Bridget Jones: No Limite da Razão

13/04/2005 | Categoria: Críticas

Segunda aventura da jornalista desbocada descamba para o besteirol e termina como mera repetição de fórmula

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A primeira aventura de Bridget Jones no cinema estabeleceu uma fórmula bem-sucedida, resultado de uma soma de fatores calculadamente previsíveis: 1) roteiro leve, enfatizando sempre as confusões provocadas pela sinceridade desconcertante da protagonista; 2) triângulo amoroso formado com dois sujeitos que toda mulher gostaria de beijar (um, sisudo e romântico, o cara que toda mãe quer como genro; outro, um canalha bom de papo); 3) trilha sonora cheia de pérolas pop vintage (ou seja, coisas que já foram cafonas e viraram bacanas). “Bridget Jones: No Limite da Razão” (Bridget Jones: The Edge of Reason, Inglaterra, 2004), a primeira continuação, segue o mesmíssimo rumo do filme número 1, com tudo o que isso tem de bom e de ruim (principalmente ruim).

Este é um blockbuster incomum. A rigor, a fórmula “Bridget Jones” faria mais sentido de fosse aplicada a uma série de TV, pois a estética dos filmes (enquadramentos de câmera quase sempre fechados, edição veloz, poucas tomadas em cenários externos, enredo formado por conjuntos de esquetes mais ou menos soltos, personagens superficiais e pouco trabalhados, roteiro abundante de diálogos) é muito mais adequada à tela pequena. Para os brasileiros, seria como se “Os Normais” surgisse diretamente no cinema. Aliás, é muito interessante ver que os críticos brasileiros não fazem nenhuma menção a esse problema. Os filmes de Bridget Jones são muito mais TV do que os filmes de Guel Arraes, mas as produções nacionais é que ganham pauladas por causa disso. Talvez, no fundo, crítico brasileiro veja mesmo o cinema da própria terra com um sentimento de inferioridade.

Sim, mas o que há de incomum em “Bridget Jones”, a série, é justamente o orçamento alto. Culpa do grande sucesso do primeiro filme da grife, cujos méritos foram debitados quase integralmente na conta da atriz Renée Zellweger. O resultado de tanta paparicação é que o salário de Renée bateu na casa dos US$ 20 milhões, o que transformou a produção em blockbuster. Para poder pagar os salários e manter o resto do elenco original, foi preciso fazer cortes em outros setores. Resultado: sai a eficiente diretora Sharon Maguire, entra a fraquíssima Beeban Kidron. É ela a culpada por parte dos pecados de “Bridget Jones: No Limite da Razão”.

Mais uma vez, o filme se dedica a narrar um ano completo na vida da desbocada jornalista inglesa. “No Limite da Razão” começa seis semanas após os eventos descritos no final do primeiro filme. Bridget engatou um namoro firme com o advogado Mark Darcy (Colin Firth). Está fazendo sucesso com suas matérias pitorescas na TV, e agora ganhou um concorrente de peso, pois ex-chefe e ex-caso Daniel Cleaver (Hugh Grant) apresenta um programa turístico na mesma empresa que ela. Ainda tem problemas com o peso, não conseguiu largar o cigarro, e sua incontinência verbal continua lhe metendo em confusões.

Justiça seja feita, “Bridget Jones: No Limite da Razão” não é de todo ruim. O ritmo demora um pouquinho a engrenar, mas o roteiro ainda traz boas sacadas no início. E os elementos da “fórmula Jones” ajudam: músicas pop grudentas pipocam aqui e acolá, com as letras ajudando a narrar as situações de sufoco da protagonista. O público femino, que se identifica com Bridget até a medula, é atingido em cheio e dificilmente resiste. Mas, por baixo do verniz de novidade, há algo de podre no reino da Dinamarca. Há trechos irregulares, até enfadonhos. Como eles são raros, o filme ainda funciona. Pelo menos até a metade, quando a jornalista pisa na Tailândia, para fazer uma matéria. Ali, no país asiático, o filme simplesmente desaba. Vou explicar o porquê.

No cinema, existe um elemento chamado “suspensão da descrença”. Esse elemento é composto de situações impossíveis, na vida real, que precisam ser narradas com perícia para que, durante a projeção de um filme, o público as aceite como momentaneamente possíveis. Um bom exemplo é a série do Homem-Aranha: se a platéia não acreditar, pelo menos durante duas horas, que a mordida de uma aranha geneticamente modificada pode levar alguém a escalar paredes, o filme não funciona. O fato é que a chegada de Bridget Jones na Tailândia ignora o conceito e o filme perde totalmente a credibilidade, porque fica simplesmente impossível aceitar as bobagens que o roteiro nos reserva. O longa-metragem toma um rumo inacreditável, quase como se o diretor pedisse que você esquecesse todo o tom realista dos primeiros 60 minutos e embarcasse numa trip de chá (ou omelete) de cogumelos em que tudo é banhado a ouro.

Como tudo isso acontece? É óbvio quando se está no cinema, vendo acontecer, mas não dá para contar muito aqui, ou posso acabar revelando demais sobre o enredo. Basta dizer que, em certo momento da projeção, Bridget vive uma situação digna de dramas pesados como “O Expresso da Meia-Noite”, mas tudo encarado da maneira mais engraçada e simplória possível. Se fosse um besteirol, tudo bem. Não é o caso, e a platéia continua sendo solicitada a dar risinhos enquanto tudo na vida da personagem implode horrivelmente. Quem conhece razoavelmente de cinema vai estranhar, e tavez lembrar do personagem sofrido de Brad Davis, no filme citado acima. Neste momento, a “suspensão da descrença”, que me estava sendo pedida desde o começo do filme, pára de fazer sentido. O resultado: piadas sem graça, situações inverossímeis e um filme artificial, de plástico.

Claro que, até chegar a esse ponto, mais da metade da projeção já havia transcorrido, de maneira acima da média. O salário de Zellweger é absurdo, mas a atriz faz cada centavo valer a pena, estilando carisma e mostrando sotaque londrino perfeito. O estilo cafajeste de Hugh Grant também é delicioso. Todo o elenco de apoio, incluindo um mal-aproveitado Jim Broadbent, dá consistência à trama principal. “Bridget Jones: No Limite da Razão” poderia ser um filme no mesmo nível do primeiro exemplar da franquia, se os produtores não houvessem economizado onde não podiam. Melhor sorte da próxima vez.

O DVD é simples, mas com bastante material. Para começar, imagem no formato original widescreen e áudio Dolby Digital 5.1. Entre os extras, há um comentário em áudio de Beeban Kidron, um jogo de trívia e um pacote de quatro cenas cortadas com introduções da diretora. Há cinco featurettes: um pequeno documentário sobre a relação Bridget-Mark, dois sobre as viagens da equipe a Áustria e Tailândia, um sobre Londres. O mais interessante traz uma entrevista feita por Bridget com o verdadeiro Colin Firth (a piada funciona quando se sabe que, nos livros, a garota o vê como modelo ideal de homem, algo que não ocorre nos filmes). Material generoso para quem curtiu o filme.

– Bridget Jones: No Limite da Razão (Bridget Jones: The Edge of Reason, Inglaterra, 2004)
Direção: Beeban Kidron
Elenco: Renée Zellweger, Colin Firth, Hugh Grant, Jim Broadbent
Duração: 108 minutos

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