Bruxa de Blair, A

29/07/2004 | Categoria: Críticas

Fenômeno de marketing ou golpe de sorte, não importa: o filme ainda provoca incômodo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O mundo é contraditório. Para assistir a um filme como “A Bruxa de Blair” (Blair Witch Project, EUA, 2003) e ficar aterrorizado de verdade, seria preciso nunca ter ouvido falar nele. Por outro lado, se a badalação em torno dessa película independente não tivesse sido tão grande, seria impossível ver uma fita dessas no Brasil, um país onde os filmes de um cineasta do naipe de Steven Spielberg esperam dois meses para chegar às telas.

É louvável que um filme como Blair tenha quebrado a barreira dos US$ 140 milhões de bilheteria num país (Estados Unidos) onde o grau de sofisticação técnica do cinema beira o inimaginável. Também é inegável que grande parte desse fenômeno é culpa do marketing genial, que usou um site inteligente na Internet para gerar uma propaganda boca-a-boca de proporções inéditas em torno do filme.

Como cinema, “A Bruxa de Blair” traz de volta a simplicidade das primeiras décadas do cinema. O filme foi feito por cinco estudantes da Universidade de Orlando (EUA) e custou míseros US$ 40 mil. Filmado em películas Super 8 e 16 mm (material amador usado por estudantes), o documentário quebrou recordes históricos. Arrecadou US$ 5 milhões em apenas 27 salas, depois de uma estréia arrasadora, e fez mais de US$ 240 milhões na carreira global, uma cifra incrível para um filme tão barato.

E, afinal, de que trata o filme? A história é simples: três jovens estudantes de cinema que viajavam ao município de Burkittsville, no estado de Maryland (EUA), para filmar um documentário sobre uma lenda local – a existência de uma bruxa responsável por desaparecimentos e assassinatos ocorridos ao redor do bosque local, nos últimos 200 anos – somem depois de entrar na tal floresta. Um ano depois, o material filmado por eles é encontrado. Os 87 minutos do filme seriam, na verdade, uma fita editada pela polícia local a partir das fitas deixadas pelos estudantes.

A grande sacada dos criadores do longa (o cubano Eduardo Sanchez e o norte-americano Daniel Myrick) foi criar um site e divulgar na Internet que toda a história era real. Sem publicidade, grande parte das pessoas que foram assistir ao longa-metragem no Festival de Sundance (EUA), em janeiro de 1999, pensavam que o filme era um documentário. A estratégia provocou pânico na platéia que, atordoada pelas imagens e pela falta de informações sobre a produção, passou a acreditar que o documentário era verídico e que os atores estavam mortos de verdade.

O boato se espalhou de forma tão rápida que até mesmo o maior banco de dados sobre cinema do mundo, o Internet Movie Database, fez constar a data de 26 de outubro de 1994 (dia do suposto desaparecimento dos estudantes) como dia da morte dos atores Heather Donahue, Michael Williams e Joshua Leonard, que protagonizam o filme. O mico histórico foi corrigido dias depois, claro. Mas isso bastou para criar uma lenda descomunal em torno da película. Gerou, também, a noção de que o filme era o produto mais aterrorizante já vistos numa sala de cinema.

Visto anos depois da estréia, “A Bruxa de Blair” não chega nem perto disso. Afinal, o espectador sabe que está vendo uma farsa bem montada. De qualquer forma, “Blair” é cinema criativo. Só que, para compreendê-lo e saber curti-lo, exige que a platéia reaprenda a usar os sentidos. Tem ritmo lento, imagens tremidas o tempo inteiro, longos trechos com a tela negra (só dá para ouvir o som). Não tem sangue, explosões, tiros. E o final permite várias interpretações.

Para o espectador, a sensação de desconforto é crescente. Esse é um filme que ganha muito quando visto em tela pequena, na TV. Além de possuir imagens quase quadradas, na proporção de uma TV normal (4:3), o longa pode provocar náuseas quando visto na sala escura. Às vezes, o cinema inteiro parece rodar junto com a câmera mal iluminada de Heather Donahue, a garota que lidera o trio de estudantes.

Fazer filme sem roteiro – os diálogos são 100% improvisados – significa talento. A direção dos estreantes Eduardo Sánchez e Daniel Myrick, incomum, acerta o alvo, provocando medo genuíno nos atores. A montagem das imagens é um espetáculo de criatividade. O pavor dos três estudantes aumenta no mesmo pulso do pavor da platéia.

Para conseguir o resultado, os cineastas largou o trio no bosque do Seneca Creek State Park, um pântano cheio de rochas e pinheiros. Com eles, apenas um equipamento de Global Position System (GPS), de localização por satélite, além das câmeras. Os três tinham que passar oito dias acampando no pântano, enquanto eram seguidos e submetidos a sustos pelo pessoal da Haxan Films, a produtora responsável.

A rotina era quase militar. Os atores caminhavam cerca de nove quilômetros por dia para chegar a pontos determinados pela equipe através do GPS. Lá, achavam apenas filmes e baterias para as câmeras e comida. Cada um recebia um bilhete dando instruções individuais, do tipo “deixe a câmera ligada quando for dormir”. Ninguém poderia mostrar os bilhetes aos outros. O material obtido registrava sustos reais, já que os atores, com fome, sono e cansaço, não sabiam o que estava acontecendo.

Esse realismo gera bom fruto. Sem sangue, sem imagens fortes, o filme aposta na tensão crescente entre os atores, que, sem dormir e sem comer direito, começam a brigar de verdade. Isso tudo culmina com um monólogo de Heather Donahue, que, de olho esbugalhado na câmera, provoca um dos momentos mais apavorantes dos últimos anos. Filme de terror? Pode crer!

No DVD, o espectador pode encontrar também um segundo falso documentário (50 minutos), intitulado “A Maldição da Bruxa de Blair”. Esse material faria parte do projeto original do filme, mas acabou cortado da edição final. Assim, ele virou uma espécie de programa de TV enfocando o desaparecimento.

Esse segundo pseudo-documentário (feito a partir de entrevistas com supostos amigos e parentes dos desaparecidos, na verdade atores contratados para isso) foi exibido pelo Sci-Fi Channel e acabou funcionando como peça fundamental do esperto marketing criado em torno do filme. Fora isso, há um punhado de cenas deletadas (que nada acrescentam ao filme) e três trailers.

– A Bruxa de Blair (Blair Witch Project, EUA, 1999)
Direção: Eduardo Sánchez e Daniel Myrick
Elenco: Heather Donahue, Michael Williams, Joshua Leonard
Duração: 80 minutos

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