Boogie Nights – Prazer Sem Limites

13/07/2008 | Categoria: Críticas

Belos personagens e técnica impecável marcam retrato nostálgico da indústria de filmes pornô

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Um tratamento estético que reúne as melhores características do cinema de Robert Altman e Martin Scorsese, aplicado a um dos aspectos mais desconhecidos, interessantes e milionários da cultura pop: a indústria de filmes pornográficos. A definição encaixa com perfeição em “Boogie Nights – Prazer Sem Limites” (EUA, 1997), espécie de épico suburbano que narra ascensão e queda de um astro (parcialmente inspirado em caso real) das fitas de sexo explícito, cuja produção e distribuição explodiram na virada dos anos 1970-80.

É visível o cuidado meticuloso com que o cineasta Paul Thomas Anderson, atingindo a maturidade artística logo no segundo trabalho da carreira, tratou o material. Há nítida atmosfera nostálgica – o diretor passou a adolescência no local e na época em que o filme se desenrola – envolvendo tudo, mas este elemento pessoal não impediu Anderson de construir uma obra densa, crítica, com múltiplas camadas de significado. O retrato do submundo da pornografia é gráfico e intenso, e inclui comentários certeiros sobre o caráter industrial da produção de vídeos pornográficos e a linha tênue que separa o pessoal envolvido com esta indústria de atividades declaradamente ilegais, como o tráfico e o consumo de drogas.

Através de uma extensa pesquisa, o diretor foi capaz de construir uma galeria inesquecível de personagens. Eles são uma dúzia de belos rapazes e moças cujo desembaraço sexual descende diretamente da era hippie do amor livre. O amor de PT Anderson por aquela geografia emocional é tão grande que ele não poupa tempo para desenvolver, cuidadosamente, uma dúzia de personagens fascinantes: o rapaz negro que adora country music e aparelhos de som estéreo (Don Cheadle), a colegial que nunca tira os patins (Heather Graham), a atriz pornô que pôs a maternidade latente a serviço dos rapazes com quem contracena (Julianne Moore), o cineasta que sonha em fazer um filme pornográfico com conteúdo artístico (Burt Reynolds), o contra-regra corno manso (William H. Macy) e, liderando todo mundo, Eddie Adams… ou melhor, Dirk Diggler (Mark Whalberg), o garotão bem-dotado que irá se transformar na maior estrela na nascente indústria de pornografia audiovisual.

Anderson filma o vai-e-vem desta turma gente final com elegância visual que remete aos grandes filmes de Scorsese. O trabalho de câmera (longas tomadas sem cortes, movimentos intrincados) tem nítida influência de “Os Bons Companheiros” e “Cassino”, influência assumida já no plano-seqüência de abertura, três minutos ininterruptos com a câmera indo do alto de um prédio para dentro de uma boate, e apresentando a maioria dos personagens em um movimento único. Como este, há dois ou três outros planos-seqüência geniais. Noutra cena, a câmera passeia por um churrasco de verão, com direito a mergulho na piscina. Também remetendo ao trabalho de Scorsese está a trilha sonora pop maravilhosa, com quase 40 canções de todo tipo de estilo (soul, country, reggae, disco, latino, rock pesado). Se ainda duvida, confira a cena de encerramento, uma reverência explícita a “Touro Indomável” (1980).

A outra grande influência de Anderson, Robert Altman, está na construção narrativa – um mosaico de personagens cujas histórias se entrelaçam – do roteiro, escrito pelo próprio, e também a direção de atores, que valoriza a espontaneidade das atuações. Todos estão à vontade, com destaque especial para Mark Whalberg (ele assumiu o papel após recusa de Leonardo Di Caprio, que preferiu fazer “Titanic”) e Burt Reynolds, este último retornando aos holofotes depois de longo período de ostracismo. Juntos, tantos atores talentosos premiam a platéia com seqüências impagáveis, cheias de um humor nostálgico e ocasionais momentos sombrios, tudo filtrado pela jornada épico-mundana de um dos protagonistas mais cool e ingênuos do cinema.

Os acontecimentos inusitados vistos na festa de Ano Novo de 1980 e a nervosa tentativa de vender bicarbonato de sódio a um grande traficante, como se o produto fosse cocaína pura, estão desde já entre os grandes momentos do cinema de um dos mais talentosos diretores norte-americanos da geração surgida nos anos 1990. Filmar histórias humanas com tanta firula técnica, sem errar a mão ou derrapar na pretensão, não é para qualquer um – e PT Anderson passa no teste com louvor. É provável que “Boogie Nights”, pelo mergulho vigoroso na cultura pop e pela saudável despretensão, seja o melhor trabalho da carreira dele. Filmaço.

O DVD carrega o selo da Playarte no Brasil. A edição tem boa qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), mais dez cenas cortadas e um videoclipe do cantor Michael Penn.

– Boogie Nights – Prazer Sem Limites (EUA, 1997)
Direção: Paul Thomas Anderson
Elenco: Mark Whalberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, Heather Graham
Duração: 156 minutos

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