Borat

23/10/2007 | Categoria: Críticas

Falso documentário com o ator Sasha Baron Cohen tira sarro da ignorância norte-americana e tem muitas cenas perfeitas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O comediante inglês Sacha Baron Cohen tornou-se, quase sem querer, protagonista da maior surpresa cinematográfica de 2006. Disfarçado de repórter de uma rede de TV do Casaquistão, antiga república soviética na fronteira entre Ásia e Leste europeu, Cohen cruzou os Estados Unidos preparando um falso documentário, quase sempre rodando pegadinhas com pessoas que não conheciam a sua verdadeira identidade. O filme, uma sucessão avassaladora de gags hilariantes que tiram sarro da notória ignorância norte-americana para tudo o que não seja o próprio umbigo, foi rodado ao custo ínfimo de US$ 18 milhões e se transformou em coqueluche nos EUA e na Europa, arrecadando mais de US$ 220 milhões. Mais do que isso: virou um verdadeiro fenômeno cultural, chegando a gerar gírias entre jovens de todas as partes do mundo (“fazer um Borat”, em referência a sexo oral, virou expressão corrente em Londres).

A história por trás do filme é curiosa. O personagem Borat já existia desde 1994, mas era aproveitado apenas ocasionalmente pelo comediante inglês em seu programa na TV a cabo HBO. Assim, aproveitando o relativo anonimato que o ingênuo varapau de bigodes lhe proporcionava, Cohen teve a idéia de excursionar pelos EUA (com ênfase nos estados do meio-oeste, o conhecido “cinturão vermelho”, onde os habitantes costumam ser extremamente conservadores, praticamente ignorando tudo o que não seja cultura americana), fazendo-se passar por um verdadeiro casaque. Ele criou um background para o personagem, gravou na Romênia as seqüências de abertura e encerramento, que mostram Borat no que seria sua vizinhança, e foi em frente, filmando tudo com câmeras digitais baratas.

Curto, veloz e tremendamente engraçado, “Borat” funciona como uma mistura tresloucada do falso documentário “Spinal Tap” (1984) com a série televisiva “Jackass”, que também migrou para o cinema com sucesso. O filme é montado como uma sucessão de pegadinhas, entrecortadas com algumas seqüências ficcionais em que, naturalmente, a qualidade do humor cai um pouco. O melhor de tudo é que Borat-Cohen expõe, com doses cavalares de incorreção política, o ultra-conservadorismo e a ignorância quase obscena que são marcas registradas de grande parte da população não-urbana dos EUA. Com muito improviso, o ator inglês expõe em detalhes o preconceito velado existente nos EUA, o que faz desta comédia uma peça incômoda de cinema político.

A primeira metade do filme, que documenta a apresentação do cotidiano (“esta é Natalia, minha irmã. Ela é a quarta melhor prostituta em todo o Casaquistão”) e a chegada de Borat aos Estados Unidos, com o conseqüente choque cultural sofrido pelo personagem, é praticamente perfeita. O filme enfileira sete ou oito seqüências consecutivas, com alto potencial humorístico, daquelas que fazem o pobre espectador ter câimbras na barriga, dor nas costelas e falta de ar de tanto rir. Algumas cenas são inacreditáveis de tão boas. Borat entra no metrô de Nova York com uma galinha enfiada na mala, lava as cuecas no Central Park e finge pensar que o elevador do hotel é o quarto em que vai ficar hospedado, para choque das pessoas com quem ele cruza (elas não sabem, evidentemente, a verdadeira identidade do personagem).

Numa das primeiras entrevistas, com um comediante veterano de bares americanos, Borat finge tomar uma aula de como compreender o senso de humor peculiar dos norte-americanos, e dá a pista do que será a tônica do falso documentário: demolir todo tipo de idéia politicamente correta, criando inúmeras piadas envolvendo judeus (“no Casaquistão, temos problemas sociais, econômicos e judeus”), ciganos, deficientes físicos e mentais, e por aí afora. Do outro lado o pobre sujeito, aflitíssimo, tenta explicar a Borat que a onda politicamente correta o impede de rir de certas piadas.

Um exemplo? Em certo momento do papo com o comediante, Borat lhe pergunta se os norte-americanos costumam rir de retardados mentais. “Na América, tentamos não fazer piadas sobre coisas que as pessoas não podem escolher”, responde o sujeito, suando frio. Borat não desiste: “Talvez você não tenha conhecido ninguém com uma deficiência muito engraçada. O meu irmão, Billok, tem uma deficiência dessas. Às vezes, minha irmã mostra a vagina ao meu irmão e ele fica doido na jaula dele”, explica, sorrindo ingenuamente. Constrangido, o humorista tenta então explicá-lo porque uma piada dessas não seria aceita nos EUA. Há outras seqüências geniais, incluindo uma em que Borat faz os apresentadores saírem do sério, ao vivo, numa TV local do Alabama, e também um jantar hilariante na casa de uma senhora especialista em etiqueta.

“Borat” só não é perfeito porque o diretor, Larry Charles, tenta dar um fio condutor dramático à segunda metade, alongando demais algumas seqüências ficcionais que perdem a graça simplesmente porque a platéia sabe da farsa. Além disso, o humor é mais grosseiro e nojento, ao estilo “Jackass”. Um bom exemplo é a luta de Borat com o empresário, nus dentro de um hotel. A edição perde minutos preciosos mostrando-os imitando poses sexuais, enquanto deveria enfatizar o encontro de ambos com os demais hóspedes, andando pelados pelos corredores. O instante em que Borat finalmente encontra com Pamela Anderson, por quem ele se “apaixonou” depois de ver um episódio do seriado “Baywatch” na TV, também é meio sem graça.

Aparentemente, “Borat” tornou-se o filme certo na hora certa, trazendo de volta um saudável toque de irreverência que andava sumido das comédias engravatadas produzidas por grandes estúdios, sempre bem-comportadas. Após o atentado de 11 de setembro de 2001 (que o personagem atribui aos judeus, aliás, numa das inúmeras piadas que podem deixar representantes da raça bastante irritados – é bom que saibam que Cohen, como o nome indica, é judeu), praticamente todas as produções que enveredavam por alguma incorreção política foram banidas dos cinemas, e foi aproveitando exatamente o nicho aberto por esta ausência, aliada à ignorância quase inata de parte do povo dos EUA que mora fora dos grandes centros, que “Borat” construiu seu sucesso.

De qualquer forma, o método incomum de filmar pegadinhas escondendo a natureza ficcional do personagem trouxe alguma dor de cabeça para Sacha Baron Cohen. Praticamente todas as pessoas entrevistadas processaram os produtores após a estréia do longa-metragem, incluindo a prefeitura da cidade romena onde as cenas que se passam no Casaquistão foram filmadas – a produção ganhou quase todos os processos, pois teve o cuidado de pedir documentos de autorização de imagem a cada indivíduo mostrado na tela. Além disso, muitos outros processos foram abertos em vários lugares de mundo (Alemanha, Itália, Espanha), por grupos de ativistas políticos que representam minorias, como ciganos, judeus e homossexuais, todos alvos de brincadeiras (pesadas, em alguns casos) durante o longa-metragem.

É provável que, diante do impacto fulminante de “Borat” na cultura pop, os responsáveis pela produção estejam considerando as manifestações de repúdio como publicidade gratuita. De qualquer forma, é uma situação que traz à tona um debate interessante sobre um tema espinhoso, que é a ética das pegadinhas: até que ponto um artista tem o direito de se passar por outra pessoa com o intuito de fazer chacota, e ainda por cima filmar o ato? Gravar uma pegadinha em vídeo é ferir a intimidade de uma pessoa? A reflexão sobre este tema é válida e importante, embora não mude o fato de que “Borat” é, sim, muito engraçado – desde que você não seja um fã de filmes politicamente corretos. Se for o caso, melhor nem tentar ver.

O DVD da Fox traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras principais são uma galeria de hilariantes cenas cortadas (oito, com quase 30 minutos ao todo) que mostram Borat indo ao médico, ao massagista e tentando comprar um cachorro. Há ainda um featurette bacana (16 minutos) com cenas engraçadas da tour internacional de promoção do filme. Tudo com legendas em português.

– Borat (EUA, 2006)
Direção: Larry Charles
Elenco: Sacha Baron Cohen, Ken Davitian, Pamela Anderson
Duração: 84 minutos

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