Mesmo que esse amor quase não inclua sexo (o verdadeiro Clyde Barrow, protagonista da história, era impotente, embora o diretor Arthur Penn tenha feito uma suave concessão ao mito, já perto do final da história), e por isso mesmo ajuste-se perfeitamente aos ideais feministas da época.

O filme é ficção sobre fatos reais. Imagina a relação entre Clyde Barrow (Warren Beatty, também produtor) e Bonnie Parker (Faye Dunaway) desde o primeiro encontro até o final da carreira criminosa da dupla, em uma estrada rural do Oklahoma. Toda a trajetória é mostrada pelo diretor Arthur Penn com uma alegria selvagem, como se os dois protagonistas tivessem uma fome insaciável de viver – e isso é mais um detalhe a explicar perfeitamente o sucesso do filme entre platéias jovens, sempre seduzidas por quem vive intensamente e sem se preocupar com o dia seguinte.

O filme ganhou dois Oscar, sendo um pela fotografia de Burnett Guffey (o outro foi de atriz coadjuvante para Estella Parsons, e ela está mesmo ótima, com senso cômico perfeito). Guffey interpretou visualmente a feroz tensão sexual entre Bonnie e Clyde utilizando cores explosivas, criando pelo menos uma cena antológica, logo no primeiro encontro entre eles, quando Bonnie o desafia a mostrar que é corajoso e Clyde, maliciosamente mastigando um palito de fósforos, mostra disfarçadamente um revólver, como se estivesse permitindo à garota uma boa olhada nos seus órgãos sexuais. Todo o filme é construído em cima dessa tensão sexual, que reverbera a todo instante nos outros personagens (Bonnie beija na boca o policial que tenta detê-los à margem de um rio).

Arthur Penn acertou, também, em conduzir uma montagem bem dinâmica, que acentua um elemento cômico presente desde o primeiro instante. A música rural, composta com um banjo, reforça esse sentimento de brincadeira. Toda a primeira parte do filme, incluindo alguns assaltos desastrados (Clyde investe contra um banco que faliu três semanas antes), sublinha inteligentemente essa veia cômica, que vai lentamente se transformando em algo patético, e finalmente trágico. Isso acontece de forma tão fluida que a platéia não percebe a mágica acontecendo – e isso funciona a favor do filme.

Por fim, não há como comentar “Bonnie e Clyde” sem falar da representação visual da violência que o filme realiza. Ao contrário do que muita gente imagina, o longa-metragem não é excessivamente violento, apesar de conter dois tiroteios bastante longos e um par de mortes, executadas pelos protagonistas, com alguma crueldade. Mas a cena final do filme, que o fez famoso, é uma referência fundamental para saber como Hollywood passou a tratar a violência dali em diante – sem glamour e com muito mais realismo, como os filmes de Sam Peckinpah iriam comprovar. Os ótimos “Assassinos Por Natureza”, de Oliver Stone, e “Terra de Ninguém”, de Terence Malick, não existiriam se não fosse esse filme.

O DVD lançado no Brasil pela Warner contém apenas o filme, com imagem bem preservada mas em formato não-original (standard 4:3) e som Dolby Digital 1.0. O disco remete ao lançamento da empresa nos EUA em 1997. Dois anos depois, o filme foi relançado com o formato de tela original, mas essa edição jamais chegou ao Brasil.

– Bonnie e Clyde (Bonnie and Clyde, EUA, 1967)
Direção: Arthur Penn
Elenco: Warren Beatty, Faye Dunaway, Gene Hackman, Michael J. Pollard
Duração: 111 minutos

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