Brinquedo Proibido

24/06/2005 | Categoria: Críticas

René Clemént mostra conseqüências da guerra, do ponto de vista de crianças, em filme impressionante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Filmes de guerra costumam denunciar os horrores dos conflitos mostrando, como protagonistas, pessoas envolvidas neles de forma direta. Em geral, são soldados e oficiais que enfrentam situações violentas ou civis que participam de episódios específicos de batalhas. Há outro tipo de filme de guerra, no entanto: aquele que busca uma abordagem indireta, enfocando maneiras como ela afeta a vida cotidiana das pessoas. “Brinquedo Proibido” (Jeux Interdits, França, 1952), do diretor francês René Clement, faz parte desse subgênero.

Clément realizou um filme situado na época da ocupação francesa pelos nazistas, em 1940, mas preferiu não mostrar batalhas. A abordagem de Clément é outra, mais afetiva e certamente original. O cineasta pouco mostra a guerra, em si, preferindo filmar do ponto de vista de duas crianças obrigadas a lidar com as conseqüências dela sem, contudo, compreendê-las. A crítica Pauline Kael chamou o filme de “belo e dilacerante”; é difícil imaginar palavras mais adequadas para descrever esse libelo poderoso contra a guerra, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1952.

A personagem principal de “Brinquedo Proibido” é a garotinha Paulette (Brigitte Fossey), de apenas 5 anos. Ela está saindo de Paris com os pais, na abertura do filme, quando um ataque aéreo alemão à comitiva maltrapilha de fugitivos mata os dois adultos. Paulette consegue escapar ilesa, mas não tem para onde ir. Acaba caminhando pelo pasto de uma fazendo nos arredores, com o cachorrinho morto nas mãos, onde é encontrada por outra criança, Michel (Georges Poujouly), filho de camponeses locais.

Solitário por causa do medo da guerra e das brigas dos pais com os vizinhos, Michel logo se apega a Paulette, e vice-versa. Juntas, as duas crianças vão aprender a lidar com as conseqüências da guerra, como a presença constante da morte. A primeira providência da menina, quando descobre que não tem meios de rever os pais, é arranjar um enterro decente para o cão morto. Michel o enterra num velho moinho abandonado. As crianças têm então a idéia de criar um cemitério de animais no local. Precisam arranjar “vítimas” e cruzes para decorar as pequenas covas que escavam.

Obviamente, o filme é uma alegoria. René Clément consegue ilustrar o ponto de vista dos pequenos com uma perfeição que seria, muitos anos depois, fonte de inspiração para outro diretor, especialista em filmes envolvendo crianças, Steven Spielberg (não seria ousadia apontar o paralelo entre a obra de Clément e “Império do Sol”). O diretor de “Brinquedo Proibido” filma diversas cenas, por exemplo, com a câmera posicionada de baixo para cima, ajudando a ilustrar para o espectador a maneira – literal – como as crianças vêem o mundo. O recurso foi utilizado por Spielberg em “E.T.”, a fim de permitir que a platéia se identificasse com as crianças. Clément consegue isso de forma sutil, mas firme.

Na verdade, o diretor trilha um caminho perigoso. Ele fez um filme que se equilibra perigosamente entre dois enfoques que poderiam ter arruinado o trabalho. Seria fácil, por exemplo, fazer um drama piegas e melodramático em excesso, caso apostasse em enfocar os problemas das crianças seguindo os olhos sentimentais de um adultos. O diretor não consegue fugir desse recurso nas seqüências de abertura (o bombardeio que deixa a menina órfã) e de encerramento (que não vou revelar, mas deixam lágrimas nos olhos de qualquer um que tenha um coração), mas evita com sabedoria o tom lacrimoso que poderia comprometer o cerne do filme.

Por outro lado, “brinquedo Proibido” também não é um filme-denúncia que apresenta, uma após outra, cenas envolvendo a dor de uma criança. O filme ficaria pesado e insuportável se assim o fosse. A estratégia de Clément é filmar a jornada da menina Paulette com leveza e bom-humor. Assim, ele cria uma trama secundária que corre em paralelo – a família que adota a garota é inimiga mortal dos vizinhos – e fica responsável pelos momentos de sátira e bom-humor da produção.

Além de tudo isso, a platéia também pode contar com dois excelentes desempenhos da dupla de crianças, representada pelos atores mirins Georges Poujouly e Brigitte Fossey. Todo mundo sabe que dirigir crianças não é algo que todo diretor sabe fazer, mas Clément se incumbe da tarefa com competência; as crianças enfrentam tanto seqüências cômicas quanto dramáticas com desenvoltura, o que ajuda a transformar “Brinquedo Proibido” em um pequeno clássico do cinema de guerra, infelizmente menos conhecido do que deveria.

Essa situação pode mudar, pelo menos no Brasil, com o lançamento pela Aurora DVD. O filme está em um disco simples, que mantém a trilha de áudio em francês no formato Dolby Digital 2.0 e também preserva o enquadramento original, fullscreen (proporção 4×3). Entre os extras, há apenas notas de produção. O filme é preto-e-branco.

– Brinquedo Proibido (Jeux Interdits, França, 1952)
Direção: René Clément
Elenco: Georges Poujouly, Brigitte Fossey, Laurence Badie, Suzanne Courtal
Duração: 82 minutos

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