Branca de Neve e os Sete Anões

30/09/2009 | Categoria: Críticas

Primeiro longa-metragem de animação da história do cinema ganha DVD duplo restaurado que comprova a genialidade de Walt Disney

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Era uma vez uma linda princesa, cuja beleza radiante ofuscava tanto uma invejosa rainha que ela mandou matá-la. Mas a princesa fugiu e se escondeu numa floresta habitada por sete anões muito engraçados, num reino distante. Todo mundo conhece essa história, claro. Branca de Neve não é nova: data do século XIX e foi escrita pelos irmãos Grimm, mas tornou-se verdadeiramente popular depois que um visionário, misto de cineasta e homem de negócios, a transformou no primeiro longa-metragem de animação da história do cinema. O filme, chamado “Branca de Neve e os Sete Anões” (Snow White and the Seven Dwarfs), foi feito em 1937, mas continua atual. Em DVD, ele está disponível numa espetacular edição dupla, recheada de extras.

O trabalho, restaurado quatro vezes durante os últimos vinte anos, é obra seminal para amantes dos desenhos animados e para estudiosos na tecnologia do cinema de animação. Além disso, somos premiados porque podemos escutar o próprio Walt Disney comentando sua obra, numa antológica faixa de comentário em áudio que pode ser acessada durante todos os 87 minutos de duração do filme.

Os mais céticos poderiam perguntar como a faixa de áudio com Walt Disney foi possível, já que o criador morreu em 15 de dezembro de 1966, de câncer de pulmão. Simples: todo o legado do criador foi cuidadosamente preservado pelo irmão e administrador dos estúdios Disney, Roy. Assim, o historiador cinematográfico John Canemaker pôde selecionar os melhores trechos de dezenas de horas de gravações que Disney deixara, contando toda a novela que foram os três anos de produção do longa. Intercalando a voz do criador com o próprio e respeitado testemunho sobre as inovações tecnológicas do desenho animado, Canemaker compôs uma das mais fascinantes faixas de áudio que o formato do DVD já produziu até hoje.

E isso é apenas o começo. No disco, os espectadores ainda podem ver com um documentário de 40 minutos, que intercala entrevistas (do irmão Roy, de historiadores, dos dubladores originais e de vários desenhistas que trabalharam no filme), imagens da estréia de gala do filme, na Los Angeles de 1937, inúmeros testes de animação, cenas cortadas. Para os mais fanáticos, há ainda um clipe da canção mais famosa do longa, “Some Day My Prince Will Come”, interpretada por Barbra Streisand, e um jogo interativo para crianças, onde o espectador pode passear numa mina com o anão Dunga, o mais simpatico e adorado pelos guris.

De quebra, há ainda um curta-metragem animado de 1934, chamado “A Deusa da Primavera”, onde muitas das técnicas inovadoras (como uma câmera de múltiplos ângulos, que permitia dar profundidade e sombras ao desenho) criadas para o filme foram testadas pela primeira vez. Os desenhos são tão toscos que fica difícil crer que, três anos depois, Walt conseguiria lançar um produto bem acabdo como “Branca de Neve”.

Além disso, tanto o vídeo quanto o áudio sofreram remasterizações completas e aparecem numa qualidade nunca antes vista. É importante dizer que em 1934, quando Disney reuniu seus animadores num jantar e apresentou-os ao projeto pela primeira vez, ninguém jamais havia tentado fazer um longa metragem de animação antes. A tecnologia para criá-lo também não existia naquela época.

Para fazer tal proeza, Disney levou três anos, vendeu o carro e teve que empenhar o estúdio recém-criado para levantar um empréstimo capaz de bancar o total de US$ 1,5 milhão (uma fortuna, na época), necessário para o lançamento. Tudo bem: meses depois, mais de 20 milhões já haviam assistido ao desenhos, Walt faturara oito Oscar (sete mini-estatuetas e um troféu dourado em tamanho natural) e estava construindo o maior de todos os estúdios da Hollywood da época. Era o pontapé inicial numa carreira mitológica e enigmática, que encantaria crianças de todas as idades, renderia um punhado de obras primas (“Pinóquio” e “Fantasia”, apenas para citar dois dos mais famosos) e outro tanto de acusações de racismo e anti-semitismo. Personalidades enigmáticas são misteriosas assim mesmo. E isso não empana o brilho de “Branca de Neve e os Sete Anões”,

O primeiro longa de animação da história permanece tão atual quanto na época em que foi produzido. A qualidade dos desenhos é excepcional, e a narrativa, simples e encantadora. A animação, em particular, consegue impressionar por explorar dois extremos visuais quase incompatíveis – as cenas coloridas e ensolaradas em que Branca de Neve conhece os anões e o sombrio, quase assustador, ataque da rainha má à princesa. Nessa última cena, Walt Disney utilizou os animais da floresta como recurso narrativo e organizou uma montagem paralela criativa, quando os anões correm para tentar impedir a tragédia que se desenrola, num outro arco da narrativa. É a seqüência mais acelerada do longa-metragem, e foi copiada inúmeras vezes depois, o que comprova o quanto Walt Disney estava à frente de seu tempo.

Preste atenção: há duas versões do DVD disponíveis no Brasil. A mais antiga, simples, tem imagem com enquadramento correto (proporção 1.33:1) e áudio em dois canais (Dolby Digital 2.0). A mais recente, lançada em 2009, é a dupla. Corra atrás.

– Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, EUA, 1937)
Direção: Walt Disney
Duração: 83 minutos

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