Brown Bunny

19/12/2007 | Categoria: Críticas

Vincent Gallo conta, de modo contemplativo e sem pressa, uma linda e triste história de amor anti-convencional

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A primeira sessão pública de “Brown Bunny” (EUA/Japão/França, 2003) aconteceu durante o Festival de Cannes. Boa parte da platéia, que incluía dezenas de críticos de cinema, abandonou a sessão antes do filme. Roger Ebert, o mais conceituado crítico do mundo, deu entrevista à TV na saída e classificou a obra de Vincent Gallo como “o pior filme já mostrado na história do evento” (a declaração gerou um longo bate-boca com o cineasta, que reagiu com grosseria). Os adjetivos se espalharam em jornais e revistas de cinema: lento, soporífero, arrogante, auto-indulgente, chato, incompreensível. À enorme repercussão negativa se somou um segunda polêmica, ainda maior, relacionada a uma longa seqüência em que a atriz Chloë Sevigny (“Melinda e Melinda”) faz sexo oral explícito no diretor.

As duas polêmicas prejudicaram bastante a carreira internacional da produção, mesmo depois que o próprio Gallo reconheceu as críticas iniciais, tendo retornado à sala de montagem para retirar quase 30 minutos da versão mostrada em Cannes – e vale observar que o mesmo Ebert viu a nova edição e escreveu uma nova crítica, desta vez elogiando o resultado final. É uma pena que tudo isso tenha acontecido. Para sempre, “Brown Bunny” vai ficar conhecido como “o filme do boquete”, ou como “o pior filme da história de Cannes”. Pura injustiça. O longa-metragem conta, de modo contemplativo e sem pressa, uma linda e triste história de amor anti-convencional, que acaba se transformando num magnífico estudo sobre a culpa.

Claro, não é um filme para grandes platéias, tanto que faturou míseros trezentos mil dólares nos Estados Unidos, contra US$ 10 milhões gastos na produção. Trata-se de uma obra extremamente pessoal, que não faz qualquer concessão a convenções narrativas clássicas. O objetivo de Gallo – que não apenas atua e dirige, mas também assina roteiro, fotografia, produção, montagem e direção de arte – era fazer um filme confessional, que procurasse capturar a alienação, o desolamento, a dor, a tristeza extrema de alguém que sofre uma grande perda. Gallo não queria verbalizar a situação, mas evocar as sensações que todos nós sentimos quando passamos por situações de perda. É por isso que “Brown Bunny” é lento, contemplativo e quase não tem diálogos. O filme atinge perfeitamente o seu objetivo.

Na realidade, a obra também poderia ser descrita como um road movie. Ao longo da projeção, acompanhamos a viagem do motociclista profissional Bud Clay (Gallo) rumo a Los Angeles, onde vai disputar uma prova. Ele é um homem claramente angustiado. Aos poucos, vamos descobrindo que a razão de tanta dor se chama Daisy (Sevigny), a ex-mulher. Na viagem pelos vastos desertos empoeirados da região – a paisagem é uma bela metáfora visual para o estado de espírito do motoqueiro – ele encontra algumas garotas, todas com nome de flor. Tenta, mas não consegue se relacionar com nenhuma delas. O assunto com Daisy continua inacabado, e Bud Clay ainda precisa ajustar as contas com ela para poder seguir seu caminho.

A cinematografia de “Brown Bunny” é bem incomum, assim como o andamento. Gallo filmou em 16mm (formato semi-profissional) e em condições inadequadas de luz, às vezes operando a câmera por controle remoto, de forma que as composições visual são meio oblíquas, esquisitas. A opção por tomadas longas – a média do filme é de 18 segundos por plano, quando a maioria dos filmes contemporâneos fica ao redor de 5 –enfatiza ainda mais o caráter contemplativo da obra. O uso da música é esparso e inteligente. Quando há canções, as letras têm a função de comentar a narrativa e acentuar o caráter melancólico da história.

Por fim, a célebre seqüência de sexo explícito não é nem um pouco gratuita, e se integra perfeitamente à história. Vista dentro do contexto do filme, não evoca nenhum tesão – pelo contrário, é um momento tristíssimo, capaz de fazer chorar mesmo. A atuação corajosa de Chloë Sevigny, que a transformou em atriz maldita e a fez perder empregos em outras produções, é delicada e cheia de nuances, assim como o ar frágil e macilento de Gallo (repare nos olhos infantis do rapaz quando ele implora para que uma garota siga com ele em determinado trecho da viagem) combina perfeitamente com o personagem fantasmagórico que ele interpreta. No fim das contas, “Brown Bunny” é uma pungente visão pessoal do amor e da culpa, e um filme muito triste e bonito para quem souber ver por trás das polêmicas.

O DVD nacional, da Europa Filmes, não traz extras. A qualidade de imagem (widescreen letterboxed) e áudio (Dolby Digital 2.0) é razoável. O disco contém uma versão do filme no formato mp4, para ser vista em players portáteis do tipo iPod.

– Brown Bunny (EUA/Japão/França, 2003)
Direção: Vincent Gallo
Elenco: Vincent Gallo, Chloë Sevigny, Cheryl Tiegs, Elizabeth Blake
Duração: 89 minutos

| Mais


Deixar comentário