Bravura Indômita

11/02/2011 | Categoria: Críticas

Western dos irmãos Joel e Ethan Coen celebra a beleza dos diálogos e é um primor de economia narrativa e sobriedade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A trajetória é bastante comum. Quando jovens, pessoas muito talentosas sentem compulsão para mostrar logo, a todos, o tamanho desse talento. Então, se tornam exibicionistas. Guitarristas solam cada vez mais rápido, jogadores de futebol driblam até colegas de time. Para diretores de cinema, essa abordagem consiste em incluir nos filmes a maior quantidade possível de truques de montagem, edição de som e por aí adiante. Chega um momento, porém, que a ficha cai. De repente, eles se dão conta de que não precisam mostrar todo o repertório de uma vez só – e é nesse momento que o melhor que possuem dentro de si aflora com naturalidade. Com “Bravura Indômita” (True Grit, EUA, 2010), os irmãos Joel e Ethan Coen confirmam que estão navegando nesse ponto de equilíbrio tão raro. O filme celebra a beleza da prosa simples e é um primor de economia narrativa e sobriedade. Ou seja, puro talento.

De certo modo, essa constatação surge como uma surpresa. Não que o talento dos os irmãos Coen estivesse em questão. É que, apesar da obra extensa e fartamente qualificada, incluindo um punhado de filmes literalmente perfeitos (“Onde os Fracos Não Têm Vez”, “Fargo”, “O Grande Lebowski”), o projeto em si mais parecia uma teimosia exótica da dupla que, agraciada há pouco com o Oscar, podia se dar ao luxo de refilmar um western relativamente recente (1969) apenas pelo prazer de trabalhar com um gênero fílmico do qual ambos são e sempre foram fãs confessos. Ao assistir ao resultado final da aventura, porém, é preciso dar o braço a torcer: os irmãos não apenas sabiam exatamente aonde queria chegar, mas conseguiram melhorar o que já era ótimo e produzir um clássico tardio do gênero. “Bravura Indômita” é, talvez, o melhor exemplar do gênero desde que Clint Eastwood lançou “Os Imperdoáveis” (1992). Talvez até mesmo o supere.

Para começar, a intenção dos diretores nunca foi refilmar a obra de Henry Hathaway, mas sim resgatar aspectos do romance original de Charles Portis (1968) que tinham sido sublimados na primeira versão, sobretudo a aridez da prosa seca do escritor. Esse objetivo foi cumprido a risca, com o rigor e a disciplina narrativa característica dos dois Coen: os diálogos concisos, econômicos, repletos de frases curtas e tingidos de um humor feroz, e que consistem num dos principais elementos da construção narrativa, foram transplantados diretamente do livro, assim como a narração em off esparsa, impregnada do caráter estóico cultivado pelos personagens de todos os grandes westerns da primeira metade do século XX (operação que, de quebra, dá ao filme o ponto de vista da personagem da garota, algo que também é fundamental para o sucesso da empreitada).

Com diálogos assim, bons atores sempre se deleitam – e os irmãos Coen conseguiram reunir uma trupe respeitável, liderada pelo inspirado Jeff Bridges e que conta, ainda, com o sempre eficiente Matt Damon (aqui se esforçando para abandonar o estilo minimalista e encorpar um patrulheiro almofadinha), como os bons John Brolin e Barry Pepper (este último num papel de vilão caricato, se divertindo a valer) e com a grata surpresa Hailee Steinfield, estreante de 13 anos que assume a responsabilidade de narradora com a desenvoltura e a personalidade forte de um veterano. A química entre todos eles é impecável, e gera cenas que transitam entre o humor (sempre com um toque de absurdo kafkiano) e a tensão bruta, que corta o ar como uma faca.

O roteiro enxuto expurga da trama todas as cenas que poderiam estar ali apenas para ajudar na caracterização dos personagens. Observe, por exemplo, o delicioso embate verbal entre a adolescente Mattie Ross (Steinfield), que sai de casa aos 14 anos decidida a vingar o assassinato do pai, e o comerciante que vendeu a ele os cavalos que se tornariam motivo do crime. É um momento definidor da personalidade tenaz, da inteligência arguta e do estoicismo da menina (traço que todos os demais personagens, inclusive os vilões, compartilham entre si, como nos grandes westerns clássicos). Mas também possui a função de ligá-la ao rabugento caçador de recompensas Rooster Cogburn (Bridges), veterano alcoólatra e barrigudo que ela contrata – após mais uma série de discussões divertidíssimas – para perseguir Tom Chaney (Brolin), o ex-empregado que matou seu pai. Matt Damon, na pele do policial LaBoeuf, entra na trama um pouco mais tarde.

Há momentos antológicos de montão: os diversos embates verbais entre Bridges, Damon e Steinfield; o sensacional tiroteio noturno no primeiro encontro com a gangue de ladrões, filmado com categoria exemplar pela câmera sempre mágica de Roger Deakins, um dos grandes mestres da luz do cinema contemporâneo; e a incrível seqüência do confronto final, assustadoramente realista. Joel e Ethan Coen filmam essa história de vingança relativamente convencional (o único elemento extraordinário é a presença da adolescente) com a mesma simplicidade dos diálogos: respeitando os cenários amplos e os espaços abertos, valorizando a composição cuidadosa dos personagens através dos figurinos e da caracterização dos atores (aprendemos muita coisa sobre Rooster simplesmente olhando como se veste, como anda, como fala e mesmo como respira), dando tempo para que possamos ouvir e apreciar as singularidades do sotaque e do vocabulário peculiares da Oklahoma do final do século XIX, onde a história se passa.

De muitas maneiras, “Bravura Indômita” funciona como um filme-irmão de “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007). Compartilha com o vencedor do Oscar 2008 os cenários do meio-oeste americano; possui uma montagem clássica, invisível, que valoriza a integração entre o homem e a terra, um dos temas centrais do western; tem origem na literatura e procura respeitar o texto original, além de transformar os diálogos pontuados por substantivos no eixo central da narrativa; foi um sucesso de público (de fato, “Bravura Indômita” faturou US$ 160 milhões nos Estados Unidos e se transformou não apenas no filme mais bem sucedido dos irmãos Coen, mas também no western de maior bilheteria em todos os tempos).  Não seria nenhum exagero dizer que ele se junta ao longa de 2007 como uma das melhores realizações de dois dos autores mais importantes do cinema americano atual.

– Bravura Indômita (True Grit, EUA, 2010)
Direção: Joel e Ethan Coen
Elenco: Jeff Bridges, Hailee Steinfield, Matt Damon, Josh Brolin
Duração: 110 minutos

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