Bruma Assassina, A

05/06/2007 | Categoria: Críticas

Com personagens frágeis e atmosfera assustadora, filme de John Carpenter é irregular

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A inspirada seqüência de abertura de “A Bruma Assassina” (The Fog, EUA, 1980), apesar de desconectada de todo o resto da narrativa, dá uma pista claríssima ao espectador sobre o tipo de efeito pretendido pelo cineasta John Carpenter. A cena mostra um velho e algumas crianças ao redor de uma fogueira, num acampamento de crianças. Estamos perto da meia-noite, faz muito frio, e o idoso começa a contar, com voz cavernosa, uma história de fantasma. Como Carpenter, o narrador tem apenas um objetivo em mente: meter medo, muito medo na platéia.

Curiosamente, a cena foi filmada e acrescentada ao trabalho depois que a primeira edição já havia sido concluída. É que o estúdio havia considerado a metragem original muito curta (o filme tinha menos de 1h20), tendo ainda pedido a Carpenter que acrescentasse cenas mais explícitas, como era tradição nos filmes B da época (a série “Sexta-feira 13”). O cineasta fez o que lhe foi pedido, e até mais. Na versão original, por exemplo, os cadáveres ambulantes que aparecem tão abundantemente no meio da névoa jamais eram mostrados, de forma que a platéia precisava imaginar que tipo de horror, dentro da fumaça, provocava tantas mortes e acidentes esquisitos.

Carpenter também criou novas cenas, inclusive uma em que a personagem de Jamie Lee Curtis toma um tremendo susto, no necrotério, com um corpo que se move. O diretor inseriu o prólogo como uma espécie de bônus, apenas para esticar a duração final. Infelizmente, este prólogo é o único dos acréscimos que funciona, já que as alterações solicitadas pelo estúdio não apenas soam ilógicas (a tal cena do necrotério resulta gratuita e sem sentido), mas também emprestam ao resultado final uma atmosfera claramente infanto-juvenil, eliminando toda a aura de mistério – e conseqüentemente todo o charme B – que a produção original possuía. Uma pena.

Ainda assim, a história de fantasmas sobre um vilarejo de pescadores assombrados pelos fantasmas de uma tragédia ocorrida 100 anos antes tem lá seus encantos. Toda a ambientação é correta, e as excelentes tomadas que mostram a névoa se movendo lentamente, do meio do oceano e em direção à costa, são bem realizadas. Há personagens promissores, como a radialista (Adrienne Barbeau) obrigada a passar as noites acordada sozinha na solidão de um farol, mas eles não são bem aproveitados pelo roteiro, soando rasos e sem conflitos internos.

É possível vislumbrar claramente uma influência da obra do diretor italiano Dario Argento no trabalho então desenvolvido por John Carpenter. Como Argento, o norte-americano prefere valorizar a construção de uma atmosfera de horror, em detrimento da história, e por isso o filme ganha um quê de onírico, um clima surrealista de pesadelo, nada realista. Além disso, a direção de atores é um ponto fraco evidente. De qualquer forma, há público certo para este tipo de filme, e o status de cult desfrutado por “A Bruma Assassina” comprova isto. Se você prefere um enredo mais sóbrio, contudo, talvez prefira outras obras de Carpenter, a exemplo de “O Enigma de Outro Mundo” (1982).

O DVD brasileiro, da Universal, contém apenas o filme, com boa qualidade de imagem, (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). A edição especial lançada nos EUA inclui documentário dissecando os bastidores da produção, mas este extra não saiu no disco nacional.

– A Bruma Assassina (The Fog, EUA, 1980)
Direção: John Carpenter
Elenco: Jamie Lee Curtis, Adrienne Barbeau, Janet Leigh, John Houseman
Duração: 89 minutos

| Mais


Deixar comentário