Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

07/02/2005 | Categoria: Críticas

Charlie Kaufman entrega um filme intimista, que pode ser doce ou amargo, mas jamais raso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Se Pauline Kael estivesse viva, provavelmente estaria na linha de frente dos defensores de Charlie Kaufman e do belíssimo filme “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, EUA, 2004). Kael, talvez a crítica de cinema mais renomada dos anos 1960/70 nos EUA, causou enorme polêmica ao publicar, em 1971, um ensaio intitulado “Raising Kane” (no Brasil, “Criando Kane”, disponível em livro da editora Record). Em linhas gerais, o texto de Pauline Kael minimizava o papel de Orson Welles na criação e planejamento da obra-prima “Cidadão Kane”. Ali, ela defendia publicamente a premissa escandalosa de que, em um cinema de aspirações artísticas e não comerciais, era o roteirista (naquele caso, Herman Mankiewicz), e não o diretor, o verdadeiro responsável pelo toque autoral de um filme.

Em 1971, a declaração caiu como uma bomba no mundo do entretenimento. Desde o aparecimento dos críticos da revista Cahiers Du Cinema, na França, em fins da década de 1950, nenhum estudioso aparecia com uma teoria original sobre a questão da autoria. Os franceses foram os primeiros a defender que o cinema era uma arte, e seu artista era o diretor. Kael contrapunha a essa a lógica de que o cinema era um tipo de arte coletiva, que devia tanto ao roteirista quanto ao diretor. Infelizmente, por razões diversas que não cabem nesta crítica, nos anos seguintes Hollywood tratou de enterrar a teoria de Kael em um amontoado de filmes que parecem dirigidos por robôs. Agora, em pleno século XXI, aparece alguém capaz de trazer à tona novamente a teoria de Pauline Kael.

Esse alguém é Charlie Kaufman. Dentro de Hollywood, Kaufman é hoje o único roteirista com cacife suficiente para atrair o interesse de estúdios e atores milionários. “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” é o tipo de trabalho que se espera da cabeça do autor de “Quero Ser John Malkovich” e “Adaptação”, dirigidos em 1999 e 2002 por Spike Jonze. Em uma palavra, os filmes que surgem da pena de Charlie Kaufman são disléxicos. Ou seja, seguem uma lógica anti-convencional, e nutrem um saudável desprezo pela narrativa convencional, aquela com começo, meio e fim claramente definidos.

“Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” se passa dentro do universo surreal criado por Charlie Kaufman, mas vai um passo à frente em relação aos filmes anteriores que ele escreveu. Tem personagens mais ricos, mais complexos, mais velhos. A narrativa fragmentada deixa claro que o filme escrito pelo mesmo sujeito que deu ao mundo a bizarrice de “Quero Ser John Malkovich”, só que ele agora virou um sujeito mais vivido. “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” está impregnado de experiência humana. É um filme que tem vida, que tem sangue, entranhas e cérebro. Oferece à platéia uma gama completa de emoções humanas: faz rir, chorar, emociona e surpreende. E isso é muito raro.

Joel Barish (Jim Carrey) é um sujeito introvertido, tímido e certinho. Clementine Kruczynski (Kate Winslet), com seus cabelos coloridos e suéter laranja, é o outro lado da moeda: atrevida, atirada, tagarela. Os dois parecem dar certo como casal, mas na prática – quem está vivo sabe como é – a coisa não funciona bem assim. Um dia, durante um rompimento casual, Joel descobre que Clementine se submeteu a um tratamento para apagar da memória todas as lembranças dele. Enfurecido, ele decide fazer a mesma coisa e eliminá-la da própria mente. Vai à clínica que fez o trabalho e assina o contrato. Durante o processo, no entanto, percebe que ainda a ama, e não deseja de verdade perder essas lembranças.

Esse fiapo de trama dá partida a um verdadeiro labirinto narrativo, em que o brilhante texto de Charlie Kaufman consegue fazer melhor algo que já havia tentado em “Quero Ser John Malkovich”: entrar no cérebro de alguém e acompanhar o processo dos seus pensamentos e lembranças. O trabalho do diretor francês Michel Gondry, nesse caso, é simplesmente traduzir as maluquices de Kaufman em imagens. O cineasta faz isso com eficiência, usando efeitos especiais sem exageros e montagem criativa. Gondry acerta ao apoiar o centro emocional do filme em um protagonista excepcionalmente bem construído. Jim Carrey assume os olhares erráticos do travado Joel, mostrando de uma vez por todos que pode ser um ator dramático de grande estatura.

Kate Winslet acompanha a performance do parceiro e dá a Clementine o tom de histeria que ela precisa para funcionar. Mark Ruffalo, Elijah Wood, Kirsten Dunst e Tom Wilkinson são coadjuvantes responsáveis por uma inteligente trama paralela, que dá ao espectador a chance de respirar um pouco diante do pesado acerto de contas emocional dos outros dois. Kaufman, como um Dédalo pós-moderno, monta um labirinto aparentemente inescapável, que tem a ameaça de um Minotauro, mas também a esperança de uma Ariadne. É lindo – mas como tudo que é belo, exige esforço.

É difícil apontar qualquer defeito em um filme que cruza de maneira perfeita algumas das características mais importantes de dois grandes ícones literários do século XX: Philip K. Dick e James Joyce. Do primeiro, o filme retira a obsessão com a memória e a importância da boa relação do ser humano com seu subconsciente para atingir um estado de felicidade, paz de espírito (chame como quiser). Do segundo, vem a tentativa de traduzir em uma narrativa lógica os processos mentais de um indivíduo comum. O resultado é um filme intimista, que pode ser doce ou amargo, mas jamais raso.

O DVD de “Brilho Eterno” é muito bom, apesar do horr'[ivel menu estático e sem som que o inicia. Tem comentário em áudio de Gondry e Kaufman (com legendas em português), um documentário curto (11 minutos) com cenas de bastidores e pequenas entrevistas, mais um featurette (15 minutos) mostrando uma longo bate-papo com Jim Carrey e Michel Gondry, uma galeria de cenas excluídas (7 minutos), o comercial da empresa Lacuna (hilariante) e um vídeo-clip, além do trailer obrigatório. E o melhor: filme com corte original (widescreen anamórfico) e som Dolby Digital 5.1, de ótima qualidade.

– Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, EUA, 2004)
Direção: Michel Gondry
Elenco: Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst, Mark Ruffallo
Duração: 108 minutos

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