Brüno

01/12/2009 | Categoria: Críticas

Recorrendo à mesma fórmula narrativa de “Borat”, filme expõe idiossincrasias culturais dos EUA recorrendo a procedimentos eticamente questionáveis, apesar de inegavelmente engraçados

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

As semelhanças entre “Brüno” (EUA, 2009) e “Borat” (2006) vão muito além dos títulos, que consistem de duas palavras de cinco letras, ambas nomes próprios de personagens masculinos, iniciadas pela letra B. Os dois filmes foram concebidos pela mente fértil do comediante Sacha Baron Cohen, têm direção do veterano Larry Charles e utilizam a mesma fórmula narrativa – uma coletânea de esquetes no estilo “pegadinha”, em que anônimos contracenam com o protagonista sem saber que se trata de um ator – com o propósito de expor determinadas idiossincrasias culturais dos Estados Unidos, como a homofobia explícita dos estados do meio-oeste (o chamado “cinturão vermelho” do país) e o culto desmedido às celebridades, recorrendo a procedimentos eticamente questionáveis, apesar de inegavelmente engraçados.

Há uma diferença crucial. Em “Borat”, tudo era novidade. A originalidade do método, associada ao enorme talento de Sacha Baron Cohen (o cara realmente é craque em sotaques, caracterização e improvisos), garantia alguns dos momentos mais engraçados da comédia norte-americana contemporânea. O caso de “Brüno” é um pouco diferente, porque o sabor da novidade já se foi, e com ele parte da graça. O enredo é rigorosamente o mesmo: o protagonista estrangeiro realiza uma turnê pelos EUA, acompanhado por um ajudante (Gustaf Hammarsten), e escancara diversos tipos de preconceitos em breves esquetes que pouco têm a ver uns com os outros. A duração curta reforça o conhecimento que Baron Cohen e Larry Charles detêm sobre esse tipo de comédia episódica – para funcionar, um longa precisa ser conciso e rápido.

A organização da linha narrativa em torno dessas “pegadinhas”, ligadas por uma trama ficcional boba e inteiramente dispensável (a paixão do ajudante por Brüno), contribui para que o resultado final seja bastante irregular, em que pese os objetivos distintos de cada seqüência. Um dos melhores momentos flagra Bruno entrevistando mães de bebês candidatos a um papel num comercial de TV. Essas mulheres aceitam submeter os filhos aos mais disparatados pedidos do comediante (aqui, travestido de produtor de moda gay), como vesti-los de nazista e filmá-los pregado numa cruz. Uma das mães até mesmo aceita submeter o filho, de 13 quilos, a um regime que lhe permita perder cinco (!!!!!) quilos em apenas uma semana. Nesses momentos, “Brüno” não tem nada de comédia; está mais para tragédia mesmo, do tipo que escancara até que ponto o culto à celebridade chegou em determinados círculos sociais.

Outros trechos parecem ter o único objetivo de fazer rir a qualquer custo, mesmo que submetendo determinadas pessoas (famosos e anônimos) a constrangimentos mais ridículos do que engraçados. É o caso da cantada que Brüno passa num congressista de meia-idade, tirando as calças na frente do estupefato senhor, dentro do quarto de hotel onde ele concede entrevista; das brincadeiras perigosamente gays que ele faz com um grupo de caçadores acampados no meio de uma floresta; do programa de entrevistas em que mostra fotos do bebê negro supostamente adotado por ele, participando de surubas, a uma platéia indignada; ou mesmo da hilariante cena em que o episódio-piloto do falso programa de entrevistas conduzido pelo produtor (cheio de bizarrices sexuais que incluem o inacreditável uso de um pênis como boneco de mamulengo) é apresentado a um grupo de incrédulos espectadores.

Engraçados? Sim, muitos desses momentos são engraçadíssimos. Mas uma análise crítica de
“Brüno” não pode parar por aí de maneira alguma; não se trata de um filme fácil de analisar, porque, na busca pela “pegadinha” mais engraçada, Sacha Baron Cohen freqüentemente ultrapassa os limites do que seria ético, ou pelo menos aceitável. Tome como exemplo a seqüencia em que ele recebe a ex-cantora Paula Abdul para uma entrevista, numa sala decorada com… imigrantes mexicanos ilegais que, postados de quatro, servem como cadeiras. Evidentemente constrangida, a cantora concede a entrevista sentada nas costas de um deles – e foi criticada severamente por isso. Mas será que Abdul teria tomado essa atitude se Brüno não a estivesse esperando já com a câmera ligada?

É importante observar que o ponto dessa discussão não é defender ou acusar o comportamento das pessoas, mas sim pôr em questão a ética dos procedimentos adotados pelos cineastas (refiro-me tanto ao diretor quanto ao ator) para captar as imagens polêmicas. De fato, “Borat” já nublava os limites éticos em busca da melhor piada, e “Brüno” parece levar essas questões ainda mais longe. Ou seja, estamos diante de um produto sobre o qual a reflexão deve ser não apenas cinematográfica, mas também ética e estética. De qualquer forma, para discutir tudo isso, é importante ver o filme.

O DVD da Sony é simples e traz o filme com qualidade OK de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Quase uma hora de cenas cortadas estão incluídas como material extra.

– Brüno (EUA, 2009)
Direção: Larry Charles
Elenco: Sacha Baron Cohen, Gustaf Hammarsten, Clifford Bañagale
Duração: 81 minutos

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